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Gabriela ordones penna Document Transcript

  • 1. CENTRO UNIVERSITÁRIO SENAC Gabriela Ordones Penna Vamos Garotas!Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina. (1938-1957) São Paulo 2007
  • 2. GABRIELA ORDONES PENNA Vamos Garotas!Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina. (1938-1957) Dissertação de Mestrado apresentada ao Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro, como exigência parcial para obtenção do grau de Mestre em Moda, Cultura e Arte. Orientadora: Profa. Dra. Maria Claudia Bonadio São Paulo 2007 2
  • 3. P397zPenna, Gabriela OrdonesVamos Garotas!Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina(1938-1957) / Gabriela Ordones Penna – São Paulo, 2007.165. f: il. color.Orientadora: Profa. Dra Maria Claudia BonadioDissertação de Mestrado – Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro –São Paulo, 2007.1. “As Garotas do Alceu” 2. Alceu Penna 3. Imprensa - O Cruzeiro. 4. Mulher –moda e corpo. 5. Rio de Janeiro. I. Bonadio, Maria Claudia. II. Centro UniversitárioSenac - Campus Santo Amaro. Mestrado Moda, Cultura e Arte. III. Título. CDD391 3
  • 4. Gabriela Ordones Penna Vamos Garotas! Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina Dissertação de Mestrado apresentada ao Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro, como exigência parcial para obtenção do grau de Mestre em Moda, Cultura e Arte. Orientadora: Profa. Dra. Maria Claudia BonadioA banca examinadora da Dissertação de Mestrado em sessão pública realizada em04/09/07, considerou a candidata: 1) Examinadora: Profa. Dra. Maria Gabriela Marinho 2) Examinadora: Profa. Dra. Denise Bernuzzi Sant´Anna 3) Presidente: Profa. Dra. Maria Claudia Bonadio 4
  • 5. Dedico esse trabalho à TherezaPenna, que me incentivou e apoiouem todos os momentos, tornandoessa pesquisa um momento dedescobertas e redescobertas. 5
  • 6. SUMÁRIOAGRADECIMENTOS............................................................................................................................ 07RESUMO.................................................................................................................................................. 10INTRODUÇÃO1. Olá Garotas, muito prazer.................................................................................................................. 112. “Garotas”: muitas mulheres em uma representação....................................................................... 133. Estruturação dos capítulos e corpus documental............................................................................. 164. Balizas cronológicas............................................................................................................................. 195. Ser Alceu Penna é... ser versátil.......................................................................................................... 22CAPÍTULO 1. “GAROTAS” CARIOCAS E JOVENS: UMA NOVA PERSPECTIVA1.1 “Garotas maravilhosas”: Rio de Janeiro 1938 -1957...................................................................... 311.2 O espaço urbano alia-se às cariocas................................................................................................. 461.3 Um broto de “Garota” : a emergência do conceito de juventude................................................. 56CAPÍTULO 2. UMA REVISTA MODERNA: O CRUZEIRO DAS “GAROTAS”2.1 Os Diários Associados: rumo à integração nacional....................................................................... 642.2 O Cruzeiro: a revista dos arranha-céus............................................................................................712.3 Uma história: “As Garotas do Alceu”.............................................................................................. 83CAPÍTULO 3. O CORPO E A MODA DAS “GAROTAS DO ALCEU”: UM ESPELHO DOAMANHÃ3.1 A moda e o corpo das “Garotas”: um reflexo de transformações................................................ 973.2 A ousadia discreta das “Garotas”: objetos de desejo.................................................................... 116CAPÍTULO 4. “GAROTAS”... ALGO A SER INDEFINIDO4.1 Um homem que desenhou mulheres: o olhar diferenciado........................................................... 1254.2 Imagem e texto na coluna “As Garotas”: uma relação humorística............................................ 1294.3 Garotas modernas ou emancipadas? Uma análise imagética e textual da coluna...................... 135CONCLUSÃO......................................................................................................................................... 148FONTES E BIBLIOGRAFIAS.............................................................................................................. 151CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕES......................................................................................................... 162 6
  • 7. AGRADECIMENTOS A coluna “As Garotas” esteve presente no imaginário de muitos brasileiros. Assim,escrever sobre uma coluna tão significativa e, ao mesmo tempo, pouco explorada pelomeio acadêmico, foi um desafio e, com certeza, não teria conseguido sem a ajuda dealgumas pessoas especiais. Agradeço à Thereza Penna, minha querida tia-avó e irmã de Alceu Penna, quecarinhosamente abriu as portas de seu apartamento no Rio de Janeiro para mim e minhaorientadora a Profa. Dra Maria Claudia Bonadio, nos mostrando o seu acervo sobre oilustrador. Coletamos várias imagens que serviram para a minha dissertação e para oProjeto Figurino: Alceu Penna (2005-2007), bem como para a exposição resultante dele “OBrasil na ponta do lápis: Alceu Penna, modas e figurinos” no Senac-SP (2007). Agradeço a CAPES pelo apoio concedido pela bolsa de estudos, sem a qual nãoteria conseguido concretizar esse percurso acadêmico. Ao DEDOC do Jornal Estado de Minas e a todos os seus funcionários atenciosos.Obrigada em especial à Ivonete, Karla, Irene e Rafael. Sem esse acervo completo, cuidadoe organizado da revista O Cruzeiro e A Cigarra, bem como o de croquis originais dacoluna “Garotas”, eu jamais teria conseguido coletar os dados e imagens que precisava. Obrigada aos meus pais, Aníbal Penna e Patrícia Ordones, que foram o meu porto-seguro e fortaleza nessa caminhada difícil, mas muito compensadora. Seus esforços emprocurar registros sobre a coluna “Garotas” e sobre Alceu Penna, bem como indicarpessoas que eu deveria conversar foram de imensa ajuda. À minha tia, Simone Ordones, que tão generosamente me abrigou em sua casadurante o período do mestrado e tornou possível o meu sonho de escrever essa dissertação. 7
  • 8. Agradeço ao meu avô Aluízio Ordones pelo carinho e apoio incondicional. Aosmeus avós Carmelita Gontijo Penna, Josaphat Penna e Zélia de Moura Ordones, aondequer que estejam. Tenho muito a agradecer, também, a paciência dos meus irmãos Marina e AluisioOrdones. Vocês foram demais! Não poderia ter chegado até aqui se não fosse a minha excepcional orientadoraProfa. Dra. Maria Claudia Bonadio (queria que me orientasse o resto da vida!), queacreditou em mim e no meu trabalho desde o primeiro momento. Foi generosa eprofissional, me auxiliando e estando sempre à postos quando precisava de qualquer coisa,mesmo que não fosse relativo à dissertação. Obrigado pelos constantes incentivos embuscar novas perspectivas acadêmicas e profissionais. Tenho certeza que você já faz parte,de coração, da família Penna. À Heloisa Buarque de Hollanda e à editora do Caderno Feminino do Jornal Estadode Minas, Anna Marina pelos maravilhosos depoimentos sobre a importância da coluna“As Garotas”. Ao Ruy Castro pela generosidade e disposição em ajudar com o meu trabalho.Obrigada pelo texto de abertura da exposição “O Brasil na ponta do lápis: Alceu Penna,modas e figurinos”, que acabei empregando, com muito orgulho, na minha dissertação. Ao corpo docente do mestrado Moda, Cultura e Arte pelo profissionalismo noensino e a generosidade em compartilhar tantos conhecimentos. Em especial à Maria LúciaBueno Ramos, Ana Lúcia Castro, Eliane Robert de Morais, Magnólia Costa e Luiz OctávioCamargo. Às funcionárias brilhantes Juliana e Tissyana. Às Profas. Dras. Maria Gabriela Marinho e Denise Bernuzzi Sant´Anna, queaceitaram o convite, primeiramente, para estarem na minha banca de qualificação eposteriormente na minha banca final. À Profa. Dra. Maria Eduarda Guimarães por ter sido 8
  • 9. suplente na minha qualificação e banca final. À Profa. Dra. Solange Wajnman que aceitouser suplente na minha banca final. Agradeço as contribuições para o crescimento do meutrabalho, abrindo novas perspectivas a ele, muitas vezes, despercebidas por mim. Aos meus colegas de mestrado, em especial Adriana Hegen, Juliana Schmitt,Silvana Holzmeister, Celinha, Cris Gurgel, Oneide de Carvalho, Mauro Fiorani, AlexandraRiquelme e a todos que fizeram dessa jornada algo interessante e divertido. À Profa. Daniela Nunes Figueira que, a partir dos desenhos coletados do ilustradorAlceu Penna, coordenou os trabalhos de modelagem resultantes da exposição sobre oilustrador no Senac-SP. Ao Prof. Lázaro Mourilo responsável pela bela montagem. Àsalunas do Projeto Figurino que se dedicaram firmemente no resgate da memória doprofissional. À Giselda Moreira Garcia e Giselle Safar do Centro Integrado de Moda – CIMO,que me proporcionaram horizontes profissionais e uma oportunidade de expor, pelapalestra “Alceu Penna: a trajetória de um designer versátil” (2007), o conteúdo da minhapesquisa de mestrado até aquele momento. Obrigada a Cyro Del Nero que, no início do mestrado, me recebeu, juntamente commeu pai, em sua casa. Sua atenção pela memória de Alceu Penna será sempre lembrada. Às Profas. Ivone Lourdes e Glória Gomide da PUC-MG, bem como ao Prof. CaioCésar Giannini, que sempre me auxiliaram durante a minha graduação em Publicidade ePropaganda na instituição e continuam, até hoje, sendo muito gentis e solícitos. À querida Profa. Dra. Ana Maria Rabelo Gomes, que me auxiliou na época daelaboração do meu anteprojeto para o mestrado. Obrigada pela sua atenção e carinho. Por fim, ao meu querido companheiro Luis André Nobre que tão carinhosamente epacientemente me “suportou” nos momentos de crise, cansaço e desânimo. Sem você nadaestaria completo. 9
