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“Quanto custa mudar o mundo?” análise da dimensão discursiva do ciberativismo na WikiLeaks

Este artigo tem como objetivo estabelecer uma reflexão sobre como as estratégias discursivas são usadas como práticas ciberativistas. Discute-se também o conceito de ciberativismo. Para tal, realiza-se a análise de discurso do vídeo “What does it cost to change the world?”, da organização ciberativista Wikileaks, buscando identificar quais estratégias discursivas são empregadas e com qual finalidade. Faz-se a análise do discurso de base Semiolinguística, calcada na obra de Patrick Charaudeau (2005, 2006, 2008, 2010). Constatou-se que o enunciador utiliza-se da enunciação elocutiva e a persuasão argumentativa por meio de recursos descritivos (efeito de saber, de confidência e de gênero) com a finalidade de incitar, ou seja, fazer-fazer, ou melhor, fazer-colaborar e de colocar no debate social os seus valores de crença.

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“Quanto custa mudar o mundo?” análise da dimensão discursiva do ciberativismo na WikiLeaks

  1. 1. revista Fronteiras – estudos midiáticos14(2): 110-120 maio/agosto 2012© 2012 by Unisinos – doi: 10.4013/fem.2012.142.05“Quanto custa mudar o mundo?” análise dadimensão discursiva do ciberativismo naWikiLeaks“What does it cost to change the world?” analysis of thediscursive dimension of cyberactivism on Wikileaks Willian Fernandes Araújo1 Ernani Cesar de Freitas1RESUMOEste artigo tem como objetivo estabelecer uma reflexão sobre como as estratégias discursivas são usadas como práticas ciberativistas.Discute-se também o conceito de ciberativismo. Para tal, realiza-se a análise de discurso do vídeo “What does it cost to changethe world?”, da organização ciberativista Wikileaks, buscando identificar quais estratégias discursivas são empregadas e com qualfinalidade. Faz-se a análise do discurso de base Semiolinguística, calcada na obra de Patrick Charaudeau (2005, 2006, 2008, 2010).Constatou-se que o enunciador utiliza-se da enunciação elocutiva e a persuasão argumentativa por meio de recursos descritivos(efeito de saber, de confidência e de gênero) com a finalidade de incitar, ou seja, fazer-fazer, ou melhor, fazer-colaborar e de colocarno debate social os seus valores de crença.Palavras-chave: Wikileaks, ciberativismo, discurso, semiolinguística, análise do discurso.ABSTRACTThis article aims to establish a reflection on how the discursive strategies are used as cyberactivist practices. It´s also discussed theconcept of cyberactivism. Thereunto, the discourse analysis of the video “What does it cost to change the world?”, from the cyberactivistorganization Wikileaks, is done, searching to identify which discourse strategies are used and with which purpose. The Semiolinguisticdiscourse analysis is done based on the work of Patrick Charaudeau (2005, 2006, 2008, 2010). It was found that the enunciator usesthe elocutive enunciation and the argumentative persuasion by descriptive resources (effect of knowledge, confidence and gender)with the purpose of inducing, that means, make-make, or better, make-cooperate and place on the social debate their values of belief.Key words: Wikileaks, cyberactivism, discourse, semiolinguistic, discourse analysis.1 Universidade Feevale. ERS 239, 2755, 93352-000, Novo Hamburgo, RS, Brasil. E-mails: willianfaraujo@gmail.com; ernanic@feevale.br.
  2. 2. “Quanto custa mudar o mundo?” análise da dimensão discursiva do ciberativismo na WikiLeaks mais de um minuto de duração, foi divulgado em junhoIntrodução de 2011 e publicado no sítio Vímeo (Wikileaks, 2011), ferramenta de mídia social utilizada para veiculação de produções audiovisuais. A primeira década do século XXI ampliou os de- Diante desse contexto, porém, antes da análise debates sobre o fenômeno da utilização dos novos aparatos discurso propriamente dita, faz-se reflexão teórica sobretecnológicos na busca da mudança de panoramas sociais. o conceito de ciberativismo e o papel das estratégiasComo todo o fenômeno social emergente, o ciberativis- discursivas nas suas práticas. Ao tratar o ciberativismomo ganhou visibilidade midiática em diversos episódios como fenômeno social emergente, mas imanente ao pro-ao longo dos últimos 20 anos. Entretanto, após a grande cesso que deu origem à internet, apresentamos diversosrepercussão de movimentos recentes, entre eles o que ficou conceitos de ciberativismo, condensando, ao fim, umaconhecido como Primavera Árabe, essa prática é observada proposta adequada ao nosso entendimento.midiaticamente como uma novidade, e não como processocontínuo e crescente, que está ligado à própria gênese doque conhecemos hoje por internet. Ao estudar movimentos sociais no panorama so- Ciberativismo: fenômenocietal que chamou de Sociedade em Rede, Castells (2001)afirma que esses movimentos são mobilizados especialmen- social imanente à redete na busca de mudanças simbólicas na sociedade. Dessamaneira, as construções discursivas desses grupos são desuma importância para compreender suas atividades. Dessa Como bem coloca Sérgio Amadeu da Sil-maneira, este artigo tem como objetivo refletir sobre de veira (2010, p. 31), o ativismo por meio das novasque maneira o discurso é usado como prática ciberativista. ferramentas tecnológicas surge na própria esfera Para isso, nos propomos a realizar a análise de uma de definição de padrões dessas tecnologias: “ele in-produção discursiva da organização ciberativista de mídia fluenciou decisivamente grande parte da dinâmica eWikiLeaks. Usaremos a análise do discurso de base Se- das definições sobre os principais protocolos de co-miolinguística, calcada na obra do linguista francês Patrick municação utilizados na conformação da Internet”.Charaudeau (2005, 2006, 2008, 2010). Essa metodologia Ou seja, o ciberativismo é imanente à própria internet.empírico-qualitativa considera o ato de linguagem como A definição de ciberativismo usada por Silveirauma encenação, um jogo comunicativo. (2010) identifica-o como o conjunto de práticas reali- Nessa perspectiva, a linguagem é considerada como zadas em redes cibernéticas em defesa de causas especí-veículo social de comunicação e, diante disso, o dito é ficas, sejam elas políticas, ambientais, sociotécnicas etc.compreendido não como algo individual, mas