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Machado de assis

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Machado de assis

  1. 1. Possibilidade de interdisciplinaridade: Machado de Assis e a História brasileira Introdução Na condição de educadores, estamos cada vez mais percebendo a necessidade de “religar” distintas áreas do conhecimento. A profunda especialização específica e necessária pode inviabilizar a percepção das conexões existentes entre as diferentes ciências, fragmentando o saber e o entendimento da realidade. Como professor de História, procuro promover o exercício epistemológico de revelar pontos em comum, canais de comunicação entre áreas do conhecimento nem sempre explorados por profissionais desse componente curricular. Talvez seja essa uma das possibilidades de tentarmos exercitar o que estamos denominando de interdisciplinaridade. “A exigência interdisciplinar que a educação indica reveste-se sobretudo de aspectos pruridisciplinares e transdisciplinares que permitirão novas formas de cooperação, principalmente o caminho de uma policompetência.” (FAZENDA, Ivani, 1998, p.12) Nesse sentido, o texto que segue está pautado pela exploração da potencialidade explicativa da realidade brasileira contida na obra de Machado de Assis. Em ensaio célebre, Sérgio Buarque de Holanda sustentou que a cordialidade possui grande relevância em nossa formação social. Para o historiador, a valorização da personificação das relações pessoais em espaço público e a oposição entre espaços público e privado se revestem de um profundo significado quando explicam o homem cordial brasileiro. Esse é um produto de nossa herança ibérica, herança cuja superação era tida pelo autor como nossa possibilidade de modernidade. Conforme o autor, o entendimento sobre o comportamento do homem cordial possibilita a compreensão de um processo histórico cujo desenvolvimento encaminhava-se para a superação de uma situação de atraso. Isso porque o termo cordial, no emprego linguístico que lhe conferimos, presta-se para um equívoco, pois o entendemos apenas por sua conotação positiva. Ser cordial, na lógica de funcionamento da sociedade brasileira, de forma alguma é sinônimo de ser bom. Trata-se de um conceito com duplo significado. 1
  2. 2. “Cumpre ainda acrescentar que essa cordialidade, estranha, por um lado, a todo formalismo e convencionalismo social, não abrange, por outro, apenas e obrigatoriamente, sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado.” (HOLANDA, 1987, p.107). Característica muito peculiar do nosso agrarismo enquanto herança sócio- cultural, a cordialidade nacional representa o predomínio do ethos do ambiente rural sobre o ethos do ambiente urbano. A compreensão da nossa cordialidade passa, pois, pela análise do nosso passado colonial, de raízes ibéricas. O universo das “casas- grandes” tem muito a nos esclarecer sobre esta ética de fundo emotivo que norteia nossas relações sociais. Retroceder a Machado de Assis nos permite trazer a discussão para um contexto e perspectiva – a do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro – explicativos, na medida em que a tônica dos romances trabalhados diz respeito ao universo familiar criado por um indivíduo muito atento às questões de seu tempo. “Quando, pela primeira vez em nossas letras, com Machado de Assis, a inteligência da forma, bem como as ideias modernas comparecem livres de inadequação e diminuição provinciana, já não é dentro do anterior espírito de missão. Por exemplo, os excelentes recursos intelectuais vinculados a Bento Santiago não representam uma contribuição a mais para a civilização do país, e sim, ousadamente, a cobertura cultural da opressão de classe. Longe de ser uma solução, o refinamento intelectual da elite passa a ser uma face – com aspectos diversos, positivos e também negativos – da configuração social que o romance saudosamente relembra, ou desencantadamente põe a nu.” (SCHWARZ, Roberto. Duas Meninas, p.13). Com seu olhar voltado para o mundo auto-suficiente das classes mais abastadas, Machado revelou as peculiaridades desse ambiente avesso à modernização. A preservação de valores e de um modo de vida - explicitados em Dom Casmurro e Casa Velha – revelaram um apego ao nosso agrarismo e às normas sociais decorrentes. O tratamento verificado entre as personagens machadianas evidencia o traço comprometedor e retrógrado da cordialidade, que direcionava e pautava os laços em ambiente doméstico, os quais se desdobravam inapelavelmente para o universo público, emperrando a democratização da sociedade brasileira. “Todos nós éramos amigos, e não é preciso dizer que no mau sentido, no sentido de velho e acabado.” (MACHADO DE ASSIS, 1981, p.147). 2