  • 10. RESUMOA moda e o corpo atuam como importantes meios de comunicação da mulher com asociedade. Por meio deles, a mulher estabelece um diálogo com o mundo, refletindo suasaspirações e frustrações. Sendo assim, este trabalho consiste em demonstrar, pelo estudo deimagens da “As Garotas do Alceu”, como Alceu Penna contribuiu para a formação de umaimagem moderna da mulher, na coluna, transmitindo, pelos corpos e a moda das“Garotas”, imagens da emancipação feminina.ABSTRACTThe fashion and the body acts as important medias of the woman with the society. For wayof them, the woman establishes a dialogue with the world, reflecting its aspirations andfrustrations. Being thus, this work consists of demonstrating, through the images´s study of"As Garotas do Alceu", in which way Alceu Penna contributed for the formation of amodern image of the woman, in the column, transmitting, through the bodies and thefashion of the "Garotas", images of the feminine emancipation. 10
  • 11. INTRODUÇÃO1- Olá, Garotas, muito prazer Seria interessante situar o leitor sobre como a coluna “As Garotas do Alceu” cruzouo meu caminho. Entre tantos assuntos, por que eu escolhi este para ser o objeto da minhadissertação de mestrado? Não que fosse mera coincidência, mas o ilustrador Alceu dePaula Penna é meu tio-avô, irmão do meu avô paterno, Josaphat. Desde pequena, os seusdesenhos estiveram presentes na minha vida, inspirando a imaginação. Era comum meuavô chegar com cópias de trabalhos do Alceu, especialmente no almoço de domingo (comuma Amandita escondida no casaco), pois sabia que eu adorava passar as tardesdesenhando. Aí, uma vez munida de todas aquelas figuras, eu ia, compenetrada, tentarfazer pelo menos um parecido. Quanta presunção a minha! Por muitos anos eu não sabia,pela questão da idade, avaliar aquele trabalho como algo além de belos desenhos. Meu avô, sua irmã Thereza e meu pai, Aníbal, sempre foram grandes fontes deconhecimento do trabalho do ilustrador, pois me “abasteciam” de novos desenhos,reportagens e conhecimentos sobre ele. Sempre gostei de desenhar e apreciava as artesvisuais: Alceu Penna era um “prato cheio”. Quanto mais eu conhecia o seu trabalho, maiseu o admirava e me interessava por um assunto constante em seus trabalhos: a moda. Além da influência do meu tio-avô, tive uma ajuda da minha mãe, Patrícia Ordones,para tomar gosto por moda, pois ela trabalhou, durante um bom tempo, como jornalistanessa área no Jornal de Casa 1 e no Jornal de Shopping 2 em Belo Horizonte. Curioso que, a despeito do meu interesse pelo assunto, optei, na ocasião dovestibular, por Publicidade e Propaganda na PUC-MG. Planejava trabalhar com Design1 Publicação do Diário do Comércio que circula, até hoje, semanalmente, direcionada ao público feminino.2 Publicação dos Diários Associados já extinta. 11
  • 12. Gráfico e Direção de Arte e acabei fazendo muitos estágios na área. Completei agraduação, mas já no sexto período (mais da metade do curso) eu sabia que não queriatrabalhar como publicitária. Na ocasião, fiz uma reavaliação de interesses e decidi que erahora de me voltar para a moda, que sempre permeou a minha vida, de uma forma ou deoutra. Meu trabalho de conclusão de curso não podia ter seguido outro direcionamento.Meu grupo apresentou um projeto experimental um estudo de site para a marca mineira deroupas Elvira Matilde, que explorava mecanismos para venda de vestuário pela internet. 3Foi a minha primeira experiência acadêmica com a moda e aquilo me instigou a buscar ummestrado. Há algum tempo, eu me interessava em estudar a obra de Alceu Penna,principalmente, porque minha tia-avó Thereza sempre manifestou o desejo em darcontinuidade à sua memória de alguma maneira. A pesquisa do mestrado foi umaoportunidade de concretizar esses objetivos, algo que acabou por me aproximar ainda maisda moda. Essa dissertação, posso dizer, é uma concretização de um sonho, há muito tempoalmejado, em contribuir para o resgate do traço e importância do meu tio-avô, um homem,a meu ver, à frente de seu tempo.3 http://www.elviramatilde.com.br/ 12
  • 13. 2- As Garotas: muitas mulheres em uma representação Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê. Quem sente não é quem é. Atento ao que sou e vejo, torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo. É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem, assisto à minha passagem, diverso, móbil e só. Não sei sentir-me onde estou , por isso, alheio, vou lendo, como páginas, meu ser (...). 4 Nos últimos anos, têm-se ampliado os estudos sobre a história da moda brasileira,em especial, sobre um personagem importante nessa narrativa: Alceu Penna. No decorrerda minha pesquisa, percebi esforços variados, principalmente desde a década de 1990, nocampo de trabalhos acadêmicos como os de Ruth Joffily 5 , Maria Claudia Bonadio 6 , CarlaBassanezzi e Leslye Bombonatto Ursini 7 e Marina Bruno Santo Anastácio 8 . Outra iniciativa que resgatou a memória do ilustrador foi o Projeto Figurino: AlceuPenna, desenvolvido no Senac-SP, do qual participei colaborando com a pesquisa histórica,que contribuiu para a sua memória instigando alunos e professores. 9 O projeto visou afamiliarizar os alunos de graduação com a obra do ilustrador e a reprodução de looks dealguns de seus modelos. Nesse sentido, as alunas realizaram estudos sobre modelagem daépoca, percebendo os significados da moda e do corpo para as mulheres que eram jovensno período.4 PESSOA, Fernando. Não sei quantas almas tenho. Disponível em:http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v096.txt. Acessado em 19 de junho de 2007.5 JOFFILY, Ruth. Jornalismo de Moda. Jornalismo feminino e a obra de Alceu Penna. Dissertação demestrado apresentada ao departamento de Comunicação da UFRJ, 2002.6 BONADIO, Maria Claudia. O fio sintético é um show! Moda, política e publicidade Rhodia S/A. 1960-1970. Tese de Doutorado. Campinas, 20057 BASSANEZI, Carla. URSINI, Bombonatto Leslye. O Cruzeiro e As Garotas. In: Cadernos Pagu. Núcleode Estudos de gênero. Unicamp, 19958 ANASTÁCIO, Marina Bruno Santo. Garotas do Alceu: moda feminina brasileira nas páginas de “OCruzeiro” entre 1938 e 1958. Monografia, UFRJ, Rio de Janeiro, 2003.9 O Projeto Figurino teve a coordenação geral da Profa Dra Maria Claudia Bonadio e das atividades demodelagem pela Profa Daniela Nunes Figueira. Esse núcleo de pesquisa resultou a exposição “O Brasil naponta do lápis: Alceu Penna, modas e figurinos” no Centro Universitários Senac-SP em maio de 2007. 13
  • 14. Verifiquei que Alceu Penna é explorado em crônicas e textos não acadêmicostambém. Alguns dos autores que trabalham nesse sentido são Joaquim Ferreira dosSantos 10 , Alberto Vilas 11 e Gonçalo Junior 12 , que lançam informações sobre arepresentatividade do seu trabalho no cenário brasileiro. Eles enfocam, sobretudo, a coluna“As Garotas”, o trabalho mais conhecido do ilustrador. O conjunto de sua obra traz informações importantes sobre a história brasileira, emespecial das mulheres, assim como a imprensa nacional, moda, arte, entre outros,necessitando, portanto, de uma dedicação maior por parte dos estudiosos. Dessa maneira,essa dissertação integra os esforços em ampliar as reflexões sobre a sua produção, emespecial, “As Garotas do Alceu”. Na coluna, o corpo e a moda ocupam posição de destaque, tanto que a maioria dosautores citados neste trabalho que a abordam, tangenciam esses assuntos, de uma maneiraou de outra. Entretanto, mesmo com as valorosas iniciativas, existe uma necessidade deestudo maior sobre eles na coluna “As Garotas”, objetivo que procurei perseguir nessetrabalho. Na ocasião da elaboração do meu anteprojeto, a obra “Alceu Penna e as Garotas doBrasil: moda e imprensa 1933/1980”, de Gonçalo Junior, foi um começo para mim, poisalém de fazer um mapeamento da carreira do ilustrador ele tratava, brevemente, dacontribuição das “Garotas” para o cenário feminino, colocando-as como um exemplo defutura emancipação. Instigada por ela, pesquisei alguns desenhos dele que tinha em casa e confirmei quea mulher era retratada diferencialmente na coluna, principalmente para os padrões moraisvigentes. Isso me chamou a atenção e me interessou, pois, apesar de ser quase um consenso10 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Feliz 1958: o ano que não devia terminar. Rio de Janeiro: Record, 200311 VILLAS, Alberto. O mundo acabou. São Paulo: Globo, 200612 JUNIOR, Gonçalo. Alceu Penna e as garotas do Brasil: moda e imprensa 1933/1980. São Paulo: Clubedos Quadrinhos, 2004. 14
  • 15. que elas eram muito avançadas para a época, seria uma oportunidade de aprofundar essareflexão. Os estudos imagéticos, juntamente com o auxílio dos textos da coluna, mepareceram bons mecanismos para estudá-la, pois era pela visualidade da coluna (cores,formas, composição, etc.) e pelos textos maliciosos que a figura feminina ousada sedestacava. O corpo e a moda das “Garotas”, juntamente com todos os recursos visuaisempregados, trabalhavam juntos para comunicar uma mulher em processo de transição. Em linhas gerais, este trabalho consiste em demonstrar, por meio do estudo dacoluna “As Garotas do Alceu”, como Alceu Penna contribuiu para a construção de umaimagem moderna da mulher13 , mostrando nos corpos e na moda das “Garotas” “imagensda emancipação feminina” 14 .13 Mulher moderna: compreendo como uma mulher que, apesar de compartilhar de elementos tradicionaisrelativos ao seu papel como mãe e esposa, por exemplo, consegue ir além deles, permitindo-se ter outrasaspirações, como uma profissão, uma vida ligada mais aos prazeres que aos compromissos de um lar, tervários relacionamentos ao mesmo tempo, enfim, experimentar papéis menos tradicionais, gozando, assim, demaior liberdade. O conceito de mulher moderna será trabalhado com maiores detalhes no capítulo 3.14 Entendo como imagens da emancipação feminina um estágio em que a mulher ainda não se libertoucompletamente das amarras da sociedade patriarcal, mas demonstra que já está caminhando para isso. 15
  • 16. 3- Estruturação dos capítulos e corpus documental O primeiro capítulo, “Garotas cariocas e jovens: uma nova perspectiva”, trazelementos do contexto mostrado pelas “Garotas”. Na parte inicial, procurou-se apresentar eanalisar imagens e textos presentes na coluna caracterizando as ilustrações pelo seu estilode vida, o grupo social, os costumes e preferências. Esse enfoque é relevante, poisconfirma as imagens propagadas na coluna, auxiliando no entendimento do contexto e dasilustrações como figuras femininas cariocas. Na segunda parte do capítulo, trato das“Garotas” como jovens, uma categoria etária que começava a se definir no cenáriobrasileiro nos anos 1950. Nele procuro identificá-las como pertencentes a esse grupo, quetinha vestuário, linguagem, hábitos e preferências particulares e que, naquele momento,buscava uma identidade própria. O segundo capítulo, “Uma revista em especial: O Cruzeiro das ‘Garotas’”, trata,inicialmente, do império brasileiro das comunicações daquele período, os DiáriosAssociados, discorrendo sobre a sua história, importância no cenário da imprensa doBrasil, bem como, de forma breve, os periódicos e propriedades do grupo, em especial asrevistas O Cruzeiro e A Cigarra. Em um segundo momento, é abordado somente OCruzeiro, trazendo elementos como a sua história, características, público-alvo e conteúdo,evidenciado o seu papel como um marco no formato de revistas. O trabalho de AlceuPenna para a publicação é colocado em evidência, bem como a sua importância. Por fim, acoluna “As Garotas do Alceu” é estudada com maior dedicação, sendo investigadas asprincipais características, os respectivos redatores envolvidos, bem como o período devigência de cada um. O terceiro capítulo, “O corpo e a moda das ‘Garotas do Alceu’: um espelho doamanhã”, aborda inicialmente o corpo e a moda como meios de comunicação da mulher na 16
