Diese Präsentation wurde erfolgreich gemeldet.
Die SlideShare-Präsentation wird heruntergeladen. ×
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Anzeige
Nächste SlideShare
Num bairro moderno
Num bairro moderno
Wird geladen in …3
×

Hier ansehen

1 von 46 Anzeige
Anzeige

Weitere Verwandte Inhalte

Diashows für Sie (20)

Ähnlich wie Cristalizacoes (20)

Anzeige

Aktuellste (20)

Anzeige

Cristalizacoes

  1. 1. CESÁRIO VERDE ANÁLISE DO POEMA “CRISTALIZAÇÕES
  2. 2. “Cristalizações” Localização temporal do poema ―Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros Vibra uma imensa claridade crua‖ Primavera Sinestesia: referências tácteis e visuais
  3. 3. “Cristalizações” De cócoras, em linha, os calceteiros, / Com lentidão, terrosos e grosseiros, /Calçam de lado a lado a longa rua.
  4. 4. “Cristalizações” De cócoras porque nem sequer tinham o banquinho de mestre calceteiro Em linha – os calceteiros têm de trabalhar em equipa e muitos dos ajudantes eram trazidos da prisão agrilhoados e teriam que manter forçosamente a fila
  5. 5. “Cristalizações” Com lentidão – devido ao esforço dispendido, os aguilhoados teriam forçosamente os seus movimentos muito mais lentos do que os homens libertos, se bem que este trabalho fosse sempre moroso e penoso Terrosos – adquiriam o tom da terra e da pedra ainda por limpar; quase que fazem parte do próprio solo
  6. 6. “Cristalizações” Grosseiros – não se trata de uma grosseria em relação a estes homens, mas antes um libelo sobre a penosa situação em que se encontravam. Para se chegar a mestre calceteiro era necessário começar a profissão aos sete ou oito anos de idade dado que mais tarde as articulações das mãos já não lhes permitia flexibilidade, tornando-se desajeitadas para o ofício
  7. 7. “Cristalizações” A frialdade exige o movimento; /E as poças de água, como em chão vidrento, / Reflectem a molhada casaria.
  8. 8. “Cristalizações” A frialdade exige o movimento – roupas pouco adequadas em que o trabalho era a única forma de aquecerem E as poças de água, como em chão vidrento – a água reflecte-se nos olhos, como se fora um vidro colocado no chão, assim como nas habitações
  9. 9. “Cristalizações” A molhada casaria – molhada por ter chovido e, muitas vezes, os próprios revestimentos das casas, tantas vezes em mosaico, não serem propícios a secarem rapidamente
  10. 10. “Cristalizações” Casaria – é interessante notar que esta palavra é pouco vulgar empregando- se o seu masculino „casario‟. Casaria são filas de casas tal como os calceteiros são filas de homens. „Casaria‟ empregue no final da segunda estrofe liga-se harmoniosamente a longa rua, localizada no final da primeira estrofe ficando os calceteiros no meio, fechados por este cenário.
  11. 11. “Cristalizações” Casaria e longa rua definem bem a extensão do trabalho que está para ser realizado
  12. 12. “Cristalizações” Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, / Disseminadas, gritam as peixeiras; /Luzem, aquecem na manhã bonita, /Uns barracões de gente pobrezita /E uns quintalórios velhos com parreiras.
  13. 13. “Cristalizações” Cesário burila, à maneira de Baudelaire, a descrição das peixeiras • Sinédoque (toma o todo pela parte) para destacar elementos mais importantes para o exercício da dura profissão: pé e perna
  14. 14. “Cristalizações” • Metonímia - Dando aos rins que a marcha agita – (causa/efeito) para conseguirmos visualizar o bambolear das ancas que devido ao peso e à caminhada provoca dores nos rins, começando a estrofe por afirmar: em pé, ligando novamente o pé à caminhada
  15. 15. “Cristalizações” Paralelamente ao trabalho dos calceteiros, as peixeiras com o seu ar gingão e sonoro pregão espalham-se pela cidade dando brilho onde só há barracões de gente pobre
  16. 16. “Cristalizações” Luzem, aquecem na manhã bonita – Luzem, hipérbole (exagero poético) sublinhando assim que são elas que dão luminosidade aos seres opacos do quotidiano; aquecem porque calcorreiam as ruas vergadas ao peso da canasta (sentido denotativo) e um outro subentendido (conotativo), aquecem o coração dos homens. A manhã bonita interliga-se também às peixeiras que alegram as manhãs dos pobres