  3. 3. Bentinho ou o homem cordial nas ante-salas machadianas O objetivo dessa análise é salientar que a auto-suficiência do ambiente familiar do século XIX criava uma lógica de relacionamento que obstaculizava a necessária racionalidade e impessoalidade do tratamento em nosso país, ou seja, no limite, impedia a democratização da nossa sociedade. A predominância do comportamento cordial na sociedade brasileira é um obstáculo e não um dado positivo, digno de valorização, como até hoje muitos argumentam. Nosso objetivo, ao analisarmos a cordialidade a partir do seu conteúdo sociológico, é garantir direitos, promover a democracia, que significa priorizar princípios universalizantes em nossa vida social, a igualdade no tratamento, a eliminação dos privilégios. Ao contrário, o tratamento cordial valoriza o aspecto pessoal, individual, abrindo brechas para o privilégio, a desigualdade; algo tão corriqueiro em nossa vida social. Circunscritas ao espaço doméstico, as criações literárias de Bento (Dom Casmurro) e Félix (Casa Velha) revelam incapacidades para a resolução de enfrentamentos em complexas situações do cotidiano. Afastados do contato com os “pedagogos” do espaço público, ambos ficam à margem de um saber que lhes seria útil. Kátia Muricy assinala na obra machadiana a necessidade do aprendizado além do universo familiar. Segundo a autora, na denominada segunda fase do escritor fluminense verifica-se uma forte mudança a respeito da sua visão da sociedade brasileira em transformação. “Celibatários, libertinos e mundanas não são mais o anormal do santo pai e da santa mãe de família. São, antes, os pedagogos que ensinam a essência das relações humanas na nova ordem. Nesse sentido, um personagem como o Conselheiro Aires, celibatário por vocação, é veículo da crítica das relações humanas na nova ordem.” (MURICY, 1988, p.19). Bento - que “conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar, tinha orgias do latim e era virgem de mulheres" (op. cit, 1981, p.22) – custara a aprender a andar a cavalo, um conhecimento importante para o ambiente em que vivia; desconhecia a arte da dissimulação e, cotidianamente, compunha análises precipitadas, com decisões imediatistas. Seu maior defeito era a impossibilidade de controlar seus 3
  4. 4. sentimentos. “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem.” Também de fundo emotivo é a relação de Dona Glória (mãe de Bento) com os pais de Capitu. Não obstante, essa senhora não abre mão da atitude racional e metódica para assegurar o poder de sua classe social. Quando ajudou o casal vizinho (de menores posses), Dona Glória não almejou nenhum retorno em nível material. Antes estava preocupada em prestar um favor ao vizinho Pádua (pai de Capitu). O favor, para a nossa análise, constitui-se em um aspecto fundamental da lógica das relações na realidade nacional. De acordo com Roberto Schwarz, na sociedade brasileira, a prática do favor não possui como objetivo precípuo a obtenção de uma contraprestação material. É uma forma de “contrato”, através do qual se realiza a afirmação de uma hierarquia social, a qual possui a virtualidade de se converter em dominação. A expressão utilizada por Machado para demonstrar o poder de Dona Glória a Pádua é emblemática. A matriarca de Matacavalos manda seu Pádua “viver”, como que caricaturizando o poder que de fato teria: o poder de decidir sobre a existência de um vizinho de classe social inferior que, por decorrência daquela “ordem”, passa a lhe dever obediência. A intimação de Dona Glória à manutenção da vida do pai de Capitu representou um favor duradouro, dada sua relevância. Trata-se da recorrente “dívida” que alguns segmentos da nossa sociedade imaginam ter com aqueles de maiores riquezas. Muitos votos são conferidos repetidamente a certos políticos, devido a “serviços prestados”, ou seja, favores concedidos. Por sua vez, o momento de ajuda financeira da mãe de Bento sequer é descrito pelo nosso autor, ao contrário do instante do imperioso “convite à vida”. A ascendência da matriarca sobre a família da futura nora é decisiva, exigindo da adolescente Capitu um profundo entendimento sobre os princípios de convivência com uma classe superior e a possibilidade de ascensão social através do vínculo afetivo racionalmente arquitetado. “Capitu dirige a campanha do casalzinho com esplêndida clareza mental, compreensão dos obstáculos, firmeza – qualidades que faltam inteiramente a seu amigo. As manobras terminam bem, pelo triunfo do amor e pelo casamento, que se sobrepõem às posições de classe.” (SCHWARZ, 1997, p.14). Ao contrário da hábil Capitu (segundo a visão de Bentinho, autor- personagem), Bento é um fracasso nas relações; revela em sua trajetória a dificuldade 4