como um A abrangência dessa conceituação mostra a relevante pre-arranjo entre vozes sociais e intencionalidade individual, ocupação de Silveira (2010) em reconhecer a pluralidade“pois os aspectos psicossocial e situacional lhe garantem de expressões dessa prática, principalmente diante do atualuma individualidade. O discurso é, então, considerado espectro ideológico, que não mais proporciona definiçõescomo um ato interativo de fala, pleno de intencionalidade, estanques como no mundo industrial (Silveira, 2010).entre dois parceiros – os sujeitos do ato de linguagem” Ao colocar o ciberativismo na gênese da própria(Barbisan et al., 2010, p. 177). internet, Silveira (2009, p. 104) se refere ao processo pecu- Este artigo está metodologicamente organizado liar que deu origem ao modelo não proprietário pelo qualpor uma pesquisa descritiva e bibliográfica, valendo-se a conhecemos atualmente, principalmente por ter sidoda abordagem qualitativa para realização da análise do construídadiscurso sobre conteúdo da produção audiovisual inte-grante da campanha “Banking Blockade” (Wikileaks, 2011). colaborativamente por grupos de voluntários que noEsta campanha foi divulgada na internet pela Wikileaks decorrer de sua história foram envolvendo, além doscontra o bloqueio que sofreu de instituições bancárias. acadêmicos e hackers, engenheiros e especialistas deO vídeo “Quanto custa mudar o mundo?”2, com pouco várias empresas, para construírem os elementos fun-2 Nome original é: What does it cost to change the world? Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos 111
  3. 3. Willian Fernandes Araújo, Ernani Cesar de Freitas damentais do funcionamento da rede, a saber, os seus biopolítica da rede, em contraposição ao biopoder. Este protocolos de comunicação. posicionamento remete à reinvenção do conceito de Mi- chel Foucault por Antonio Negri e o seu aprimoramento As características que advêm desse modelo são por autores posteriores.justamente as que proporcionam o poder comunicativo Essa biopolítica evocada por Antoun e Malini (2010)que serve ao ciberativismo. Como comenta Silveira (2011) configura-se como a capacidade de a vida governar-se.em texto posterior, ao mesmo tempo em que o modelo Ou seja, ela se exerce como uma liberdade positiva na ativida-trazido pela internet representa um grande arranjo de de dos usuários ao construírem de forma singular um campotécnicas de controle, apontado como símbolo máximo mais extenso de significados dos acontecimentos sociais.do patamar social chamado por Gilles Deleuze (1992) de Isso se entrelaça com novas narrativas que esmiúçam fatos,Sociedade de Controle, provê a expansão do poder comu- ideias, dados, imagens, que ampliam a capacidade da rede denicacional por meio da grande interatividade, velocidade revelar sentidos que até então eram negociados na lógica doe dispersão da comunicação. Com isso, o ciberativismo gatekeeper3 da mídia tradicional. (Antoun e Malini, 2010).legitima-se na utilização radical de possibilidades como Nessa perspectiva, a biopolítica da rede constitui-seas redes distribuídas, o anonimato, e mesmo a visibilidade como a forma pela qual manifestações autônomas conse-que a internet pode proporcionar. guem exceder os controles e bloqueios da rede (Antoun e A precipitação do modelo social apontado por Malini, 2010). Em outras palavras, a biopolítica consisteDeleuze (1992) como Sociedade de Controle, dá-se após em fazer uma utilização ativista da internet, colocandoa Segunda Guerra Mundial, quando passa a funcionar não suas ferramentas a favor dessas ações.mais com o confinamento em instituições disciplinares, Apesar de não trabalhar com o termo ciberati-como definira Foucault (2007), mas no controle contínuo vismo, a obra de Manuel Castells (1999, 2001, 2003) ée na comunicação instantânea. Deleuze (1992) considera repleta de apontamentos relevantes sobre a utilização daque as sociedades de controle operam com uma terceira tecnologia em ações ativistas. Castells (2003) aborda talgeração de máquinas, com tecnologia da informação e utilização pelo viés dos movimentos sociais, considerandocomputadores. suas mudanças até o momento em que conceitua como Deleuze (1992) atribui a Foucault (2007) o “sociedade em rede”. A noção de “ativista” como um indi-anúncio da passagem desta sociedade disciplinar ao que víduo engajado em uma disputa simbólica é contempladaconceituou como Sociedade de Controle. Entretanto, na obra de Castells (2003), principalmente ao se referirconforme Michel Hardt (2000), é difícil encontrar in- aos movimentos mais recentes.dícios da conceituação feita por Deleuze (1988) na obra Em sua obra “O poder da identidade”, Castellsde Foucault: “ao anunciar tal passagem, Deleuze formula, (2001) detalha melhor as características dos movimentosapós a morte de Foucault, uma ideia que não encontramos sociais em atividade, no que chama de sociedade em rede.expressamente formulada na obra de Foucault” (Hardt, Ao desenhar conceitualmente o panorama desse novo2000, p. 357). estágio social, Castells (2001) salienta a premência da Assim, o posicionamento de Silveira (2011), em identidade como principal significado em um contexto derelação à tensão entre controle e liberdade no ciberativis- desestruturação de instituições e de manifestações cultu-mo neste novo momento da sociedade, é semelhante ao rais marcadas pela efemeridade. Esse diagnóstico tambémapresentado por Henrique Antoun e Fábio Malini (2010). é apresentado por Stuart Hall (1999): aponta esse autorEsses autores compreendem a internet como um campo um processo de enfraquecimento das velhas identidades esocial no qual a liberdade é disputada e que atuação social, o surgimento de novas que fragmentam o antes unificadomobilização e engajamentos são valores da rede. Essa indivíduo moderno. A partir disso, as identidades passamliberdade é considerada, na prática, como os mecanismos a ser construídas pelos indivíduos ao longo de suas vidas.e atos autônomos de cooperação por meio da rede. A importância de compreender o panorama das Desse modo, para Antoun e Malini (2010), as identidades no atual estágio social é fundamental para omanifestações ativistas na internet são tratadas como a entendimento da lógica dos movimentos ciberativistas.3 Termo largamente usado nos estudos de comunicação para caracterizar a edição dos meios de comunicação de massa, a escolha doque será veiculado. Segundo Nelson Traquina (1999), o termo foi criado pelo psicólogo Kurt Lewin, sendo veiculado em artigo em1947. Entretanto, sua aproximação com o campo da comunicação se deve a David Manning White (Traquina, 1999). 112 Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos
  4. 4. “Quanto custa mudar o mundo?” análise da dimensão discursiva do ciberativismo na WikiLeaksConforme lembra Castells (2001), é por meio das prá- Nesse sentido, Ugarte (2008) acredita que fenôme-ticas, principalmente das práticas discursivas, que esses nos sociais como ciberativismo se potencializam diante damovimentos constroem sua autodefinição, ou seja, sua ampliação da autonomia comunicativa. Dessa maneira, oidentidade a ser compartilhada entre seus apoiadores. ciberativismo ocorre por um processo de autoagregação Diante disso, Castells (2001) propõe como método espontânea. Assim, o autor atribui à identidade o status dede análise desses movimentos a utilização das categorias da elemento-chave dessas mobilizações em redes distribuídas.tipologia clássica de Alain Touraine, que, ainda na década A partir desta compreensão, Ugarte (2008)de 1970, as definiu baseando-se em três fatores principais: defende que o ciberativismo, atualmente, é compostoautodefinição, adversários e metasocietal. Essa tipologia de três vias principais unidas pelo que o autor chamautilizada por Castells (2001) propõe uma análise totalmente de ‘empoderamento individual’: discurso, ferramentascalcada nas construções discursivas desses movimentos, e visibilidade.seja diante da construção de sua máscara discursiva (auto- O discurso, chamado por Ugarte (2008, p. 57) dedefinição, identidade) (Charaudeau, 2008), de sua meta de “hacking social4”, além de propiciar uma gama de signi-mudança social, ou mesmo pela afirmação do adversário ficados sociais alternativos à mídia de massa, também édo movimento. apontado como responsável pelo estabelecimento dos A definição proposta por Castells (2001) se baseia componentes identitários classificados como fundamen-em um método de estudos de grupos organizados, princi- tais diante do ambiente distribuído da internet. Ou seja,palmente, os denominados movimentos sociais. Entretanto, a efetividade das ações ciberativistas frente ao diagramaao abordar o ciberativismo, vê-se um espectro mais amplo da rede distribuída depende do engajamento de indiví-e complexo de formas de mobilização. Isso pode fazer com duos desconhecidos. Esse engajamento se dá quando háque as categorias propostas por Castells (2001) possam não identificação com a imagem discursiva, que é construídase aplicar a determinado movimento ciberativista. por meio das enunciações ciberativistas. David de Ugarte (2008), em seu livro “O poder das Já as ferramentas, apontadas por Ugarte (2008)redes”, caracteriza as novas tecnologias de comunicação como uma das três vias fundamentais do ciberativismo,como protagonistas de uma mudança de estrutura de surgem da ideia do “faça você mesmo”. Baseada no ide-poder. Para Ugarte (2008), a abertura do polo de emissão ário da cultura hacker, a criação de ferramentas em prolciberespaço cria um meio global de comunicação capaz de de ações ciberativistas podem ser caracterizadas como asuplantar a edição dos meios de comunicação tradicionais, essência do hacktivismo, uma das tipologias de ciberati-o gatekeeping. A partir desta compreensão da dinâmica vismo, como será exposto no decorrer desta seção.informacional na internet, Ugarte (2008) caracteriza o Por fim, a visibilidade é conceituada por Ugarteciberativismo como uma estratégia de busca de visibilidade (2008) como o objetivo de luta permanente desses movi-midiática e social. mentos. Como foi referido, o ciberativismo para Ugarte Sem entrar em detalhes técnicos sobre a infraestru- (2008) representa uma estratégia de busca da inclusão detura da rede, Ugarte (2008) atribui à forma de comunica- determinados temas na pauta do debate público.ção distribuída a força de fenômenos sociais emergentes, A partir do entendimento deste tripé de sustenta-como o ciberativismo. Assim, a premissa básica de Ugarte ção do ciberativismo (discurso, ferramentas e visibilidade),(2008) é que passamos de um fluxo comunicacional Ugarte (2008, p. 58) define o ciberativista como “alguémdescentralizado para um fluxo distribuído, diminuindo o que utiliza a Internet [...] para difundir um discurso epoder dos conglomerados de mídia. Isto é, o autor (2008) colocar à disposição pública ferramentas que devolvam àsassinala a mudança de uma estrutura de comunicação pessoas poder e a visibilidade que hoje são monopolizadasbaseada nos meios de comunicação tradicionais, para pelas instituições”. Assim, esse autor retoma e enfatizaum ambiente comunicativo como a internet, em que os a ideia do ciberativismo como disputa pela inclusão depolos de fala são diversificados. Com isso, incluem-se no determinadas pautas no agendamento público.debate público grupos sociais antes dependentes da mídia De outra maneira, Samira Feldman Marzochitradicional para manifestação de seu discurso. (2009), em sua tese de doutorado em Sociologia, que teve4 O termo hacker ainda será melhor abordado neste capítulo. No sentido empregado pelo autor neste momento, hacking está ligada àideia de reconfiguração social. Ou seja, o discurso ativista em redes distribuídas como uma forma de reconfiguração das vozes sociaisque circulam na sociedade. Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos 113