  • 17. sociedade. A maneira com que a mulher contemporânea à coluna se relacionava com eles éanalisada, indicando-se, comparativamente, como era essa relação para “As Garotas”,perpassando temas como a cultura física e os comportamentos. Na segunda parte étrabalhado o conceito de mulher moderna veiculado pelos meios de comunicação,especialmente em O Cruzeiro. Nesse sentido é explorado até que ponto o perfil femininodas “Garotas” vai ao encontro desse ideal e de que maneira eles se separam. No quarto capítulo, “’Garotas’... algo a ser indefinido”, é analisada a questão doilustrador, um homem que desenhou mulheres, enfocando a produção e interpretação daimagem como um modo particular de o indivíduo ver o mundo e absorver o contexto emque está inserido. Na segunda parte, a forte ligação entre as imagens, os textos e o humorserá abordada. Por fim, será feita uma análise de imagens da coluna, juntamente com oauxílio dos textos, salientando os dois lados contraditórios das “Garotas”: ousado erecatado *** Atualmente, os acervos mais completos disponíveis sobre O Cruzeiro e a coluna“As Garotas do Alceu” são: o jornal Estado de Minas, em Belo Horizonte, e a BibliotecaMário de Andrade, em São Paulo 15 . Optei pelo acervo do Estado de Minas, pois, além deresguardar a coleção completa da revista em microfilme, o jornal também a disponibilizaem papel, devidamente encadernada e de fácil manuseio. Além disso, o arquivo temoriginais conservados da coluna “Garotas”, os quais trouxeram elementos novos a respeitodo processo de sua elaboração. Outra fonte de pesquisa foi o acervo de Thereza Penna. Nele existem registrossobre a carreira do ilustrador em geral, tais como capas de revistas, cadernos de desenhos,15 O acervo de O Cruzeiro foi para o Estado de Minas, publicação dos Diários Associados, após a falência darevista, em 1980. O jornal foi a única publicação dos Diários Associados com dinheiro e estrutura suficientespara comprar o arquivo. 17
  • 18. publicidade e uma enormidade de outras referências pouco conhecidas. As conversas comThereza foram igualmente importantes, já que ela conviveu por anos de forma próximacom seu irmão. 18
  • 19. 4- Balizas cronológicas A coluna “As Garotas” conta ao longo de sua vigência com diversas colaboraçõesde redatores, que auxiliaram “a dar vida” a essas figurinhas tão populares no Brasil emmeados do século XX. As contribuições mais freqüentes e homogêneas, portanto, maisrelevantes foram as de Alceu Penna, Accioly Netto (Lyto), Millôr Fernandes (Vão Gôgo),Edgar Alencar (A. Ladino) e Maria Luiza Castelo Branco. 16 Examinando as características de cada um deles, percebe-se que, excetuando aredatora Maria Luiza, todos os outros formam um conjunto singular. Os temas e textosdesse grupo são mais sensuais, maliciosos e bem-humorados e, portanto, se relacionammelhor com a imagem da mulher moderna propagada pela coluna. Esse perfil pode serpercebido, por exemplo, no texto de A. Ladino: “E ao invés das Garotas submissas,obedientes e quietinhas, como seria do nosso agrado, temos que enfrenta-las de igual paraigual.” 17 . Os temas e textos da redatora Maria Luiza Castello Branco são mais monótonos eassumem um tom de conselho para as leitoras, deixando de lado a ousadia para tratar detemas mais tradicionais como o casamento. A passagem a seguir, fala de um chá depanelas, um evento preparatório para o casamento, em nada semelhante à ousadia e malíciado primeiro grupo de redatores: “Para dar uma sacudidela nas amigas a Garota resolve darum “Chá de panelas”: cada uma das convidadas traz um utensílio para sua futura casa. ” 1816 Os redatores serão estudados com mais profundidade no capítulo 02, especificamente no item sobre acoluna “Garotas”.17 “As Garotas do Alceu”. “Mas as Garotas de hoje são assim!”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 09 deoutubro de 1948. p. 34 e 3518 “As Garotas do Alceu”. “Garotas e o chá de panela”. Texto Maria Luiza. In: O CRUZEIRO. 31 de outubro1959, p. 40-41. 19
  • 20. Assim, o trabalho terá um recorte cronológico feito pelos textos. O período a serestudado vai do início da coluna em 1938, quando Alceu Penna ilustra e escreve os textosaté 1957, quando Edgar Alencar (A. Ladino) finda sua colaboração. Esse período também se torna oportuno para a análise, pois, além de compartilharde textos singulares ele caracteriza-se por transformações importantes no contextobrasileiro e na própria publicação de O Cruzeiro, os quais seriam importantes destacar. Além de ser o ano de início da coluna, 1938 torna-se um ponto de partidaimportante, pois antecede o conflito da Segunda Guerra Mundial e marca a crescenteinfluência do american way of life na América Latina, principalmente pelo cinema. Essemomento vai evidenciar a transição e o convívio das influências francesas e norte-americanas no país, importante para a compreensão da coluna em geral. Além disso, é também, ocasião do Estado Novo, um período marcado pelaemergência de um determinado ideal nacional. Esse tom é reproduzido na coluna,ilustrando uma figura feminina que, mesmo diante de influências estrangeiras, permaneceessencialmente brasileira, cultivando hábitos característicos de um morador do Rio deJaneiro como ir às praias e aos bailes de carnaval. Sob a perspectivada publicação O Cruzeiro, a exploração da década de 1940 éigualmente preciosa, pois ela sofre uma reformulação, presenciando vendagens grandiosas.Os conteúdos femininos, incluindo a coluna “As Garotas”, ganharam uma atenção especialnessa empreitada. Essas informações levam a crer que o público leitor da revista aumentoue, consequentemente, o da coluna também, que começava a se tornar bastante conhecida. O período de análise desse trabalho se finda em 1957, pois além de ser o ano demudança de redator, os últimos anos da seção coincidem com um período de reestruturaçãoda imprensa e de novos veículos moda/mulher, que compartilharam de um direcionamentodistinto de O Cruzeiro. A revista Manchete (1952), uma importante concorrente da 20
  • 21. publicação, vai introduzir um formato gráfico mais avançado, impressa em um papel demelhor qualidade e contando com uma diagramação mais cuidadosa e atraente. A revistaClaudia (1961), por exemplo, coloca em pauta de forma mais aberta que na publicação das“Garotas”, temas como sexo e comportamento, sendo direcionada a uma mulher queansiava por uma identidade em meio à explosão consumista. Em termos de contexto político-econômico, o Brasil também entra em uma novafase, marcada pelo governo de JK, que introduzirá metas desenvolvimentistas e de aberturade mercado que alterarão o panorama do país em termos de padrões de consumo, imprensa,tecnologia, transportes entre outros. Esses fatos, juntamente com o estudo do período dos redatores citados, sóacrescentam informações valiosas ao trabalho, onde o recorte pelos textos complementa asinformações fornecidas pelo contexto nacional contemporâneo à coluna, auxiliando nadelimitação da linha cronológica a ser seguida. 21
  • 22. 5 - Ser Alceu Penna é... ser versátil “Impossível esquecer o impacto causado por seus desenhos: as cores, o movimento, a vivacidade e a criatividade. O balanço das saias e dos corpos de suas Garotas ou o brilho e a sensualidade esfuziante de suas fantasias para shows e bailes de carnaval. Alceu misturava, como poucos, texturas, brilhos, babados, sonhos”. (Ruy Castro. Exposição “O Brasil na ponta do lápis”: Alceu Penna, modas e figurinos) 19 Alceu de Paula Penna nasceu em 1915 na cidade de Curvelo, norte de MinasGerais. Em 1932 ele muda para o Rio de Janeiro e matricula-se na Escola Nacional deBelas Artes. O primeiro emprego que conseguiu quando chegou à capital foi nosuplemento infantil de O Jornal, publicação do empresário Assis Chateaubriand. Esseemprego o levaria a conhecer Accioly Netto, inicialmente secretário de redação da revistaO Cruzeiro e, mais tarde, responsável por sua reformulação, a partir da década 1940. Em 1933, após esse contato, Alceu Penna dá início a um longo período de colaborações para a revista, incluindo editoriais de moda, capas e ilustrações de contos. Em 1936, fruto de uma indicação de Accioly Netto, que viria a se tornar um grande amigo, Alceu Penna inicia trabalhos para os mais Fig 01. Alceu Penna desenhando. O diversos cassinos da época, contribuindo com os ilustrador não costumava trabalhar fora de casa. Apreciava a companhia de sua figurinos, cenários e cardápios: irmã Thereza e o conforto da sua sala de estar. Sem data.19 CASTRO, Ruy. Texto de abertura da exposição “O Brasil na ponta do lápis: Alceu Penna, modas efigurinos”. Centro Universitário Senac-SP. Maio 2007 22
  • 23. “Até o fechamento das luxuosas casas de jogo pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1946, ele trabalha em todos os cassinos mais famosos do Rio. Além da Urca, atua regularmente no Copacabana, no Icaraí e no Atlântico.” 20 O carnaval estava, desde o início, presente na sua trajetória e era um tema popular nas páginas da revista O Cruzeiro. Ele venceu concursos da Prefeitura do Rio de Janeiro em 1935, referentes às categorias de corso, baile e rua. Em 1936 foi a vez de Alceu Penna concorrer no Palace Hotel, quando se consagrou o grande destaque dos dois concursos: “Como no concurso de 1935, coube a maioria dos prêmios, ao jovem desenhista mineiro Alceu de Paula Penna, que levantou cinco das nove colocações (...).” 21 Mais tarde, em 1974, vai assinar as fantasias do bloco Canários das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Alceu Penna assinou inúmeras ilustrações de sugestões para fantasias em O Cruzeiro, Globo JuvenilAlceu Penna desenhou diversos croquis (periódico de quadrinhos) e na Cigarra (publicaçãopara cassinos e shows, que encantavampela mistura inusitada de cores e formas. feminina), que eram ansiosamente aguardadas:Fig.02 a. Figurino inspirado na óperaCarmem. Sem data.Fig 02 b. Figurino Bolero. Sem data.20 JUNIOR, Gonçalo. Alceu Penna e as garotas do Brasil: moda e imprensa 1933/1980. São Paulo: Clubedos Quadrinhos, 2004, p. 40.21 “O Concurso da A.A.B”. In: Revista O Cruzeiro. 15 de fevereiro, 1936, p.37. 23