  5. 5. em ultrapassar os limites da lógica de tratamento doméstico. Representante das camadas proprietárias, Bento não demonstra o entendimento da necessidade de agir conforme as regras dos espaços em que atua. Dessa indistinção de classe podemos traçar um paralelo da apropriação do Estado pelas elites dirigentes. Sem elaborar a transição das lógicas de operacionalidade nos espaços privado e público, Bento é o emblema do rico proprietário que projeta o mando de suas propriedades sobre o domínio do espaço governamental. A proposta de Sérgio Buarque de Holanda é fazermos, em vida pública, o rompimento com a ordem doméstica, pois são espaços distintos que exigem comportamentos e expectativas diferenciadas. “Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo (...). A ordem familiar, em sua forma pura, é abolida por uma transcendência.” (HOLANDA, 1987, p.101). Público e privado: uma indistinção em nossa sociedade Em estudo da década 1980, o antropólogo Roberto DaMatta, retomando argumentação de Sérgio Buarque de Holanda, reafirmou a indistinção entre espaço público e privado na lógica de funcionamento da sociedade brasileira. Entre ambos existe uma oposição. Muito frequentemente, o âmbito da casa é lembrado na rua, para que o brasileiro possa obter algum privilégio. (DaMATTA, 1985). O fato de nos reportarmos à lógica de tratamento do universo familiar em situação de conflito no espaço público se constitui em um grave impedimento para a cidadania (muito corriqueiro o dito: “Sabe com quem está falando?”). Ao contrário do que almeja o homem cordial, ser cidadão implica não em almejar o desfrute do princípio de superioridade social, até porque isso se configura em privilégio, discriminação do outro. O princípio da cidadania seria a igualdade, não o privilégio. Entretanto, ser tratado diferencialmente é uma meta recorrentemente presente em nossa cotidianidade. Isso porque o objetivo da cordialidade é atingir vantagens pessoais, em detrimento do tratamento igualitário. “Na verdade, Sérgio está fazendo uma crítica, e não o endeusamento das ‘virtudes brasileiras’, porque o homem cordial, para ele, é o homem do coração, que se 5
  6. 6. opõe ao homem da razão. E cordial não quer dizer ‘bom’, quer dizer da ‘emoção’. E a emoção perturba o estabelecimento das regras gerais, formais democráticas. A leitura do homem cordial como homem afável é equivocada. Com o conceito, Sérgio Buarque está mostrando outra coisa, está mostrando que esta ‘cordialidade’, na verdade, é uma maneira de reter vantagens individuais.” (CARDOSO, 1993, p.28-29). As trajetórias desses dois romances de Machado de Assis – Casa Velha e Dom Casmurro – nos apontavam as dificuldades de superação da conduta firmada pelo universo familiar: a cordialidade. A família era o centro das tramas e responsável pelo destino das personagens. Ao pé da mãe, Bento cresceu e tomou decisões que iriam muito negativamente marcar sua vida. Escolheu para constituir família uma moça de classe baixa, com a qual se criara. Vivia na auto-suficiência de um universo de posses: no pátio ao lado, a futura esposa; os professores que necessitava vinham à sua casa; criados submissos à disposição e certo “orientador interessado” aconselhava-o constantemente (o “homem livre” José Dias). Quando saía para os espaços distantes da sua casa, contava com a companhia do valoroso José Dias, o qual fazia às vezes de - na condição de pajem “instruído” “Era lido, posto que de atropelo.” (op. cit. 1981 p.11) -, conselheiro, pois lhe ensinava como portar-se em público e como escolher suas companhias. No Passeio Público, desenvolveram diálogo interessante. “Há muito tempo que não venho aqui, talvez um ano”. – Perdoe-me – atalhou ele -, não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua; não se lembra? - É verdade, mas foi tão de passagem... - Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo, e ela, que é boa como a mãe de Deus, consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não é bonito que você ande com o Pádua na rua. - Mas eu andei algumas vezes... - Quando era jovem; em criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço, e ele vai tomando confiança. Dona Glória, afinal, não pode gostar disto. A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e adulação. Oh! A adulação! (p.36). Conforme verificamos a partir da leitura do trecho acima, convenientemente, o agregado aprendera os valores de uma sociedade hierarquizada, onde a manutenção da diferenciação social é definidora das normas de conduta e a garantia de sobrevivência de alguns. Bento fora desaconselhado por José Dias quanto à manutenção do vínculo de convivência com o vizinho pobre. Por extensão, a filha, com 6