  5. 5. Willian Fernandes Araújo, Ernani Cesar de Freitascomo corpus de análise a ONG Greenpeace, vê o cibera- Dessa maneira, a semiolinguística considera a lin-tivismo sob o prisma da cidadania. Cabe lembrar, como guagem como veículo social de comunicação e, diante disto,faz Marzochi (2009), que geralmente esse conceito está compreende o dito não como algo individual, mas como umligado à participação dentro de um Estado. Neste caso, arranjo entre vozes sociais e intencionalidade individual.a autora (2009) frisa que o termo é usado no sentido de Então, o ato de linguagem é considerado umapertencimento a um determinado grupo social. encenação, organizada de acordo com os objetivos de um Desse modo, diante das novas formas de mobili- sujeito comunicante (EUc) que, dentro de certa situaçãozação possibilitadas pela rede mundial de computadores, de comunicação e por meio de determinados mecanismosMarzochi (2009) considera que o ciberativismo pressupõe de encenação do discurso, organiza a encenação do ato deuma nova cidadania, chamada por ela de cibercidadania. linguagem. Ou seja, esse sujeito comunicante, por meioTrata-se de uma ligação social que extrapola as fronteiras de determinadas visadas, organiza e encena suas inten-nacionais. Assim, o ciberativismo representa “uma nova ções de forma a produzir efeitos determinados no sujeitocultura de ligação individual com o mundo [...] O uni- interpretante (TUi).verso deste novo ser político, o cibercidadão, é a Terra em Charaudeau (2008, p. 24) adverte que a finalidadesua existência material e finita” (Marzochi, 2009, p. 286). dos atos de linguagem não deve ser buscada apenas na Ao compreender os conceitos de ciberativismo configuração verbal feita pelo sujeito comunicante, masexplanados até este momento, propõe-se a definição sim no jogo entre ela e o sentido implícito que pode ter,a ser adotada para o presente estudo. Tal proposta “tal jogo depende da relação dos protagonistas entre si e danada mais representa que o agrupamento de aspectos relação dos mesmos com as circunstâncias de discurso queimportantes de cada conceituação apresentada. Dessa os reúnem”. É esse caráter de jogo que faz com que o ato demaneira, consideramos ciberativismo o conjunto de prá- linguagem na semiolinguística seja considerado uma aposta.ticas realizadas em redes cibernéticas, com o objetivo de Sendo assim, o ato de linguagem (A de L), paraampliar os significados sociais por meio da circulação na Charaudeau (2008), é organizado pela relação de com-rede de discursos e de ferramentas capazes de colaborar binação entre implícito e explícito, circundados pelasna defesa de causas específicas. Trata-se de uma nova circunstâncias de discurso (C de D). Essa formação con-cultura de ligação com os assuntos de uma cidadania ceitual é representada pela seguinte fórmula proposta doem contexto global. pelo autor (2008, p. 27): “A de L = [Explícito x Implícito] Na seção seguinte, apresentam-se conceitos es- C de D”.senciais da teoria semiolinguística proposta por Patrick Esse ato de linguagem conceituado por Cha-Charaudeau (2005, 2006, 2008, 2010), a fim de embasar a raudeau (2008) é composto de quatro sujeitos: sujeitoanálise do corpus de pesquisa estabelecido para este estudo. comunicante (EUc) e sujeito interpretante (TUi), seres sociais testemunhas reais do ato de enunciação; além do sujeito destinatário (TUd) e sujeito enunciador (EUe), seres linguageiros, existentes apenas na esfera do discurso.Semiolinguística Assim, o sujeito comunicante é o responsável pela organi- zação do ato de linguagem. Charaudeau (2008) considera o EUc uma testemunha do real, realidade essa sempre Proposta por Patrick Charaudeau no início dos condicionada pelos saberes do interpretante (TUi). Esteanos 1980 (Barbisan et al., 2010), a semiolinguística busca sujeito interpretante, TUi, alvo da encenação de EUc, nãoevitar a dicotomia entre linguagem como um objeto trans- se caracteriza como um receptor passivo. Ao contrário,parente, e seu interesse por do que fala, e a concepção de ele é responsável por construir uma imagem do EUc,linguagem como objeto opaco e seu interesse por como fala. de acordo com as circunstâncias do discurso, buscando Na perspectiva semiolinguística, a análise do dis- apurar as suas intenções. É esse processo de interpretaçãocurso não se trata de uma metodologia experimental, mas que dá origem ao EUe, um sujeito da fala originado pelassim empírico-dedutiva. A partir disso, Charaudeau (2005) intenções de EUc, constituindo-se como sua máscaracompreende que o sujeito analisante parte do material discursiva, e pelas interpretações de TUi.empírico para determinar os objetivos em relação ao objeto O processo de produção de discurso iniciado porconstruído, e que instrumentalização é usada de acordo EUc dá origem a outro ser da fala, como EUe, que é ocom o procedimento proposto. sujeito destinatário, ou TUd, receptor idealizado pelo 114 Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos
  6. 6. “Quanto custa mudar o mundo?” análise da dimensão discursiva do ciberativismo na WikiLeakscomunicante. TUd é a imagem que EUc cria sobre TUi mentários sobre o mundo. Charaudeau (2006) acreditaao propor o ato de linguagem. Entendendo tal dinâmica, que, quanto a saberes de crença, a semiotização do mundoé possível afirmar que EUc tem domínio total sobre TUd, se dá segundo normas das “práticas sociais” que irão nor-estabelecendo uma relação de transparência – ao contrário tear, por exemplo, a avaliação do que é “bom” e do que éde sua relação com TUi, que é uma relação de opacidade, em “mau”. Ou seja, esse tipo de saber baseia sua construção doque TUi depende apenas de si próprio para realizar o pro- mundo de acordo com as maneiras de proceder defendidascesso de interpretação diante da situação discursiva posta. em seu discurso. Desta forma, a relação entre TUd e TUi é fun- A própria logomarca desta organização ciberativis-damental para o entendimento da dinâmica discursiva. ta, que pode ser vista aos 45 segundos do vídeo, representaOs efeitos buscados pelo sujeito comunicante serão pro- um texto iconográfico no qual o sujeito enunciador (EUe)duzidos efetivamente quando o TUi identificar-se com encena-se. Mendoza (2011) vê na construção discursivaessa identidade linguageira interna ao dizer, realizada da logomarca da WikiLeaks uma espécie de manifestaçãopelo sujeito comunicante. Entretanto, a não identificação iconográfica de suas pretensões:entre a imagem criada pelo sujeito comunicante e o sujeitointerpretante nem sempre representa uma falha do comu- Ela funciona como uma espécie de manifesto gráfico,nicante: Charaudeau (2008) exemplifica a “provocação” uma imagem de denso conteúdo político, exprimindocomo uma situação em que a criação deste “ser de fala” uma noção de amplas conclusões. Esta ampulheta cós-(TUd) é propositalmente diferente ao ser social (TUi). mica inclui um globo duplicado visto de um ângulo que Assim, na produção audiovisual que nos propomos coloca o território iraquiano no centro. Dentro desteanalisar temos como sujeito comunicante (EUc) a organi- dispositivo, o planeta superior e mais escuro é trocado,zação Wikileaks. Como