  • 24. “Produzia desenhos que atendiam aos variados tipos femininos que compunham seu público: desde as mais modestas, com fantasias menos luxuosas ou modelos improvisados para o carnaval de rua, até as mais abastadas, com sugestões sofisticadas para os bailes de gala.” 22 Alceu Penna se aproximou também das histórias em quadrinhos, sendo um dos pioneiros no Brasil, já que não havia muitos quadrinistas nacionais. Entre 1937 e 1938 ilustrou para O Globo Juvenil, propriedade do empresário Roberto Marinho, adaptações de obras como O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, juntamente com Nelson Rodrigues, além de Rei Arthur, Alice no País das Maravilhas, entre outros. Em 1938 começa a desenvolver a coluna “As Garotas do Alceu” em O Cruzeiro, a qual duraria até 1964. Ela foi inspirada nas “Gibson Girls”, de CharlesAs fantasias de carnaval criadas para OCruzeiro eram muito aguardadas pelas Dana Gibson, autor de desenhos de lindas e glamourosasleitoras, que corriam com eles para acostureira. A variedade de modelos eraimpressionante. mulheres. A coluna apresentava, semanalmente, umaFig. 03 a e 03 b. “Cada terra tem seuuso”. Sugestão de fantasias de Alceu diversidade de ousadas jovens, acompanhada de textosPenna, para O Cruzeiro. 04 de fevereirode 1939. bem-humorados. Tomando como inspiração a mulher, bem como os modismos cariocas, Alceu Penna criou um22 ANASTÁCIO, Marina Bruno Santo. Garotas do Alceu: moda feminina brasileira nas páginas de “OCruzeiro” entre 1938 e 1958. Monografia, UFRJ, Rio de Janeiro, 2003, p.5. 24
  • 25. universo de inspiradoras beldades. “Pelas páginas de O Cruzeiro, o país botou na cabeçaque, além de metrópole e centro gerador de cultura, hábitos e modismos, o Rio tem também as mulheres mais bonitas.” 23 A coluna ilustrada levou milhares de leitores a copiarem a moda, os gestos, penteados e até mesmo a maquiagem das “Garotas”: “(...) elas parecem ter adquirido vida própria. Seus vestidos e penteados foram copiados, suas poses e atitudes chegaram a serem imitadas. Saíram das páginas da revista e foram parar nos “cadernos de recordação”, corte e costura e economia doméstica de algumas meninas ou nos sonhos e expectativas afetivas de certos rapazes. Assim, pode-se dizer que os desenhos de Alceu Penna propagaram modos e modas”. 24 Em 1939 ele viaja para Nova Iorque como correspondente para O Cruzeiro na Feira Mundial 25 . Sua intenção, além de conhecer o país, é investigar o mercado editorial norte-americano. Ele tenta publicar nos O ilustrador nas suas temporadas no exterior trazia as novidades em EUA e, apesar de falar muito bem a língua inglesa, moda, de forma adaptada para as leitoras de O Cruzeiro. verifica que a barreira do idioma lhe coloca em Fig.04 a. Croqui de modelo do costureiro Balenciaga, Sem data. desvantagem. Fig.04 b. Croqui de um modelo do costureiro Fath. Sem data. Durante a sua temporada no exterior ele secompromete a enviar regularmente material para a coluna “Garotas” e, também, sobreCarmen Miranda que, na ocasião, excursionava pelas terras norte-americanas. Segundo23 JUNIOR, Gonçalo. Op cit, p. 14.24 BASSANEZI, Carla. URSINI, Bombonatto Leslye. O Cruzeiro e As Garotas. In: Cadernos Pagu. Núcleode Estudos de gênero. Unicamp, 1995, p. 247.25 Uma das atrações da Feira de Nova Iorque era o pavilhão brasileiro chamado “Café do Brasil”. Algunsarquitetos como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, contemporâneos de Alceu Penna na Escola de Arquitetura,estavam participando do projeto na ocasião. Esse pavilhão evidenciava o poder de atuação da “política de boavizinhança” dos EUA para com a América Latina, buscando estreitar as relações entre os países. 25
  • 26. Thereza Penna o ilustrador trabalhou como consultor informal das fantasias da atriz e cantora, sua conhecida desde os tempos dos cassinos (informação oral julho 2007). Uma nova etapa surge em sua carreira quando Walt Disney (1901-1966) visita o Brasil em 1941. Nesse período há um esforço de aproximação dos EUA com os países sul-americanos, fruto da política de “boa O ilustrador demonstrou a sua versatilidade ao criar diversos vizinhança”. Um dos objetivos do empresário é anúncios como esse, para o famoso sabão Sulfuroso. A bela figura feminina ousada é explorada pelo divulgar o filme de animação Fantasia. Inspirado pela proficional até nos anúncios. Fig. 05. Cartaz de Alceu Penna para o viagem, Disney decide criar o personagem Zé Carioca. sabão Sulfuroso. Sem data. Segundo Gonçalo Junior, Alceu Penna é chamado peloItamaraty, provavelmente em virtude da sua experiência internacional, para acompanhá-lona sua visita. Disney se impressiona com o talento de Alceu Penna e o contato rende aoilustrador um convite para trabalhar nos estúdios do norte-americano. Para a surpresa detodos, Alceu Penna prefere ficar no Brasil, onde já era reconhecido, pois no exteriorconcluiu que seria “mais um na multidão”. Alceu Penna também emprestou seu talento para a publicidade: cigarros Odalisca(1938), Casa Levy (1938), Melhoral (1947), Glostora (1947) (uma brilhantina para oscabelos), o sabão Sulfuroso, embalagens para o Café Globo, fraldas infantis. Além disso,ele desenvolveu um estudo de uniformes para a Shell e algumas lanchonetes. 26
  • 27. Outros trabalhos se destacam, como os desenhos para o livro de partituras O SapoDourado (1934), de Hekel Tavares, além de O Palhacinho Quebrado, de Murilo Araújo(1945). Na coleção Disquinho, da gravadora Continental, ele ilustrou ChapeuzinhoVermelho (1959) e A Cigarra e a Formiga (1959). As seções de moda da revista Cigarra – Suplemento Feminino e de O Cruzeiro – Portifólio Modas foram marcos na carreira do ilustrador, trazendo as principais novidades em moda internacionais, devidamente adaptadas ao país, além de propor inúmeros figurinos para as populares festas de carnaval e junina. Em pesquisa ao acervo de Thereza Penna, irmã do ilustrador, em junho de 2006, pude constatar na sua biblioteca livros que eramAlceu Penna e Erté possuíam um estilo dinâmico de ilustração. O constantemente utilizados por ele.movimento era um fator central, assim como a composição de cores.Nos primeiros anos de carreira o ilustrador parecia se inspirar nosdesenhos de J Carlos, sendo um grande admirador de seu trabalho. Dessa forma, algumas referênciasColuna direita: Fig. 06 a. 06 b. Croquis de Alceu Penna para shows em desenho ficaram mais claras,ou cassinos. Sem dataColuna esquerda: Fig. 07 a. Capa livro “J Carlos: Época, vida e obra” como Erté (1892-1990) e J. Carlosde Álvaro Cotrim (Alvarus). Fig. 07 b. Ilustração de Erté “AlphabetCloak”. Sem data. (1884-1950), alguns dos nomespresentes na sua estante. 27
  • 28. Após essa observação, ficou clara a influência de Erté e J. Carlos nos desenhos do ilustrador, mais precisamente, no início de sua carreira, na década de 1930, e, também, nos croquis para shows e cassinos. A forma do rosto arredondada, as sobrancelhas finas, os olhos ligeiramente puxados e a boca pequena são características comuns em ambos os ilustradores e detectadas nos desenhos de Alceu Penna. Os seus croquis de shows e cassinos, assim como as ilustrações de Erté, mostram roupas pomposas, em cores fortes e contrastantes, que enfatizam o movimento. Naturalmente, o traço do profissional se modificaria ao longo de sua carreira, recebendo outras influências, tais como a norte-americana. A partir de 1945, ele inicia as ilustrações para os As capas da Tricô e Crochê Calendários Santista, criados para divulgar os produtos contavam com a ajuda de Mercedes Penna, mãe do da empresa Moinhos Santista S/A 26 . As ilustrações dos ilustrador que tecia tramas diferentes para dar vida à capa. calendários eram mais sensuais e provocativas que as Os calendários Santistas de tão sensuais eram frequentemente censurados. “Garotas” e, portanto, sofreram algumas censuras. Ele irá Fig.09 a. Capa revista Tricô e colaborar, também, com a revista Tricô e Crochê (1946- Crochê. Exemplar pertencente à Mercedes Penna, mãe de Alceu. Sem data. 52), publicação de trabalhos manuais femininos Fig. 09 b. Ilustração Calendário Santista. 1945-46 pertencente à mesma empresa. Segundo Thereza Penna,a sua mãe, Mercedes, auxiliava na produção das capas ao fazer tricôs para as ilustrações,de forma a deixá-las com texturas mais reais (informação oral extraída em junho, 2006).26 Inicialmente, em 1905, é uma empresa de moagem de trigo e fabricação de derivados na cidade de Santos,SP. Posteriormente ela ampliou suas atividades para o setor de alimentos, passando também para a área têxtil,minero-químico, seguro, imobiliário, comércio exterior e transporte. 28
  • 29. Já na década de 1950, devido ao fechamento dos cassinos, Alceu Penna desenvolvefigurinos para o teatro e shows como a peça Escândalos (1950), com Bibi Ferreira, e Quemroubou meu samba (1953), de Silveira Sampaio, no Hotel Glória. Alceu Penna, segundo sua irmã Thereza, não gostava de ser denominado estilista(informação oral extraída em fevereiro de 2006). Esse lado, entretanto, ficou muitoevidente quando iniciou a participação nos shows-desfiles da multinacional francesaRhodia S/A, assinando figurinos, juntamente com outros talentos, como o costureiro DenerPamplona e Guilherme Guimarães. 27 Foi nesse momento que sua ligação com São Paulo se estreita, levando-o a viagensconstantes à cidade. Cyro Del Nero lembra as particularidades de suas visitas a trabalho: “Meu amigo querido Alceu Penna era um homem de hábitos. Quando vinha à São Paulo ficava sempre no mesmo hotel e no mesmo apartamento, por causa da cama que tinha um colchão aprovado por ele. O hotel era na Praça da Bandeira e para ir para a Standard Propaganda nos encontrar – na Praça Roosevelt – ele subia a Ladeira da Memória e seguia pela Consolação.” 28 Em 1972 Alceu Penna desenha figurinos para o show Brazil Export, dirigido porAbelardo Figueiredo no Canecão, uma casa de shows famosa no Rio de Janeiro. Em 1973assina a coleção de verão da Fios Pessina e, em 1974, a coleção da Ducal Jeans/Madras,intitulada Golden Years. Nesse mesmo ano, inicia a sua colaboração com a revistaManequim, da Editora Abril, em que assina artigos sobre noivas e carnaval.27 A Rhodia estava presente no país desde 1919, porém, foi só a partir de 1955 que dá início à fabricação dofio sintético: “Em 1960, a empresa francesa implementa no país uma política de publicidade calcada naprodução de editoriais de moda para revistas e de desfiles, os quais conjugavam elementos da culturanacional (música, arte e pintura), a fim de associar o produto da multinacional à criação de uma ‘modabrasileira’”. In: BONADIO, Maria Claudia. O fio sintético é um show! Moda, política e publicidade RhodiaS/A. 1960-1970. Tese de Doutorado. Campinas, 2005, p. 10.28 TOLEDO. Marina Sartori de. A teatralização da moda brasileira: Os desfiles da Rhodia nos anos 60.Dissertação de mestrado em Artes Cênicas, ECA/USP, São Paulo, 2004, p. 24 29