  7. 7. os olhos “presenteados” pelo diabo, não seria de confiança. Na verdade, Capitolina, bem como toda sua família pobre, é uma ameaça ao seu domínio. Sobre o pai da jovem, o agregado não poupa comentários. “- (...) Pádua tem uma tendência para gente reles. Em se cheirando a homem chulo é com ele. Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados...” (p.36). A personagem José Dias pertence ao segmento social dos agregados. Representa um grupo dependente, mas com distinção em relação aos mais pobres: possui liberdade e vida digna, em troca de favores. Em situação sempre instável, deve ser racional o tempo todo, sabendo como se portar, o que falar e as ideias que poderá defender, mesmo que entre em contradição. Nada de princípios bem firmados, nem utopias “desnecessárias”, o objetivo é ficar sob o manto protetor de uma família rica, angariando reconhecimento e se diferenciando daqueles que precisavam valer-se do esforço físico para garantir o sustento. Fora José Dias que avisara Dona Glória sobre o perigo da proximidade dos dois adolescentes. Para o agregado, o “Tartaruga” – alcunha que proferia quando citava o pai de Capitu, para frisar sua pretensa superioridade em relação ao vizinho obsequioso, numa disputa evidente entre representantes de classes distintas, porém próximas – bem sabia da inclinação afetiva entre ambos, porém disfarçava com a intenção de tirar vantagem de uma provável união. Esse é o trecho de uma conversa datada: o ano era o de 1857. “- Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia”. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido pelos cantos com a filha do “Tartaruga”, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro a senhora terá muito que lutar para separá-los. - Não acho. Metidos nos cantos? - É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase não sai de lá. A pequena é desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas corressem de maneira que... “Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida...” (p.8). Encerra uma duplicidade a preocupação de José Dias. Com o ingresso do futuro “chefe da família” no seminário, com o objetivo de tornar-se padre, o agregado melhor asseguraria sua permanência na casa de Dona Glória. Por outro lado, visava 7
  8. 8. impedir uma disputa futura, que tivesse origem na junção da família de Capitu à família de Bento, após o enlace matrimonial à vista. A possibilidade de interesse por parte de Pádua não se concretiza, porque o pai de Capitu morre poucos anos após o casamento da filha, além do que não se revelara o interesseiro insinuado pelo agregado. Não obstante, sua filha – sempre segundo a ótica do autor-personagem Bento – mostra sua diferença em relação ao pai. Para mudar de classe, Capitu fora ardilosa no trato. Não poupara carinhos àquela que chamara de “carola, beata, papa-missas” (p.27). Em uma sociedade em que a divisão entre as classes era sempre lembrada pelo intermediário José Dias, somente o amor de Bentinho talvez não assegurasse a elevação da condição social de Capitu. A aceitação da menina na casa de Dona Glória dependeria também da habilidade afetiva da moça de Matacavalos no trato para com sua provável futura sogra. Do contrário, talvez Capitu acabasse nos mesmos termos de Lalau – a personagem de Casa Velha, sua antípoda em termos de pretensões sócio-econômicas -, ou seja, guiando-se sobremaneira pelo aspecto da afetividade e desconsiderando a racional formalidade social, tão necessária para o “sucesso em sociedade”. Aquela personagem, após relacionar-se com o futuro rico herdeiro Félix, por despeito, casa-se com um segeiro e mantém-se no mesmo nível sócio-econômico. Manuseando habilmente o tratamento necessário para transpor a barreira social, Capitu centra suas atenções na dona da casa. Lança mão da racionalidade no trato doméstico, a fim de alcançar vantagens para sua pessoa. Dedica muito do seu tempo à mãe de Bento, mesmo que isso o deixe aflito. Na visita estratégica que fizera à casa do rapaz, quando da protonataria do padre Cabral, Capitu utilizara sempre o título recebido com júbilo pelo professor de Bento, fato este que impacientara José Dias, o qual necessita muito discursar para ser notado na sala entre os convivas. Para angústia do pretendente Bentinho, do início ao final da visita, a proximidade e atenção de Capitu são para com a Dona Glória. Não atende aos apelativos olhares do amado. Esse, em indisfarçável e inábil atitude, demonstra o tempo todo o quanto desconhece os hábitos “de sala” que iriam marcar mais fortemente as atitudes da burguesia em ascensão. Segundo Kátia Muricy, “A corte pedia ‘a mulher de salão’, ‘a mulher da rua’. Os grandes negócios do marido a requeriam, o pequeno comércio da rua a chamava. A mulher de posses devia expor-se ao mundo; nos salões e residências, nos teatros, nas recepções oficiais, nos restaurantes que começavam a surgir.” (MURICY, op. cit. P.57). 8