interpretante (TUi) deste vídeo, gota a gota, por um novo. O poder da imagem está noteremos todas as pessoas (destinatários) que receberam sentido da inexorabilidade que transmite, aludindo apor meio de suas redes sociais essa publicação ou os que, concepções absolutas como o fluxo do tempo e a forçade alguma forma, seja pelo sítio da organização ou por da gravidade. O símbolo do WikiLeaks pode ser lidobuscadores, consumiram tal produção audiovisual. como uma ameaça otimista que admite que no mundo Assim, ao entrar para a esfera das estratégias dis- de cima não há lugar para esperança. O logotipo narracursivas, consideramos que o enunciador (EUe) se constrói um apocalipse gradual, e por articular este processo decomo alguém que “trabalha para mudar o mundo” e que transformação através da imagem do vazamento, atem certos gastos para isso (“Assistir ao mundo mudando WikiLeaks se define como o agente crítico na trans-como resultado do seu trabalho: Não tem preço”5). Ao se formação de um mundo novo.7enunciar, EUe também cria a imagem de seu interlocutorideal, o TUd, como alguém que concorda com seus sabe- Ou seja, Mendoza (2011) identifica que, por meiores de crença, sua visão de mundo. Comprovamos isto a da encenação discursiva em sua logomarca, a WikiLeakspartir do seguinte enunciado: “Existem algumas pessoas busca tomar uma posição, como EUe, de “agente deque não gostam de mudanças. Para todas as outras, existe transformação do mundo”. Apesar de reconhecermosa Wikileaks”6. que a análise do autor (2011) é repleta de suas opiniões Esses saberes de crença (ou valores de crença) subjetivas sobre a WikiLeaks, encontramos, no decorrerrepresentam o olhar subjetivo do EUc, que constrói sua desta produção audiovisual, possíveis interpretativos quemáscara discursiva (EUe) por meio das avaliações e co- corroboram as assertivas de Mendoza (2011).5 Tradução nossa. Texto original transcrito da produção audiovisual analisada: “Watching the world changing as a result of your work:priceless” (Wikileaks, 2011).6 Tradução nossa. Texto original transcrito do texto audiovisual analisado: “There are some people who don’t like change. For everyoneelse, there is Wikileaks”. (Wikileaks, 2011).7 Tradução nossa. Texto original: It works as a sort of graphic manifesto, an image of dense political content stating a notion of ample con-sequences. A cosmic sandglass encloses a duplicated globe seen from an angle that puts Iraqi territory at the centre. Inside this device the upperand darker planet is exchanged, drip by drip, for a new one. The power of the image lies in the sense of inexorability it conveys, alluding toearthly absolutes like the flow of time and the force of gravity. The WikiLeaks symbol can be read as a bullish threat that grants the upperworld no room for hope. The logo narrates a gradual apocalypse, and by articulating this process of transformation through the image of theleak, WikiLeaks defines itself as the critical agent in the becoming of a new world. Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos 115
  7. 7. Willian Fernandes Araújo, Ernani Cesar de Freitas Após definir os sujeitos do ato de linguagem deste A noção de contrato, dentro da semiolinguística,corpus de estudo, identificamos os elementos do circuito está associada a outras construções importantes, como oexterno ao ato de linguagem, o nível situacional, mediante princípio da pertinência, visto estabelecer que, ao tran-a descrição das seguintes características: físicas, identitárias sacionar o mundo semiotizado, os sujeitos devem poderdos parceiros, contratuais, finalidade do ato de linguagem e compartilhar saberes sobre o mundo. O princípio daa natureza do saber transacionado. Por fim, remetemo-nos influência também se faz relevante para compreensão do contrato. Trata-se da noção de que todo ato de linguagemao nível discursivo, na busca de identificar as estratégias estabelece uma relação de influência entre comunicanteenunciativas, por meio de atitudes enunciativas como os e interpretante.atos locutivos e as modalidades enunciativas. Também há As restrições advindas da adesão a este contrato, deintenção de descrever o mise-en-scène enunciativo elaborado certa forma, normatizam o ato de linguagem influenciandoa partir das estratégias argumentativas que se verificam no nas estratégias discursivas. Isto faz com que a estrutura-dispositivo argumentativo (formado por proposta, proposição ção do ato de linguagem seja composta pelo espaço dase persuasão), além dos procedimentos discursivos encenados. restrições e pelo espaço de estratégias, em que repousamPara melhor dispor esse esquema de análise, veja o Quadro 1. as escolhas possíveis na encenação: Então, conforme o Quadro 1, apresentamos algunsresultados deste estudo, com base na aproximação entre os Denominamos Contrato de comunicação o ritual socio-resultados da análise semiolinguística do discurso realizada linguageiro do qual depende o Implícito codificado e ono corpus de pesquisa e os objetivos traçados. definimos dizendo que ele é constituído pelo conjunto das restrições que codificam as práticas sociolinguagei- ras, lembrando que tais restrições resultam das condições de produção e de interpretação (Circunstâncias deNível situacional: contrato Discurso) do ato de linguagem. Assim, as estratégiasde comunicação e as discursivas mencionadas anteriormente devem ser estudadas em função desse contrato (Charaudeau,restrições discursivas 2008, p. 61, grifo do autor). Essas estratégias discursivas citadas por Charaude- Outra noção importante na obra de Patrick Cha- au (2008) são as escolhas do sujeito comunicante na buscaraudeau (2008) e, consequentemente, na semiolinguística, pela identificação de TUi com TUd, encenando intençõesé a de contrato de comunicação. Tal elaboração teórica de forma a produzir efeitos de, por exemplo, persuasão epressupõe que indivíduos pertencentes a grupos sociais sedução. Por isso, Charaudeau (2008) afirma que todotêm certos consensos linguageiros de suas práticas sociais. o ato de linguagem é dependente de um Contrato deIsso implica a ideia de que o ato de linguagem representa Comunicação, pois é ele que engloba e orienta contratosuma proposição que um EU, buscando influenciar, faz a e estratégias discursivas integrantes do mise-en-scène doum TU aguardando sua adesão. ato de linguagem.Quadro 1. Dispositivo de análise.Chart 1. Analysis device. Objeto de análise Corpus de pesquisa Níveis de análise Categorias de análise Características físicas; características Situacional identitárias dos parceiros; características Página de web contratuais; finalidade do ato de linguagem inicial do sítio Enunciativo: Atos locutivos; modalidadesWikiLeaks da organização enunciativas WikiLeaks Discursivo Argumentativo: dispositivo argumentativo (proposta, proposição e persuasão); procedimentos discursivos de argumentação 116 Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos
  8. 8. “Quanto custa mudar o mundo?” análise da dimensão discursiva do ciberativismo na WikiLeaks Dessa maneira, ao analisar o corpus de estudo deste estabelecidos pelo sujeito comunicante (EUc) diante dasartigo, podemos considerar que se trata de um contrato restrições situacionais, das possibilidades comunicacionaiscomunicativo baseado nas restrições e nas possibilidades do dizer e pelo projeto de fala deste sujeito.discursivas das mídias digitais. Isto é, pressupõe que o Charaudeau (2008) agrupa estas utilizações emenunciado será audiovisual em uma relação monologal de quatro modos de organização do discurso: o Enunciativo,não troca, pois esse enunciado está em uma plataforma de o Descritivo, o Narrativo e o Argumentativo. Esse semio-divulgação de produções audiovisuais anteriormente gra- linguista (2008, p. 74, grifos do autor) afirma que cada umvadas, de que terá alguma relevância para o interpretante, dos modos propõe “uma organização do ‘mundo referencial’,que estará em uma linguagem compreensível, entre outras o que resulta em lógicas de construção desses mundos (des-restrições normativas deste contrato. critivas, narrativas, argumentativas); e uma organização Elemento fundamental na definição do contrato de de sua ‘encenação’ (descritivas, narrativa, argumentativa)”.comunicação, as “visadas discursivas” são concebidas como Para análise do corpus de pesquisa, nos interessaexpectativas da troca linguageira (Charaudeau, 2006). a compreensão dos modos de organização enunciativo,As visadas devem sempre ser definidas de acordo com um inerente a todo o discurso, e o modo de organizaçãoduplo processo: primeiro, a intenção prática do EUc ao argumentativo, que, geralmente, é predominante entre oscomunicar para o TUi, geralmente encontrada no ques- modos de organização, colocando a serviço da comprova-tionamento proposto por Charaudeau (2006): enunciar ção de sua tese os modos narrativo e descritivo.para quê? Segundo, pela condição de autoridade de EUcdiante de TUi. Sendo assim, ao analisar a produção audiovisual daWikiLeaks, acreditamos figurar, como visada dominante, Modo de organização doa visada de incitação: a WikiLeaks não está na posição de discurso enunciativolegitimidade para mandar TUi realizar determinada atitu-de (que acreditamos ser ‘fazer-doar’ ou ‘fazer-colaborar’).Então, o EUc busca, por meio da persuasão/sedução, fazer O modo enunciativo tem atribuição dupla: se-TUi acreditar que terá benefícios ao realizar a ação propos- gundo Charaudeau (2008), esse modo tem como funçãota. Ou seja, o enunciador (EUe) desse ato de linguagem essencial a de dar conta da posição do locutor em relaçãobusca persuadir o enunciatário (TUd), que ao colaborar ao interlocutor, a si próprio e ao mundo. Mas, ao mesmocom sua causa terá “um mundo melhor”. tempo, o modo enunciativo intervém na encenação dos outros modos de organização, o que faz com que Charau- deau (2008) considere que o modo enunciativo comandaNível discursivo: o local do os demais. Assim, “enunciar se refere ao fenômeno que consiste em organizar as categorias da língua, ordenando-mise-en-scène as de forma a que deem conta da posição que o sujeito falante ocupa em relação ao interlocutor, em relação ao que ele diz e em relação ao que o outro diz” (Charaudeau, 2008, O nível discursivo é o lugar das intervenções do p. 82, grifo do autor).sujeito falante, que deve atender a condições como legi- Então, é possível afirmar que o modo enuncia-timidade, credibilidade e captação. São essas condições tivo é composto de três funções baseadas na posição doque propiciam os atos de discurso que resultarão no texto. locutor em relação ao interlocutor: alocutivo, elocutivoA legitimidade é estabelecida externamente ao sujeito falante e delocutivo. O primeiro visa estabelecer uma relaçãoe representa a posição que o permite tomar a fala. A credi- de influência, em que o falante enuncia sua posição embilidade é o julgamento feito por outro em relação ao que relação ao interlocutor buscando influenciar em sua ação.é posto, ou seja, sua veracidade e pertinência. Já a captação Dessa maneira, no modo alocutivo o locutor age sobre orepresenta o que Charaudeau (2005) chama de princípio de interlocutor, estabelecendo uma relação acional, causandoinfluência e regulação, a busca pela sedução ou persuasão. uma relação de influência. O texto originário dos atos de linguagem referidos No modo elocutivo, o falante enuncia o mundo semvai se configurar pela utilização de certos meios linguís- implicar diretamente o interlocutor. Com isso, “visa umaticos: os modos de organização do discurso. Eles são enunciação que tem como efeito modalizar subjetivamente Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos 117
  9. 9. Willian Fernandes Araújo, Ernani Cesar de Freitasa verdade do propósito enunciado, revelando o ponto de “que são suscetíveis de se superpor na configuração discur-vista interno do sujeito falante” (Charaudeau, 2008, p.83, siva de uma argumentação” (Charaudeau, 2008, p. 221).grifo do autor). Assim, proposta representa uma ou mais asserções que O delocutivo é uma estratégia enunciativa de falam sobre um fenômeno do mundo, assemelhando-se aoretomada de uma fala de um terceiro, visto que o sujeito que se costuma chamar de tese. Já a proposição parte docomunicante busca “se apagar” do seu ato de linguagem que Charaudeau chama de “quadro de questionamento”,e, ao mesmo tempo, não implicar o interlocutor. Isso de acordo com a ideia de colocar em funcionamento arepresenta um “‘jogo’ protagonizado pelo sujeito falante, proposta. Isso vai depender da posição que o sujeito tomarácomo se fosse possível a ele não ter ponto de vista, como diante dessa proposta.se pudesse desaparecer por completo do ato de enunciação A persuasão