  17. 17. “Cristalizações” E uns quintalórios velhos com parreiras – os únicos que podem assistir ao duro trabalho dos calceteiros porque Não se ouvem aves; nem o choro duma nora! /Tornam por outra parte os viandantes
  18. 18. “Cristalizações” Não se ouvem aves; nem o choro duma nora! – é Verão - perífrase Nem o choro duma nora! – muito provavelmente os poços estavam secos como tantas vezes aconteceu no estio lisboeta Tornam por outra parte os viandantes – Quem pode parte para a sua aldeia ou vai “a ares‖
  19. 19. “Cristalizações” E o ferro e a pedra — que união sonora! — /Retinem alto pelo espaço fora, /Com choques rijos, ásperos, cantantes.
  20. 20. “Cristalizações” O ferro dos instrumentos do calceteiro: pá, picareta, forquilha, baldes (para molhar a calçada), formas para os desenhos artísticos
  21. 21. “Cristalizações” Pedra – basalto ou calcário empregues para a calçada A união áspera dos sons do ferro e da pedra criam uma harmónica dissonante
  22. 22. “Cristalizações” Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, braços, /Cuja coluna nunca se endireita, /Partem penedos. Cruzam-se estilhaços. /Pesam enormemente os grossos maços, /Com que outros batem a calçada feita.
  23. 23. “Cristalizações” Bom tempo – A marcha do tempo e dos calceteiros não pára. Chegámos ao Verão, mas a lentidão e a postura curvada do corpo continuam
  24. 24. “Cristalizações” A expressão hiperbólica partem penedos mostra o trabalho duro e pesado Cruzam-se estilhaços – os calceteiros cortam as meias-pedras (assim denominadas) na mão, em postura de concha, de uma forma irregular, com a face superior aparelhada saltando as lascas e quase se entrechocando no ar com as dos outros trabalhadores. Mostra também que o trabalho não é solitário e que é realizado numa área contígua
  25. 25. “Cristalizações” Pesam enormemente os grossos maços – é o peso do instrumento e a pressão do trabalhador sobre o maço ou marreta que faz com que as pedras se enterrem na argamassa Com que outros batem a calçada – frisando novamente um trabalho colectivo
  26. 26. “Cristalizações” A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!/ Que espessos forros! Numa das regueiras/Acamam-se as japonas, os coletes;/E eles descalçam com os picaretes,/Que ferem lume sobre pederneiras.
  27. 27. “Cristalizações” A sua barba agreste! – Cesário insurge-se muitas vezes ao longo da sua vida, com o número de horas de trabalho que faz com que os trabalhadores não tenham tempo para cuidar deles próprios. Assim a barba é descuidada e áspera devido ao pó e a deficientes lavagens
  28. 28. “Cristalizações” A lã dos seus barretes!/ Que espessos forros! – carapuços também forrados a lã e com um debrum largo para o suor ser ensopado e não escorrer para os olhos. A admiração de Cesário em relação aos forros é sublinhada pelo ponto de exclamação
  29. 29. “Cristalizações” Acamam-se as japonas, os coletes – os trabalhadores dobram as jaquetas e os coletes, colocando-os geralmente em cima de uma pedra, quase rente ao chão. É interessante notar que este verso liga-se ao da primeira quintilha seguinte porque japonas também significa arbustos que ficam acamados em bacelos durante o Outono e Inverno. Este verso faz a ligação com a próxima estação do ano que irá estar presente: o Outono
  30. 30. “Cristalizações” E nesse rude mês, que não consente as flores, /Fundeiam, como esquadra em fria paz, /As árvores despidas. Sóbrias cores!/ Mastros, enxárcias, vergas. Valadores/ Atiram terra com as largas pás.
  31. 31. “Cristalizações” E nesse rude mês, que não consente as flores (…) As árvores despidas. Sóbrias cores! - No Outono as árvores perdem as folhas e as cores que elas espalham pelo chão são verdes escuras e castanhos de vários matizes
  32. 32. “Cristalizações” Fundeiam, como esquadra em fria paz – é de salientar a comparação entre a inércia da natureza com os navios parados durante o tempo de sossego
  33. 33. “Cristalizações” Mastros, enxárcias, vergas – Cesário continua a comparar o trabalho dos arruamentos com a frota de guerra e mais particularmente com os apetrechos náuticos e a interdependência entre si No trabalho de calcetaria os homens usam um pau a prumo ao qual está ligado um fio que indicará o desnível do passeio O pau atravessado como o da verga é indispensável porque faz de compasso para a marcação dos desenhos na calçada