  9. 9. Capitu sim estava de acordo com a postura pública das novas exigências sociais. Da mesma forma que José Dias, ela é toda cálculo. Apesar da atenção para com Dona Glória, não descuida da conversa principal da sala; suas roupas e sapatos são aqueles utilizados em ocasiões públicas; além do que, dissimula totalmente sua atenção ao pretendente. Bento é o fracasso, no que diz respeito àquela necessidade de tratamento em público. À mercê dos olhares da amada, está o tempo todo a denunciar seu interesse pela vizinha pobre. Procede da mesma forma titubeante e impensada quando estava fora da sua propriedade. Na casa onde acompanharam um séquito religioso que visitava uma enferma tísica, ele lembra de sua situação íntima e ri; nas casas de Capitu e de Sancha denuncia o namoro; e, mais terrivelmente, no teatro onde encenam Otelo interpreta erroneamente a peça. Este ato, contudo, é decisivo para sua trajetória. Julga conveniente que sua amada seja mais passível de morte que Desdêmona, o que direciona o fim trágico do seu relacionamento com a mãe do seu filho. O fechamento do romance demonstra a incapacidade irrestrita da compreensão de Bento no que diz respeito aos códigos do mundo fora de casa, ao mesmo tempo em que nos coloca diante da decisão exacerbada de um marido enciumado. O caráter social do ciúme de Bento é que mais nos interessa. Oriundo de uma classe abastada, conduz sua vida auto-suficiente ao lado de pessoas que lhe devem obediência. Ao contrário dessas pessoas a ele subordinadas, Bento possui uma existência facilitada. Não necessita esforçar-se muito para agradar aqueles que o circundam e, diferentemente do que faz Capitu e José Dias, seu aprendizado para a sociabilidade resulta precário, comparado ao daqueles dois personagens. Apesar de situar-se num extrato social superior ao de Capitu, diante da mesma é um indivíduo inapto. Na relação imediata com a amada, o ciúme de Bento representa uma inaceitável – visto pela ótica da classe à qual pertence o autor-personagem – oposição de classe. Conforme assinala Roberto Schwarz, comparando ao texto muito distante no tempo e espaço, “Em lugar do novo Otelo, que por ciúme destrói e difama a amada, surge um moço rico, de família decadente, filho de mamãe, para o qual energia e liberdade de opinião de uma mocinha mais moderna, além de filha de um vizinho pobre, provam ser intoleráveis. Nesse sentido, os ciúmes condensam uma problemática social ampla, historicamente específica, e funcionam como convulsões da sociedade patriarcal em crise.” (SCHWARZ, 1997, p.11). 9
  10. 10. Conforme estamos salientando, em suas trajetórias ficcionais (que muito nos dizem sobre a problemática social brasileira), Bento evidencia a dificuldade muito presente no homem cordial. Ao contrário das atitudes tomadas por Dona Glória e pelos menos abastados Capitu e José Dias, Bento (assim como Félix, em Casa Velha) se revela um inepto personagem da classe dirigente, cujo universo de auto-suficiência escamoteia e propicia dificuldades ao homem cordial. Conforme argumento de Sérgio Buarque de Holanda, a cordialidade reflete a adesão a formas de convívio que possuem origem na família. Calcado no sentimento de priorizar vontades particulares, tal procedimento é um poderoso obstáculo a uma sociedade em vias de modernização. Em seu isolamento, Bento reproduz a lógica de conveniência do mundo doméstico. Esconde sua falta de determinação, por meio de um sentimento de filho obediente. Sua postura oscila em situações com os subalternos e os dominantes. Capitolina precisa lembrar ao pretendente rico que o mesmo deve dirigir-se com autoridade diante do agregado José Dias. Pragmática, faz com que o amado repita os termos acordados, para ver se aprendera o que a mocinha pobre estava lhe ensinando. “Prometi falar a José Dias nos termos propostos. Capitu repetiu-os acentuando alguns, como principais; e inquiria-me depois sobre eles, a ver se entendera bem, se não trocara uns por outros. E insistia em que pedisse com boa cara, mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer.” (MACHADO DE ASSIS, op. cit. 1981 p.30). Com seus laços sociais mal-sustentados pelo não entendimento da norma, Bento faz parte da longa lista de personagens machadianos que perfazem suas trajetórias de fracasso quando dependem da convivência fora do domínio doméstico. Rubião – personagem de Quincas Borba – é o exemplo mais significativo do movimento guiado pela emoção que resulta em tragédia. A racionalidade capitalista do esposo de Sofia, bem como a do político Camacho, explora os sentimentos íntimos e os bolsos de Rubião, que empobrece e conhece a loucura. Representante de um mundo arcaico em vias de superação, Rubião deve ceder espaço para outra lógica: a da mercantilização das relações. Ficam evidentes as consequências da nossa formação (conforme Sérgio 10