desenvolve uma das opções do referi-e deixar o discurso falar por si” (Charaudeau, 2008, p. 84). do quadro de questionamentos, optando entre refutação, No material audiovisual analisado neste artigo, o justificativa e ponderação. Se o sujeito, em sua proposição,comunicante, por meio da encenação discursiva, enuncia se posicionar contra a proposta, buscará a persuasão comosua opinião sobre o mundo, sem implicar diretamente o prova de refutação. Já se o sujeito se posicionar a favor,interpretante, que nos permite caracterizar como modo a persuasão atenderá a uma justificativa. Caso não hajaenunciativo elocutivo. Com já informado, o sujeito co- tomada de posição, a persuasão atuará como forma de pon-municante (EUc) constrói a imagem (EUe8) de alguém deração. Como afirmam Barbisan et al. (2010), esse modoque por meio de suas atividades busca um ideal, que, no de organização do discurso permite “organizar as relaçõescaso, é o citado no próprio título do vídeo: a mudança do de causalidade que se instauram sobre ações e eventosmundo. O comunicante constrói a imagem de seu desti- do mundo, como o auxílio de vários procedimentos quenatário (TUd) como uma pessoa que concorda com essa incidem sobre o encadeamento e o valor dos argumentos”.mudança do mundo e que, por isso, identifica-se com a Desta forma, considerando que o corpus analisadocausa da organização. encontra-se na razão persuasiva, já que tenta estabelecer provas sobre a proposta do enunciador, identificamos o dispositivo argumentativo da seguinte maneira: Proposta: não existe preço para as mudanças causa-Modo de organização do das pela WikiLeaks (“Assistir ao mundo mudando como resultado do seu trabalho: Não tem preço”9).discurso argumentativo Proposição: essa afirmação é considerada verdade pelo enunciador, então necessita de justificativa. Persuasão: para justificar sua proposição, o enuncia- Considerado por Charaudeau (2008) como o dor recorre à encenação descritiva. Conforme Charaudeaumodo mais difícil de ser tratado, o modo de organização (2008), o modo descritivo apresenta uma série de efeitos deargumentativo está sempre em contato “com um saber encenação discursiva. São eles: efeitos de saber, de realidadeque tenta levar em conta a experiência humana, através e de ficção, confidência e de gênero. Comandada pelo sujeitode certas operações do pensamento” (Charaudeau, 2008, falante, que se torna o descritor, os efeitos são encenados dep. 201). Essa construção de saberes se dá em uma dupla acordo com o projeto de fala deste sujeito. Identificamosperspectiva: razão demonstrativa e razão persuasiva, na encenação persuasiva a utilização do ‘efeito de saber’,em que a demonstrativa estabelece uma relação de buscando o enunciador (EUe) provar a veracidade do quecausalidade e a persuasiva busca estabelecer uma prova. afirma por meio da descrição dos gastos da WikiLeaks:Isso implica a ideia que qualquer asserção pode ser ar-gumentativa, desde que esteja compreendida dentro de Vinte linhas seguras para ajudar a manter o anonima-um dispositivo argumentativo. to: Cinco mil dólares. Enfrentar processos judiciais em Esse dispositivo é caracterizado por Charaudeau cinco países: Um milhão de Dólares. Manter servidores(2008) com três quadros: proposta, proposição e persuasão, em mais de 40 países: duzentos mil dólares. Doações8 EU enunciador, sujeito interno ao dizer.9 Tradução nossa. Texto original transcrito da produção audiovisual analisada: “Watching the world changing as a result of your work:priceless” (Wikileaks, 2011). 118 Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos
  10. 10. “Quanto custa mudar o mundo?” análise da dimensão discursiva do ciberativismo na WikiLeaks perdidas com o bloqueio bancário: quinze milhões de imagem criada por ele e o indivíduo psicossocial que acessa dólares. Adicione o custo da prisão domiciliar: qui- o sítio. Ou seja, busca construir uma identidade fortemente nhentos mil dólares10 (Wikileaks, 2011). baseada nas opiniões da WikiLeaks, em relação ao mundo, que faça com que os indivíduos que ingressarem em seu Além do “efeito de saber”, identificamos outros ato de linguagem, identificando-se com a imagem criada,dois efeitos discursivos do modo descritivo. São eles: efeito passem a engajar-se de alguma maneira no projeto de açãode confidência e efeito de gênero. No primeiro, há uma “in- proposto por esta organização.tervenção explícita ou implícita do descritor, que é levado Essa constatação vai ao encontro da percepçãoa exprimir sua apreciação pessoal” (Charaudeau, 2008, p. de Castells (1999, 2001, 2003) e de Ugarte (2008), que141, grifo do autor). Constatamos esse aparato discursivo apontam as construções identitárias como fator importan-na enumeração dos gastos internos desta organização te do ciberativismo, já que é uma prática que emerge porrealizada no princípio da produção audiovisual. Enquanto meio do ambiente horizontal de comunicação distribuídao locutor enuncia os gastos, o vídeo mostra cenas do co- e em um momento de fragmentação identitária (Hall,tidiano da organização, possibilitando a compreensão de 1999). Dessa maneira, buscando responder parcialmenteque o que se mostra é a intimidade da Wikileaks. ao questionamento que dá origem ao objetivo deste O segundo efeito discursivo descritivo usado para a estudo, acreditamos que as construções discursivas, nopersuasão argumentativa é o efeito de gênero, que “resulta caso analisado, são usadas para moldagem de uma iden-do emprego de alguns procedimentos de discurso que são tidade a ser reconhecida pelos indivíduos que partilhamsuficientemente repetitivos e característicos de um gênero dos seus valores sociais e, a partir disso, fazer com quepara tornar-se o signo deste” (Charaudeau, 2008, p. 142). se engajem em determinada ação: no caso da página deEste tipo de efeito é recorrente em paródias e pastiches. web analisada, a ação de contribuir financeiramente paraTal efeito é verificado na utilização da linguagem carac- manutenção da WikiLeaks. Ou seja, no referido corpus deterística de produções publicitárias. Mais especificamente, análise observou-se a orientação das estratégias discursivasdas produções publicitárias da empresa MasterCard, uma para a relação entre organização ciberativista e indivíduosdas empresas que realizaram o bloqueio bancário à orga- usuários da rede, na