  • 30. Segundo Thereza Penna, a partir da segunda metade da década de 1970, o ilustrador diminui o ritmo das atividades profissionais, em razão de problemas de pressão. Seu traço já não tem a mesma firmeza, em virtude dos fortes medicamentos que é obrigado a tomar (informação oral, extraída em junho 2006). Ela acompanhou, firme e cuidadosa, os últimos dias de seu irmão. Em 13 de janeiro de 1980, Alceu Penna morre vítima de problemas circulatórios no Rio de Janeiro. O ilustrador foi um dos pioneiros do desenho de moda no Brasil e, também, da orientação de moda nos tempos dos editoriais de O Cruzeiro, Cigarra e outras. Seu traço, atual atéFig 08 a. Figurino de Alceu hoje, ensina muito sobre os percursos da história da moda e daPenna para Elza Soares. ShowBrazil Export, no Canecão.1972. imprensa nacionais.Fig. 08 b. Croqui para ofigurino da “Viúva doPalhaço” do show da RhodiaStravaganza. 1969. 30
  • 31. 1. CAPÍTULO. “GAROTAS” CARIOCAS E JOVENS: UMA NOVAPERSPECTIVA1.1 “Garotas maravilhosas”: Rio de janeiro 1938 -1957 Este capítulo descreve e analisa o contexto em que se insere a coluna “As Garotasdo Alceu” – o Rio de Janeiro – procurando conectar as ilustrações a esse cenário noperíodo de sua vigência. Serão observados nas ilustrações elementos, tais como o estilo de vida, o grupo social a que indicam pertencer, os seus gostos e costumes. 29 A cidade havia se tornado o centro e modelo cultural para todo o Brasil, desde a chegada da Corte As Garotas podem ser consideradas uma das primeiras musas da Cidade Maravilhosa. Refletindo os hábitos cariocas, como ir à praia, elas davam o Real Portuguesa, em 1808, que falar. Fig 11. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas em Copacabana. 04 de emergindo como cidade janeiro de 1941. Texto Lyto. moderna moldada pelospadrões europeus de civilidade, que se prolongam ao longo da primeira metade do séculoXX 30 : “O Rio passa a editar não só as novas modas e comportamentos, mas acima de tudoos sistemas de valores, o modo de vida, a sensibilidade, o estado de espírito e as29 Entende-se por estilo de vida “(...) um conjunto unitário de preferências distintas que exprimem, na lógicaespecífica de cada subespaço simbólico (mobília, vestimenta, linguagem ou héxis corporal) a mesmaintenção expressiva (...)”. Assim, é pelas preferências de cada conjunto, não coincidentes com as de outros,que se define a imagem ou identificação de um estilo de vida. “As Garotas” tinham algumas preferênciasdistintas de outras meninas, reveladas pelas roupas, linguagem, corpo, demarcando um estilo de vida à parte.BOURDIEU, Pierre. In: ORTIZ, Renato. A sociedade de Pierre Bourdieu. São Paulo, 2003, p.74.30 Sobre o assunto ver: RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. A cidade e a moda: novas pretensões, novasdistinções: Rio de Janeiro, século XIX. Brasília: Ed. UnB, 2002 e NEEDELL, Jeffrey D. Belle Époquetropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. São Paulo: Companhia dasLetras, 1993. 31
  • 32. disposições pulsionais que articulam a modernidade como experiência existencial eíntima.” 31 Apesar de a revista O Cruzeiro circular nacionalmente, Alceu Penna desenhou suas“Garotas” como cariocas, inspirando-se na cidade e no estilo de vida dos seus habitantes.Analisando a coluna, percebe-se que, entre os muitos programas sociais, elas gostavam deir à praia, tomar um lanche na Confeitaria Colombo e curtir as noites no Teatro Municipal,ou seja, típicos programas cariocas. Esse era o modelo difundido pelas ilustrações e textos: “O Cruzeiro, em seus primeiros anos, ao fazer circular imagens do Brasil em suas páginas e pretendendo ser um veículo integrador do território nacional, acabou por levar consigo os costumes da gente do Rio de Janeiro que era, na época, o portão de entrada para o Brasil e onde as novidades chegavam primeiro. O Rio é então apresentado por O Cruzeiro como modelo e índice de desenvolvimento para um país inteiro.” 32 A coluna “As Garotas” surgiu em pleno Estado Novo (1937-1945). As bases dogoverno totalitário foram geradas antes, na Revolução de 1930. O projeto modernizador foimarcado pelo fortalecimento do Estado e conseqüente centralização do poder, conquistadaatravés de uma linha intervencionista: “A intervenção do Estado tendia a ser mais intensano setor da indústria básica. O Estado era, na verdade, um agente de industrialização.” 33 Assim, o presidente implantou uma política nacionalista que, segundo EdgarCarone, estava focada na valorização do produto brasileiro, rejeitando a influênciaestrangeira que ameaçava a soberania do país: “Nacionalismo significa restrição àiniciativa estrangeira tanto política quanto econômica (...). No entanto, sendo representante31 SEVCENKO, Nicolau. A Capital irradiante: técnica, ritmos e ritos do Rio. In: SEVCENKO, Nicolau.História da vida privada volume 03. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 522.32 URSINI, Leslye Bombonatto. A revista O Cruzeiro na virada da década de 1930. Dissertação mestrado.Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2000, p. 52.33 TOTA, Antônio Pedro. Estado Novo. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 26. 32
  • 33. de uma tendência geral, o fato se traduz numa ameaça ao capitalismo estrangeiro erepresenta barragem à sua maior expansão.” 34 O nacionalismo econômico-político se expandiu para o setor cultural 35 : “A questãoda cultura passa a ser concebida em termos de organização política, ou seja, o Estado criaaparatos culturais próprios, destinados a produzir e a difundir sua concepção de mundopara o conjunto da sociedade.” 36 Nesse sentido será buscada a construção de um ideal nacional programado atravésdas elites intelectuais 37 : “Na verdade não existe uma única identidade, mas uma história da‘ideologia da cultura brasileira’ que varia ao longo dos anos e segundo interesses políticosdos grupos que a elaboraram.” 38 O samba viverá, a partir dos anos 1930, uma fase de difusão em escala nunca antesvista, ao lado do carnaval, contando com o rádio para a sua ampla divulgação. 39 Ele passaa ser um dos símbolos mais marcantes da cultura brasileira, ou seja, do que se pretendia ser34 CARONE, Edgar. O Estado Novo (1937-1945). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988, p. 72.35 O governo, na tentativa de promover uma cultura brasileira apropriada, lançou mão de recursos como asdatas comemorativas, buscando a legitimidade e envolvimento da população nesse projeto. Getúlio Vargascriou, por exemplo, o “Dia da Música Popular” em 4 de janeiro de 1939, tornando-se admirado no meioartístico, apesar da ditadura: “Era de novo a ditadura escarrada, agora sob o nome de Estado Novo, e serianatural que muitos artistas se pusessem contra ele. Mas, pelas leis que passara beneficiando a música popular,o teatro, o cinema, o rádio, os cassinos, Getúlio parecia ter crédito ilimitado junto à categoria.” In: CASTRO,Ruy. Carmen: uma biografia. São Paulo: Cia das Letras, 2005, p.175.36 VELLOSO, Mônica Pimenta. In: OLIVEIRA, Lucia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, ÂngelaMaria de Castro. Estado novo: ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p.72.37 As elites foram encarregadas da manipulação de todo o conteúdo que se pretendia nacional: “(...) O EstadoNovo assumiu posturas marcadamente elitistas, empenhando-se na elevação da nação brasileira a ‘umpatamar de civilização’ que a colocasse ‘em pé de igualdade com as nações mais desenvolvidas do mundo”.In: VICENTE, Eduardo. A música popular sob o Estado Novo (1937-1945). Projeto de iniciação científicaPIBIC/CNPq. UNICAMP, 1994, p. 6. Disponível em:http://www.multirio.rj.gov.br/seculo21/pdf/samba/estado_novo_ok.pdf. Acessado em 03 de julho de 2007.38 ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo:Brasiliense, 1994, p. 183.39 A radiodifusão no Brasil desenvolveu-se rapidamente depois da Revolução de 1930, vindo a superar delonge o cinema como instrumento de cultura de massa. Cobrindo todo o território nacional, sendo uminstrumento especial na universalização dos gostos e costumes, dando à música popular dimensãoextraordinária, em um momento que a televisão não era a realidade. In: SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese deHistória da Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1996, p.92. O rádio foi um dos pilaresna difusão da ideologia do Estado Novo e sofreu ao lado de outros meios de comunicação um forte controledo DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda: “(...) Capanema idealiza um departamento depropaganda com o objetivo de ‘atingir todas as camadas populares’, instrumento que deveria ser um aparelhovivaz de alcance, dotado de forte poder de irradiação e infiltração, tendo por função o esclarecimento,preparo, orientação edificadas numa palavra, a cultura de massa.”. In: ORTIZ, Renato. Op cit, p.51. 33