  34. 34. “Cristalizações” Eu julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! — /Carros de mão, que chiam carregados, /Conduzem saibros, vagarosamente; /Vê-se a cidade, mercantil, contente: /Madeiras, águas, multidões, telhados!
  35. 35. “Cristalizações” Eu julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! É Inverno e duro como são os do norte do país, esta estação do ano provoca mudanças na natureza e na vida das pessoas
  36. 36. “Cristalizações” Negreiam os quintais enxuga a alvenaria; /Em arco, sem as nuvens flutuantes, /O céu renova a tinta corredia; /E os charcos brilham tanto, que eu diria /Ter ante mim lagoas de brilhantes! Sinédoque: as casas abarracadas interligam-se e reagem com o tempo atmosférico, não chove e as casas têm a oportunidade de secarem
  37. 37. “Cristalizações” E os charcos brilham tanto, que eu diria /Ter ante mim lagoas de brilhantes! - metáfora E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos – a natureza brilha e renova-se como nos é descrita nos últimos versos, mas o homem vai envelhecendo, minguando, tema da mudança tão querido a Camões
  38. 38. “Cristalizações” Eu tudo encontro alegremente exacto. /Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. /E tangem-me, excitados, sacudidos, /O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto! – Cesário o poeta das sinestesias, mistura as sensações ligadas aos cincos sentidos Na quintilha seguinte continua a mostrar a interligação quase simbiótica entre a natureza e o seu próprio ser
  39. 39. “Cristalizações” Com ela sofres, bebes, agonizas:/ Listrões de vinho lançam-lhe divisas,/ E os suspensórios traçam-lhe uma cruz! – o povo desfeito como as suas roupas refugia-se no vinho; é a sua única consolação, mas também essa o leva à agonia (morte) que se torna visível nas manchas da roupa que são as suas “medalhas”. Os suspensórios que prendem a vestimenta têm o formato de uma cruz, simbolizando o sofrimento da vida que têm de acarretar
  40. 40. “Cristalizações” O martírio do povo denuncia poderosamente a injustiça social que está na base “mercantil” da cidade contente, pondo em questão a própria ideologia do progresso que nela se baseia Como os trabalhadores são camponeses, a exploração do campo pela cidade fica também implícita nesta cristalização
  41. 41. “Cristalizações” De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca, /Surge um perfil direito que se aguça; /E ar matinal de quem saiu da toca, /Uma figura fina, desemboca, /Toda abafada num casaco à russa.
  42. 42. “Cristalizações” Uma figura fina, desemboca, /Toda abafada num casaco à russa – no contexto do poema uma figura fina tem duas leituras: fina por pertencer a uma classe social mais privilegiada e por ser esguia
  43. 43. “Cristalizações” Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento /E a quem, à noite na plateia, atraio /Os olhos lisos como polimento! /Com seu rostinho estreito, friorento, /Caminha agora para o seu ensaio.
  44. 44. “Cristalizações” Os olhos lisos como polimento! /Com seu rostinho estreito, friorento, /Caminha agora para o seu ensaio. – descrição da mulher amada: olhos brilhantes e rosto magro Esta figura feminina quebra a monotonia da pobreza, mas só por instantes
  45. 45. “Cristalizações” E aos outros eu admiro os dorsos, os costados /Como lajões. Os bons trabalhadores! /Os filhos das lezírias, dos montados: /Os das planícies, altos, aprumados; /Os das montanhas, baixos, trepadores! – a frágil figura feminina amada, que quebrou a monotonia da pobreza, é o contraste em relação ao povo das diferentes regiões do país: ribatejanos, alentejanos, estremanhos ou transmontanos
  46. 46. “Cristalizações” Nesta composição, o poeta relata a azáfama citadina constatada por ele, associando-a à injustiça que vitima as classes trabalhadoras Através de pensamentos expressos em linguagem simbólica, surge a vida campestre, como denunciadora da exploração dos grandes meios urbanos

×