busca por persuadi-los a tornarem-senização enunciadora da presente campanha. Isso fica claro apoiadores. Da mesma forma, nota-se na análise realizadatambém na arte gráfica utilizada para formar a logomarca a disputa simbólica entre vozes sociais, realizada pelada organização: um símbolo vermelho e amarelo, muito organização ciberativista por meio da construção do seusemelhante à logomarca da MasterCard, “se derrete”, discurso. Acreditamos residir nesse fato mais um aponta-formando o símbolo da Wikileaks. mento possível sobre como o discurso é usado de maneira estratégica por ciberativistas. Consideramos esta disputa simbólica a partir da construção de um projeto de influên- cia social pelo enunciador, que visa colocar sua ‘voz social’Considerações finais em contraposição, no caso desta produção audiovisual, ao bloqueio bancário realizado por determinadas empresas. Dessa maneira, retomando o objetivo deste estudo, Podemos afirmar que o material analisado é rico acreditamos que esta produção audiovisual apresentouem estratégias discursivas, evidenciando a busca por duas formas nas quais as estratégias discursivas servempersuasão pelo enunciador em seu projeto de fala, o qual a propósitos ciberativistas: a busca pela identificação defoi identificado na finalidade de incitação, ou seja, buscar interlocutores com a finalidade de fazer-fazer, ou melhor,persuadir o enunciatário que, ao realizar determinada fazer-colaborar; e a colocação no debate social dos valoresação, terá benefícios. de crença desta organização. Consideramos que, no corpus Para isso, vê-se que, ao construir seu discurso, o analisado, as estratégias discursivas usadas para alcançarenunciador esforça-se para que haja identificação entre a tais objetivos foram a enunciação elocutiva e a persuasão10 Tradução nossa. Texto original transcrito da produção audiovisual analisada: “Twenty secure phones to assist maintain the anonymous:Five thousand Dollars. Fighting legal cases in five country’s: Um million Dollars. Upkeep servers in over forty countries: two hundred thou-sand Dollars. Donations lost due to the banking blockade: fifteen million dollars. Add the cost due to the house arrest: five hundred thousanddollars” (Wikileaks, 2011). Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos 119
  11. 11. Willian Fernandes Araújo, Ernani Cesar de Freitasargumentativa, por meio de recursos descritivos (efeito de CHARAUDEAU, P. 2008. Linguagem e discurso: modos de orga-saber, confidência e efeito de gênero). nização. São Paulo, Contexto, 256 p. Diante destas assertivas, consideramos que a CHARAUDEAU, P. 2010. Uma problemática comunicacionalproposição do conceito de ciberativismo apresentada dos gêneros discursivos. Revista Signos, 43(suppl.1):77-90.neste artigo – considerado como o conjunto de práti- DELEUZE, G. 1988. Foucault. 1ª ed., São Paulo, Brasiliense,cas realizadas em redes cibernéticas, com o objetivo de 130 p.ampliar os significados sociais por meio da circulação DELEUZE, G. 1992. Conversações: 1972-1990. 1ª ed., Sãona rede de discursos e ferramentas capazes de colaborar Paulo, Editora 34, 232 p.na defesa de causas específicas – está em conformidade FOUCAULT, M. 2007. Microfísica do poder. 24ª ed., Rio decom o que se depreendeu da análise semiolinguística do Janeiro, Graal, 295 p.discurso, que se revelou com uma profícua possibilidade HALL, S. 1999. A identidade cultural na pós-modernidade. 3ª ed.,de aplicação teórico-metodológica no campo de estudos Rio de Janeiro, DP&A, 102 p.da comunicação social, mais especificamente na questão HARDT, M. 2000. A sociedade Mundial de Controle. In: E.de “entender” sentidos construídos nas interações, não ALLIEZ (org.), Gilles Deleuze uma vida Filosófica.1ª ed., Sãosó no plano situacional visível e aparente, mas também Paulo, Editora 34, p. 357-372.no discursivo, ou seja, na mise en scène do ato linguageiro. MARZOCHI, S.F. 2009. Metamodernidade e Política: a ONG Greenpeace. Campinas, SP. Tese de doutorado. Universidade Estadual de Campinas, 509 p. MENDOZA, N. 2011. A tale of two worlds. Apocalypse,Referências 4Chan, WikiLeaks and the silent protocol wars. Disponível em: http://www.radicalphilosophy.com/wp-content/themes/radical- philosophy/download.php?file=../../files_mf/rp166_commenta-ANTOUN, H.; MALINI, F. 2010. Ontologia da Liberdade ry1_ataleoftwoworlds_mendoza.pdf. Acessado em: 17/04/2012.na Rede: as multi-mídias e os dilemas da narrativa coletiva dos SILVEIRA, S.A. 2009. Redes cibernéticas e tecnologias doacontecimentos. In: Encontro Anual da Associação Nacional anonimato: confrontos na sociedade do controle. In: Encontrodos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, XIX, Rio Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduaçãode Janeiro, 2010. Anais... Rio de Janeiro, 1:1-14. em Comunicação, XVIII, Belo Horizonte, 2009. Anais... BeloBARBISAN, L.B.; GOUVÊA, L.H.M.; PAULIUKONIS, Horizonte, 1:1-15M.A.L.; GIERING, M.E.; MONNERAT, R.S.M.; GRAEFF, SILVEIRA, S.A. 2010. Ciberativismo, cultura hacker e o indi-T.F. 2010. Perspectivas discursivo-enunciativas de abordagem vidualismo colaborativo. Revista USP, 86:28-39.do texto. In: A.C. BENTES; M.Q. LEITE (orgs.), Linguística SILVEIRA, S.A. 2011. O fenômeno Wikileaks e as redes dede texto e análise da conversação. São Paulo, Editora Cortez, p. poder. Contemporanea, 9(2):06-21.171-224. TRAQUINA, N. 1999. Jornalismo: questões, teorias e ‘estórias’. 2ªCASTELLS, M. 1999. A Sociedade em rede. São Paulo, Paz e ed., Lisboa, Vega, 360 p.Terra, 617 p. UGARTE, D. 2008. O poder das redes. Porto Alegre, EDIPU-CASTELLS, M. 2001. O Poder da identidade. 3ª ed., São Paulo, CRS, 116 p.Paz e Terra, 530 p. WIKILEAKS. 2011. What Does it Cost to Change the World?CASTELLS, M. 2003. A galáxia da internet: reflexões sobre a in- Disponível em: http://vimeo.com/25412550. Acessado em:ternet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 243 p. 25/06/2011.CHARAUDEAU, P. 2005. Uma análise semiolingüística dotexto e do discurso. In: M.A.L. PAULIUKONIS; S. GAVAZZI(orgs.), Da língua ao discurso: reflexões para o ensino. Rio de Janeiro,Lucerna, p. 11-27.CHARAUDEAU, P. 2006. Discurso das mídias. São Paulo, Submetido: 24/02/2012Contexto, 285 p. Aceito: 05/06/2012 120 Vol. 14 Nº 2 - maio/agosto 2012 revista Fronteiras - estudos midiáticos

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