  • 34. nacional. 40 O ritmo foi destacado de suas origens, aproximando-se da cultura urbana e doprogresso 41 : “O samba urbano surgiu entre os compositores do Estácio, bairro proletário docentro com a zona norte, que buscavam uma batida nova, favorável ao ritmo do desfile daescola de samba. Como a marchinha, o samba alcançava os demais segmentos dasociedade pelo rádio e carnaval.” 42 Será, particularmente, o samba urbano que terá presença na coluna. A seção“Garotas carnaval” em 14 de fevereiro de 1942 deixava claro o humor e duplo-sentidodesse tipo de música: “A Margarida disse que só andará de automóvel e ônibus nocarnaval. Mas porque? Tem medo que cantem “... tem galinha no bonde!” O samba na coluna vinha, normalmente, vinculado à festa carnavalesca. 43 “AsGarotas” compartilhavam dessa experiência em ambientes da classe média e elite. “Garotasde Fevereiro”, em 7 de fevereiro de 1942 apresenta as figuras em plena folia vestindo40 No Brasil não havia, até então, uma fixação de gêneros musicais. A indústria fonográfica se ampliou noperíodo, aparecendo novos intérpretes, inclusive brancos da classe média como Noel Rosa, que impulsioname deram visibilidade ao estilo. O samba começa uma aproximação das classes mais abastadas e, naturalmente,é apropriado e modificado para adequar-se às novas demandas. In: VIANNA, Hermano. O mistério dosamba. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2002. Oportunamente, de alvo de preconceito ele foi alçado a símbolonacional. Foram criados os sambas exaltação, verdadeiros aparelhos ideológicos do Estado Novo, comoAquarela do Brasil. Ary Barroso, o compositor da música, disse que, ao criá-la, “foi sentindo toda a grandezae opulência da nossa terra”, comprovando a capacidade de idealização do país nos versos da canção, que veioa se tornar mais popular que o próprio Hino Nacional. In: ZAN, José Roberto. Música popular brasileira,indústria cultural e identidade. In: EccoS Ver. Cient., Uninove, São Paulo (n.): 1 e v. 3: 105-122, p. 110.Certamente, nesse sentido, o Estado soube explorar a capacidade de integração e difusão de ideais contidosna música em benefício próprio.41 O samba brasileiro pode ser dividido em duas primeiras fases: o antes da década de 1930 e depois desseperíodo. O samba no início do século era praticado principalmente por comunidades negras e mestiças, quelevaram consigo essa manifestação da Bahia, sua terra natal, para o Rio de Janeiro, na ocasião do fim dotráfico negreiro em 1850. Como eram festeiros, as confraternizações eram chamadas de sambas, assim comoa música presente. In: SANDRONI, Carlos. Transformações no samba carioca no século XX. Disponível em:http://www.dc.mre.gov.br/brasil/textos/78a83%20Po.pdf. Acessado em 28 de setembro de 2006. Assim, osamba carioca pode ser interpretado como uma adaptação da herança escrava negra, que da Bahia migroupara o cenário carioca, sendo modificado pelo ritmo das escolas de samba. In: SODRÉ, Muniz. Samba, odono do corpo: ensaios. Rio de Janeiro: Codecri, 1979.42 COSTA, Tânia Garcia da. O “it verde amarelo” de Carmen Miranda (1930-1946).. São Paulo: Annablume;Fapesp, 2004, p. 34.43 A festa carnavalesca vai estar intimamente atrelada ao samba urbano nascido no Rio de Janeiro,contribuindo para a sua difusão como símbolo nacional. In: VIANNA, Hermano. Op cit, p. 122. Antes, afesta era reprimida pela polícia com o pretexto da violência entre os blocos. Em 1932 foi totalmenteregularizada, cabendo à prefeitura a sua promoção. Com o Estado Novo, o carnaval sofreu maismodificações, pelo estabelecimento de concursos entre as escolas de samba, que deveriam criar sambas-enredos com temas folclóricos, literários ou biográficos. Essa era uma forma de inibir a criação de conteúdosnão pertinentes e perpetuar a ideologia estado-novista. In: COSTA, Tânia Garcia da. Op cit, p.59. 34
  • 35. fantasias impecáveis: “Este mês é o mês do Momo e as Garotas ‘fans’ da orgia meditam (sabe Deus como) na escolha da fantasia.” Em “Batucada das Garotas”, em 12 de fevereiro de 1944, uma “Garota” relata um episódio ocorrido com sua amiga em que o marido desta expressou grande indignação frente à hora que ela tinha chegado da folia, entoando uma canção de carnaval: O samba e a festa carnavalesca estavam não apenas entre os símbolos nacionais promovidos pelo discurso do Estado Novo, mas também das “Garotas”, que continuarão a perpetuar a “Vai, vai, vai... Não pense que eu dimensão urbana adquirida por eles no período, pelos anos seguintes com entusiasmo. vou chorar... Mulher igual a você Fig 12 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas de fevereiro”. 07 de fevereiro de 1942. Texto Lyto. eu encontro em qualquer lugar.” Fig 12 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Municipal com as Garotas”. 18 de fevereiro de 1956. Texto A. Ladino “No Municipal com asGarotas”, em 18 de fevereiro de 1956, apesar de fugir ao período em questão, reforça adimensão urbana da festa carnavalesca carioca que será perpetuada: “As Garotas atraentessão jóias resplandecentes do baile monumental. Prêmios, prêmios não ganharam, mas todasse conformaram, pois podem dizer contentes às coleguinhas ausentes: eu fui aoMunicipal.” Dentro desse contexto, as manifestações cívicas entraram como mais um suporteideológico do governo, buscando ao mesmo tempo aproximar-se das massas e estabelecercerta distância, ao se apresentar de forma idealizada: “O Estado Novo é o primeiromomento em que se procura dar sentido mítico ao Estado (...) esse processo será 35
  • 36. desenvolvido através da imprensa, do rádio e do cinema, bem como da promoção de festas populares e cerimônias cívicas em exaltação às principais datas nacionais e feitos do governo.” 44 “Garotas de setembro”, em 5 de setembro de 1942, fazia referência à data comemorativa da independência do país, o 7 de Setembro: “Vivas, vibrantes, libertas, da pátria um luzido membro, formam aqui filas As “Garotas” demonstravam o seu patriotismo na data comemorativa da independência do Brasil, em um momento que o Estado Novo procurou forjar uma unidade nacional. concretas as ‘Garotas’ de setembro Fig 13 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas de setembro”. 05 de setembro de 1942. Texto Millôr Fernandes (...) Salve ufana brasileira, não As ilustrações estavam mais para o descanso que para o trabalho. Aproveitavam o máximo a vida com passeios e tens lança, tens espada, mas se te viagens. Ainda bem, que Getulio Vargas não precisou delas para dar continuidade ao seu projeto modernizador. beijam faceira, quero crer que... Fig 13 b. Coluna “As Garotas do Alceu”. “Garotas em férias”. 17 de novembro de 1945. Texto Vão Gôgo. fazes nada.” Tendo em vista o projeto de construção de um país moderno, o Estado gerou umaideologia de valorização do trabalho, sendo encarado como uma ferramenta pela qual apopulação participaria desse esforço. Além disso, era necessário apagar tudo que ia contraesse ideal: “Era preciso combater tanto o subversivo, identificado ao inimigo externo, ao44 VICENTE. Eduardo. Cit, p. 05 36
  • 37. estrangeiro de pátria e de ideais, quanto o malandro, o inimigo interno que se definia como avesso ao trabalho e às leis e regras da ordem constituída.” 45 Dessa maneira, reuniram-se esforços para tentar apagar a noção arraigada de que o brasileiro era preguiçoso e malandro 46 : “(...) nos anos 30 procura-se transformar radicalmente o conceito de homem brasileiro. Qualidades como preguiça, indolência, consideradas inerentes à raça mestiça são substituídas por uma ideologiaAs influências do cinema norte-americano são sentidas desde o do trabalho.” 47início da coluna, reproduzindo a beleza e atitudeshollywoodinas, com o devido tempero brasileiro. Observando esse incentivo, asFig 14 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garota Cinema”. 26de novembro de 1938. Texto Alceu Penna ilustrações não pareciam seguir, de maneiraNa temporada de Alceu Penna em NY, o estilo de vida norte-americano foi trazido para as leitoras e leitores de O Cruzeiro, geral, à risca o propósito do Estado Novo.comprovada pela tradicional luta de boxe no Madison SquareGarden. “As Garotas”, de maneira geral, até pelaFig. 14 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas e a luta deBox. 27 de julho de 1940 condição de jovens, não apareciam encarando responsabilidades, como um emprego. Eram ilustradas curtindo a vida e o relax: “Na serra, no campo, no lago ou na praia, lá se vão novamente de férias as nossas garotas. Vão e voltam como as andorinhas e como as andorinhas são inconstantes e aéreas.” 48 45 GOMES, Ângela Maria de Castro. In: OLIVEIRA, Lucia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, Ângela Maria de Castro. Estado novo: ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 164 46 A figura do malandro que sempre permeou a vida popular, especialmente manifestado no samba - malandro, modifica-se para enquadrar-se aos novos anseios. Ele torna-se civilizado, se parecendo um galã de Hollywood, não anda mais armado e despiu-se do lenço no pescoço e chapéu de palha, à exemplo do samba de Ary Barroso “Mulatinho bamba” gravado por Carmen Miranda em 1935. In: COSTA. Tânia Garcia da. Op cit, p. 56 47 ORTIZ. Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 42 37
  • 38. “As Garotas”, em linhas gerais, absorveram diretrizes nacionalistas do período pela valorização dos cenários brasileiros, da música, festas, bem como da mulher e do seu vestuário, ainda que fossem espelhados na cultura Nesse período, até mesmo em eventos nacionais populares como o carnaval, a influência norte-americana se fazia presente na carioca. As ilustrações, mesmo coluna. Uma ilustração está vestida com um conjunto de short e blusa estampados com motivos da bandeira dos EUA. Apesar disso, havia influências da artista Carmen Miranda, também, assim, não se fecharam às notada pelas fantasias inspiradas na sua famosa baiana. influências estrangeiras, Fig. 15. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas & Carnaval em 14 de fevereiro de 1942. Texto Alceu Penna especialmente a norte-americana: “O traço comum às mudanças que entãoocorriam no Brasil na maneira de ver, sentir, explicar e expressar o mundo era a marcanteinfluência que aquelas mudanças recebiam do american way of life.” 49 Devido à Segunda Guerra Mundial, o relacionamento entre Brasil e EUA foifortalecido, estreitando-se essa ligação pela política de “Boa vizinhança” (1933-1945),buscando apagar a lembrança imperialista, nada simpatizante, do Big Stick: “Os métodosmudaram, mas os objetivos permanecem os mesmos: minimizar a influência européia naAmérica Latina, manter a liderança norte-americana e encorajar a estabilidade política nocontinente.” 50 No campo cultural os norte-americanos valeram-se de táticas como a MissãoRockefeller, para aproximar a nação do Brasil, trazendo os artistas, incluindo Walt Disneyque na ocasião lançava sua última produção - Fantasia: “(...) além de Disney vieram com a48 “As Garotas do Alceu”. “Garotas em férias”. Texto Vão Gôgo. In: O CRUZEIRO. 17 de novembro de1945, p. 22 e 2349 MOURA. Gerson. O Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana. São Paulo: Brasiliense,1984, p.0850 MOURA. Gerson. Op cit, p. 18 38