  11. 11. Buarque), ao qual se norteia pela ética de fundo emotivo, produzindo destruição, exploração e indistinção entre público e privado. A guisa de conclusão Após essa explanação, desnecessário se torna repetir a ideia de que literatura e história encontram-se imbricadas. De maneira direta ou tangencialmente, o literato que está descrevendo, problematizando ou fantasiando uma situação qualquer que lhe sirva de conteúdo temático sempre estará tendo como referência a realidade em que vive. Perceber as conexões entre realidade e ficção, assim como os movimentos explicativos entre ambas é tarefa importante para nós educadores, mesmo que sejamos pouco inclinados a conferir relevância à imaginação literária. Não obstante, trata-se de outro texto, cuja intenção precípua não é explicar um processo histórico, antes sim criar um enredo com algum sentido para os leitores. Finalizando em aberto: o que nós historiadores teríamos em comum com esses criadores de estórias e o que as mesmas podem contribuir para promovermos aprendizagens significativas nas salas de aula em que atuamos? Pensemos. Bibliografia BROCA, Brito. Machado de Assis e a política: mais outros estudos. São Paulo, Polis, Brasília, INL, Fundação pró-Memória, 1983. CARDOSO, Fernando Henrique. “Livros que inventaram o Brasil” in CEBRAP, Novos Estudos, n 37, nov1993, pp21-35. DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1985. Didática e Interdisciplinaridade. Ivani C. A. Fazenda (org.), Campinas, São Paulo, Papirus, 1988. Ensinar e aprender: sujeitos, saberes e pesquisa/ Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino (ENDIPE), Rio de Janeiro, DP&A, 2002, 2ª ed. Formação continuada de professores: uma releitura das áreas de conteúdo. Anna Maria Pessoa de Carvalho (coord.), São Paulo, Pioneira Thomson Learning, 2003. FRANCO, Maria Sylvia Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo, Ática, 1974. GLEDSON, John. “Casa Velha: um subsídio para melhor compreender Machado de Assis”. In Machado de Assis, Casa Velha, Rio de Janeiro-Belo Horizonte, Garnier, 1991. 11
  12. 12. GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Rio de Janeiro, Record, 1995. GLEDSON, John. Machado de Assis: impostura e realismo: uma interpretação de Dom Casmurro. São Paulo, Companhia das Letras, 1991. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 19ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1987. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. IANNI, Octávio. Ideia de Brasil Moderno. 2ª reimp. São Paulo, Brasiliense, 1996. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Casa Velha. Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Garnier, 1991. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Dom Casmurro. São Paulo, Abril Cultural, 1981. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 2ª ed. São Paulo, Melhoramentos, s/d. MOTA, Carlos Guilherme (org.) Brasil em perspectiva. 13ª ed., São Paulo, Difel, 1982. MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da Cultura Brasileira: pontos de partida para uma revisão histórica (1933-1974). 4ª ed. 2ª reimp. São Paulo, Ática, 1980. MURICY, Kátia. A razão cética: Machado de Assis e as questões de seu tempo. São Paulo, Companhia das Letras, 1988. OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil-Nação. Petrópolis, Vozes, 1992. Psicologia e Educação: perspectivas teóricas e implicações educacionais Organizadores: Dirléia Fanfa Sarmento, Andréa Rapoport, Paulo Fossatti. Canoas, Salles, 2008. RAÍZES de Sérgio Buarque de Holanda. Francisco de Assis Barbosa (organização e introdução). Rio de Janeiro, Rocco, 1988. RODRIGUES, José Honório. Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico- político. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965. SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. 3ª ed. São Paulo, Duas Cidades, 1988. SCHWARZ, Roberto. Duas Meninas. São Paulo, Companhia das Letras, 1997. SILVA, Luiz Heron da. Identidade Social e a Construção do Conhecimento/ Luiz Heron da Silva, José Clóvis de Azevedo e Edmilson Santos dos Santos. Porto Alegre, Ed. Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1997. 12

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