  • 39. missão cultural famosos artistas do cinema americano: Tyrone Power, Henry Fonda, Douglas Fairbanks. O Rio de Janeiro exultava com os astros e o governo brasileiro aproximava ainda mais dos americanos.” 51 Observando o impacto dessa política na coluna, é perceptível que os costumes e estilo de vida dos EUA serão trazidos de maneira próxima para “As Garotas”, quando Alceu Penna viaja para a Feira de Mundial em Nova York. 52 Em 27 de julho de “As Garotas” tentavam copiar as americanas do norte na destreza da cozinha, embora o esforço fosse em vão. Os 1940, em “Garotas e a luta de Box”, o hábitos alimentares, também, sofrerão influências, fazendo as figurinhas trocarem caviar por um suculento beef. cenário era um torneio de box amador Fig 16 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e a arte da culinária”. 26 de novembro de 1938. Texto A. Ladino no Madison Square Garden, um Fig 16 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Para Agradar as Garotas”. 11 de março de 1944. Texto Alceu Penna programa tipicamente norte- americano: “Não podendo assistir aoencontro Godoy x Loe Louis, as “Garotas” me carregaram para o Madson. Para encurtarrazões – tive que me retirar antes do fim, para evitar um conflito, dada a torcida ‘violenta’das meninas, em favor dos boxeus... bonitinhos...” Na realidade a influência norte-americana será presente durante todo o EstadoNovo. Entretanto, as aproximações com a cultura estrangeira deveriam respeitar um limite,algo ignorado por Carmen Miranda, que não escapou de uma recepção fria ao voltar de sua51 TOTA, Antônio Pedro. Op cit, p. 54.52 Alceu Penna foi para os EUA em 20 de setembro 1939 e permaneceu lá até junho de 1941. 39
  • 40. turnê pelos EUA, fugindo do ideal musical brasileiro aprovado pelo Estado Novo 53 : “Adenúncia da ‘americanização de Carmen Miranda mostrava que existia no Brasil de 1940um movimento difuso que defendia a correta utilização desses novos símbolos nacionais.A mistura do samba com a música norte-americana, por exemplo, não podia ultrapassardeterminados limites.” 54 A figura de Carmen Miranda ecoou não apenas nos EUA, mas aqui no país. Énotável perceber na coluna a quantidade de fantasias de carnaval inspiradas no figurino daartista. Muitos turbantes com penduricalhos, colares, frutas amarradas, tecidos coloridos econtrastantes. O cinema será outra evidência da influência dos EUA na coluna, presente desde osprimórdios dela. 55 Em 10 de dezembro de 1938, em “Garotas de festas”, certo ator famosode Hollywood aparenta causar comoção nas ilustrações: “A Elvira se apaixonou de talmaneira pelo Tyrone Power que quase morreu. E curou-se? Com um sósia...” Essa influência cinematográfica tende a crescer após a Segunda Guerra Mundial,sendo um importante porta-voz na difusão de gostos e estilos do american way of life, emmeio à Guerra Fria: “(...) após a Segunda Guerra, o cinema se tornou a vitrine porexcelência da exibição de glamourização dos novos materiais, objetos utilitários eequipamentos de conforto e decoração doméstica.” 5653 Carmen Miranda, ao se apresentar no cassino da Urca em julho de 1940, não entendeu de imediato o seuinsucesso. O que os presentes em seu show viram foi uma Carmen demasiadamente estilizada, cantando algoque não era supostamente a música brasileira pura, gesticulando em excesso (hábito adquirido nos EUA parasuprir a falta de comunicação) e, pior, saudando a platéia com um good night, people! A artista foi aclamadapelo povo em sua chegada, mas ali ela cantava para o alto escalão do Estado Novo. A frieza, olhada por esseângulo, fez completo sentido: “Carmen abriu com ‘South American Way’. Pelo menos três minutosseguintes, gelo na platéia. O samba-rumba, muito fraco para os padrões brasileiros, teve de arrastar-sesozinho até a última nota.” In: CASTRO, Ruy. Op cit, 249-250.54 VIANNA, Hermano. Op cit, p. 131.55 A influência do cinema norte-americano data desde a década de 1920 no Brasil. Segundo Susan Besse, assalas de projeção proliferaram a partir de 1910 e, na década de 1920, ir ao cinema estava entre ospassatempos mais populares para jovens e velhos, homens e mulheres, pobres e ricos. In: BESSE, Susan.Modernizando a desigualdade: reestruturação da ideologia de gênero no Brasil 1914-40. São Paulo:Universitária SP, 1999, p.26.56 SEVCENKO, Nicolau. Op cit, p.602. 40
  • 41. Em “Garotas e a arte da culinária”, de 22 de abril de 1950, as ilustrações buscam inspiração nos hábitos das mulheres norte- americanas ao encarnarem a “rainha do lar”: “As Garotas viram no cinema o desembaraço com que O bom gosto francês aparecia tanto na moda de gala quanto nos programas inspirados no país. Apesar da influência norte- americana maciça, ambas vertentes serão presenciadas na coluna. as americanas do norte vão para a Fig.17 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e a comedie française”. 27 de maio de 1950. Texto A. Ladino cozinha.” Os EUA promoviam oconsumo de objetos ligados ao seu estilo de vida, levando, discretamente, seu imperialismocultural: “Ao importar o cadillac, os chicletes, a coca-cola e o cinema, não importamosapenas objetos e mercadorias, mas também todo um complexo de valores e condutas quese acham implicados nesses produtos.” 57 Em “Para agradar as Garotas”, de 11 de março de 1944, a cultura norte-americanaparecia afetar até o paladar das “Garotas”, que buscavam alternativas ao gosto francês:“Para agradar ao paladar das Garotas alguns aconselham champanhe, caviar e marrom-glacê. Hoje estamos certos de que um quilo de beef será mais recomendável.” Além de todos os produtos que traziam o estilo de vida do país internalizado, essainfluência ficava clara até no vocabulário. “Conselhos das Garotas”, em 7 de agosto de1943, evidencia o emprego de algumas palavras em inglês no cotidiano pelas “Garotas”,comprovando o quão fundo foi esse imperialismo: “Quando não souberes o destino de umaestrada, nunca andes nela com um boy. O destino em geral é o espeto.”57 CORBISIER, Roland. Formação e probabilidade da cultura Brasileira. Rio de Janeiro: ISEB, 1958, p. 69.In: ORTIZ. Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo:Brasiliense, 1994, p. 69. 41
  • 42. Apesar da emergência do modelo norte-americano, o francês continuava sendo umareferência em bom gosto e tradição. “As Garotas” o apreciavam, sendo isso evidenciadopelos costureiros franceses, pelo vocabulário usado na coluna e mesmo pelos programasinfluenciados pela cultura do país, que garantiam certa aparência de sofisticação: “JeanLouis Barrault! Madeleine Renaud! As Garotas tinham que assistir às noitadasmaravilhosas da ‘Comedie Française’ no Municipal.” 58 Os dois modelos passam a conviver, lado a lado, disputando constantemente o lugarde prestígio: “É interessante notar, que apesar da preponderância francesa, as diversasinfluências passam a coexistir no mundo da moda com maior flexibilidade de aceitação,conforme representado na coluna Garotas (...).” 59 Em “Garotas qual é seu tipo?”, de 29 de agosto de 1942, são apresentados variadostipos de “Garotas”, das quais destaco a Granfina que curiosamente mistura elementosnorte-americanos e franceses, em um tom de valorização dos dois países: “A autêntica, quejá esteve na Europa ou Estados Unidos, foi educada no Sion ou no Sacré Coeur. Produtonacional, ‘não se dá bem aqui’. Fala francês e inglês. Finge detestar tudo, mas intimamentepossui gostos burgueses.” Influências estrangeiras continuaram a crescer, principalmente durante o governodo presidente JK, a partir de 1956, configurando-se como o auge do americanismo noBrasil. Ainda na trilha do desenvolvimento, o país passa a vivenciar uma urbanização eindustrialização em proporções desconhecidas. Com uma política desenvolvimentista e deabertura do mercado, o Brasil assistiu a uma invasão de indústrias estrangeiras, como aautomobilística. O presidente propunha realizar 50 anos em 5, mesmo à custa de uma58 “As Garotas do Alceu”. “Garotas e a Comedie Française”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 27 de maiode 1950, p.38 e 39.59 ANASTÁCIO, Marina Bruno Santo. Garotas do Alceu: moda feminina brasileira nas páginas de “OCruzeiro” entre 1938 e 1958. Monografia, UFRJ, Rio de Janeiro, 2003, p. 38. 42
  • 43. inflação galopante: “A industrialização era apresentada, tal e qual nos anos 30, como chaveda emancipação de todos e a conquista do bem-estar geral.”60 Os bens de consumo diversificaram-se e invadiram os lares brasileiros, tornandocada vez mais prática a vida doméstica: “Dispúnhamos, também, de todas as maravilhas eletrodomésticas: o ferro elétrico, que substituiu o ferro a carvão (...) o chuveiro elétrico; o liquidificador e a batedeira de bolo; a geladeira; o secador de cabelos (....) o aspirador de pó, substituindo as vassouras e o espanador; a enceradeira, no lugar do escovão(...).” 61 Uma febre do “novo” e “moderno” se instalava no gosto nacional: “Da simpleslâmina de barbear ao mais requintado automóvel, não havia nos anos 50 e 60 bem deconsumo que não pretendesse “moderno”, “novo”, “inédito.” 62 A modernização tornou-seum ideal a ser alcançado a fim de nos livramos do atraso em que nos encontrávamos frentea nações mais desenvolvidas. Os eletrodomésticos eram anunciados como supostos libertadores da mulher,dotados de certa aura fantástica: “Do mesmo modo, as ilustrações das propagandas de fogões, com fornos que transbordam assados, suflês e outros pratos, enquanto mulheres elegantemente vestidas apreciavam o espetáculo, sugeriam que se tratava de máquinas de cozinhar mágicas, com capacidade de preparar refeições por algum processo de imaculada concepção.” 6360 FIGUEREDO, Anna Cristina Camargo Moraes. Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada.Publicidade, cultura de consumo e comportamento político no Brasil (1954-1964), São Paulo: Hucitec 1998,p.6261 MELLO, João Manuel Cardoso de; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo Tardio e sociabilidade moderna.In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da Vida Privada v.4. São Paulo: Companhia das letras, 1998,p. 564.62 FIGUEREDO, Anna Cristina Camargo Moraes. Op cit, p.31.63 FORTY, Adrian. Objeto de desejo: design e sociedade desde 1750. São Paulo: Cosac & Naif, 2007, p.283. 43
  • 44. Paralelamente a esse movimento de desenvolvimento, a classe média brasileiraampliou-se aproveitando de todas as novidades: “Nos anos 50 do século XX o Brasil viveuum período de ascensão da classe média, com possibilidades de acesso à informação, aolazer e ao consumo.” 64 Muitos empregos, especialmente no setor terciário, foram criados, já que o aparatourbano crescia e precisava de uma estrutura eficiente de funcionamento: “O leque de ocupações no mercado de trabalho aumenta consideravelmente promovendo a expansão e incorporação das classes médias (além do proletário industrial). Cresce de forma significativa o número de trabalhadores dos serviços urbanos (bancos, comércio, propaganda, transportes, comunicação), da administração de empresas industriais, funcionários do governo, serviços burocráticos em geral, profissionais liberais etc.” 65 Em vista desse movimento, a classe média presenciou uma sistemática salarização,ou seja, um declínio do trabalho autônomo e da prática privada: “Empregos em escritórios aumentaram, indicando o aparecimento no censo de uma nova categoria ‘ocupações relativas ao funcionamento de escritórios’. Mais mulheres entraram como parte da força de trabalho não manual, especialmente como funcionárias públicas, professoras, vendedoras, assistentes sociais e datilógrafas.” 66 Examinando os hábitos e posses das “Garotas”, tais como os locais freqüentadospor elas e as roupas, sempre na última moda, percebe-se à primeira vista que,provavelmente, ou representavam moças pertencentes à classe média ou à elite.64 ALVES, Andréia Matias; FILHO-COURA, Pedro. Avaliação das ações das mulheres sob violência noespaço familiar, atendidas no Centro de Apoio à Mulher (Belo Horizonte), entre 1996 e 1998. Artigo retiradode: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232001000100020&script=sci_arttext&tlng=en. Acessadoem 28de outubro de 2006.65 BASSANEZI, Carla. Virando as páginas, revendo as mulheres: revistas femininas e relações homem-mulher, 1945-1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p.69.66 OWENSBY, Brian P. Intimate Ironies: modernity and the making of middle class in Brazil. Califórnia:Stanford University Press, 1999, p.49. 44
  • 45. Entretanto, as “Garotas” se diferenciavam da elite em certos aspectos: o desejo deascensão social e a preocupação com dinheiro. É freqüente no discurso dessas meninas avontade de encontrar um rapaz que possa proporcionar uma vida financeira maisconfortável, com alguns luxos: “O garimpo não é, como se poderia supor, nas minas ou nas lavras. E o filão conduz diretamente ao dedo de um bacharel, promissor bom partido.” 67 Elas reclamam, também, do preço dos ingressos nas noites do Teatro Municipal: “Você não ficou emocionada com o espetáculo de ontem? Tinha que ficar. Paguei 120$000 por uma As ilustrações costumavam freqüentar as noites elegantes no Municipal, mas não deixavam de se preocupar com os preços das poltrona.” 68 Essas situações destoam poltronas, indicando destoar das elites. Fig. 18. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas no Municipal. dos hábitos da elite e, assim, levam a Texto Alceu Penna. 25 de julho de 1942. crer que a aparência e os hábitosmostrados pelas ilustrações indicam pertencimento à classe média. “As Garotas”, representantes do segmento médio, não indicavam estar apenas emsintonia com as transformações no contexto do país, mas também se conectaramintimamente ao espaço urbano carioca, absorvendo o seu desenvolvimento.67 “As garotas do Alceu”. “As Garotas no Garimpo”. Texto Maria Luiza. In: O CRUZEIRO, 5 de dezembrode 1959, p.48-49.68 “As garotas do Alceu”. “Garotas no Municipal”. Texto Alceu Penna. In: O CRUZEIRO. 25 de julho de1942, p. 20-21. 45
  • 46. 1.2 O espaço urbano alia-se às cariocas Além de representarem essa classe em ascensão, “As Garotas” compartilhavam dohabitat correspondente a ela: as grandes cidades, no caso o Rio de Janeiro. O universoretratado na coluna se concentrava na área urbana, em bairros como Copacabana, Arpoadore o Centro da cidade, mais especificamente, a Avenida Rio Branco. Desde o início do século XX, a Avenida Rio Branco, inicialmente chamada deAvenida Central, abrigava o espírito das elites da Belle Époque no país: “(...) a novaavenida exprimia os desejos da elite brasileira de ver “sua” capital mais parecida com aParis de Haussman que com uma cidade tropical e mestiça.” 69 Desde 1925, a Avenida RioBranco abrigava a famosa Cinelândia: “(...) Capitólio, Glória, Império e Odeon (...)formariam a Cinelândia, grande centro de lazer para a população.” 70 Mesmo com as grandes modernizações presenciadas no Brasil, especialmente nadécada de 1950, a Avenida Rio Branco continuava a gozar de um status ímpar. Ainda nosseus arredores, concentravam-se outros points, como a Tabacaria Londres, a notávelLivraria Odeon, o Café Belas-Artes e a Galeria Cruzeiro. Ela abrigou um intenso comércioe atrações culturais diversas: “(...) concentrou obras como a Escola Nacional de BelasArtes, a Biblioteca Nacional, o Supremo Tribunal, o Palácio Monroe e o TeatroMunicipal.” 71 “As Garotas” freqüentavam a região central e tinham destino certo na hora delanchar e fofocar: “Depois de lerem ‘A ceia dos Cardeais’, as Garotas resolveram lancharna ‘Colombo’ e contar a suas impressões da semana passada. E lá, entre um sorvetes e uns69 SANDRONI, Carlos. Transformações do samba carioca no século XX. In:http://www.dc.mre.gov.br/brasil/textos/78a83%20Po.pdf. Acessado em 28 de setembro de 2006 p.82.70 LIMA, Vera; MENDONÇA, Vera Rodrigues de e CRIB; Tanaka. Avenida Rio Branco,161. In: Anais do Museu Histórico Nacional, volume 35, 2003. p. 333.71 TANAKA, Crib. LIMA, Vera. Mendonça, Vera Rodrigues. Op cit, p. 332. 46
  • 47. biscoitos, fizeram-se confidências. E por incrível que pareça só disseram a verdade, tãosomente a verdade.” 72 É interessante perceber que, provavelmente por esses locais serem privilegiados, osproblemas sociais não apareciam de forma tão marcante na coluna, sendo a atmosferaretratada na coluna leve e descontraída. “As Garotas”, por representarem os segmentosmédios da sociedade, tinham uma condição financeira boa e eram ilustradas em freqüentestemporadas de descanso: “Cansadas de tanto carnaval, de tanta buate, de tanto cinema, detanto tanto, as garotas entraram de férias, como se férias não lhes fossem a vida inteira.” 73 Mesmo sendo selecionados os locais ilustrados na coluna, a cidade não apresentavagrande freqüência de episódios de violência e insegurança, como os vistos nos dias atuais:“(...) foi em 58 que resumiu toda a felicidade de ser brasileiro no fim dos anos cinqüenta,vivendo sem militares no cangote e só se assustando, no máximo, com os óculos escurosdo Ronaldo Souza Castro, o assassino de Aída Curi.” 74 A cidade ainda não tinha umalegião de arranha-céus e poluição, como descreve Danuza Leão: “ Era muito bom morar noRio: as praias quase vazias, poucos carros nas ruas.” 75 No espaço urbano o desenvolvimento chegava, ampliando-se a rede de transportes.“As Garotas”, já havia algum tempo, circulavam pelo Rio de Janeiro em ônibus,enfrentando os percursos em pé, se fosse preciso, como figuras independentes: “Garotasalucinantes de atrativos transbordantes, cheias de graça e de fé, como aves em sobressalto,invadem o ônibus de assalto e viajam todas em pé.” 7672 . “As Garotas do Alceu”. “O lanche das Garotas”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO 6 de maio de 1950,p.42 e 43.73 “As Garotas do Alceu”. “Garotas em férias”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 3 de abril de 1954, p.46e 47.74 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Feliz 1958: o ano que não devia terminar. Rio de Janeiro: Record, 2003,p.1675 LEÃO, Danuza. Quase tudo: memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 2776 “As Garotas do Alceu”. “Um ônibus e Garotas em pé”. Texto de Frivolino. In: O CRUZEIRO. 20 de julhode 1946, p.23 e 24. 47
  • 48. Nesse período a população urbana ainda era minoria, frente a um Brasil predominantemente agrário, situação que começa a se modificar na década de 1970. O Rio de Janeiro se tornava, cada vez mais, um pólo atrativo para todos aqueles que tentavam “ganhar a vida” com mais sucesso. Se a cidade vivenciava um aumento do setor terciário, o mesmo não era As ilustrações são apresentadas como figuras urbanas, ligadas visto no setor agrário, que decaía à agitação do Rio de Janeiro, mas, ocasionalmente, aderiam a temporadas no campo. atraindo cada vez mais o Fig. 19 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas em ferias”. Texto A. Ladino. 03 de abril de 1954. trabalhador rural para os grandes Os transportes se modernizavam e “As Garotas” noticiaram o movimento, andando em ônibus e de pé, mostrando centros: “Matutos, caipiras, jecas: flexibilidade ao encarar os novos desafios impostos por uma cidade em desenvolvimento. certamente era com esses olhos que, Fig. 19 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Um ônibus e Garotas em pé”. 27 de maio de 1950. Texto A. Ladino em 1950, os 10 milhões decitadinos viam os outros 41 milhões de brasileiros que moravam no campo, nos vilarejos ecidadezinhas de menos de 20 mil habitantes.”77 Os meios de comunicações e os transportes, mesmo com as modernizações, aindanão haviam alcançado pleno desenvolvimento a ponto de integrar eficientemente o paístodo. A revista O Cruzeiro será uma das primeiras tentativas, por parte das comunicações,de uma efetiva integração anterior ao surgimento da televisão na década de 1950. 78 Entreoutros fatores, essa falta de conexão entre as regiões será um dos responsáveis pelo77 MELLO, João Manuel Cardoso de. NOVAIS. Fernando A. Op cit, p.57478 A revista O Cruzeiro será tratada no capitulo 2 com maiores detalhes. 48
  • 49. estabelecimento do Rio de Janeiro como modelo para o Brasil, propagado amplamentepelos meios de comunicação: “Apesar de todo o processo de centralização iniciado pelarevolução de 1930 e fortalecido pelo Estado Novo, a sociedade brasileira, no período emque a consideramos, é ainda fortemente marcada pelo localismo.” 79 Mesmo sendo figuras urbanas, aos fins de semana “As Garotas” eram ilustradas,algumas vezes, abandonando a cidade em busca de diversão: “Elas estão em Petrópolis,elas e eles. Tomando refresco, passeando de bicicleta, jogando tênis e descansando dafolga do Rio.” 80 O passeio ao campo para elas indicava apenas um descanso da rotina dacidade: “De varinha de pescar, com um romance barato diante dos olhos, de roupa demontaria, escalando morros elas tomam novo alento para novas brincadeiras, pois a cidadecontinua...” 81 Entre outras atividades, “As Garotas” quando se encontravam na cidade gostavamde passar o tempo entre as praias e as piscinas do Rio de Janeiro. O hotel CopacabanaPalace, propriedade da família Guinle, nesse período, era um ambiente em que circulava aalta-sociedade carioca, bem como celebridades nacionais e internacionais, e tinha a piscinamais concorrida: “O supra-sumo do luxo eram festas no Goldem Room do CopacabanaPalace. Lá aconteciam os desfiles de moda, lá se escolhiam a Glamour Girl e a CharmGirl, lá se apresentavam os grandes nomes da música internacional.” 8279 ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. 5. ed. São Paulo:Brasiliense, 1994, p. 4980 “As Garotas do Alceu”. “Garotas em Petrópolis”. Texto: Rui Costa. O CRUZEIRO. 1 de abril de 1944,p.46-47.81 “As Garotas do Alceu”. “Garotas em férias”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 3 de abril de1954, p.46e 47.82 LEÃO, Danuza. Op. Cit, p. 27. 49
  • 50. “As Garotas” não perdiam a oportunidade de se verem cobertas de um sol radiante e uma boa piscina: “E enquanto as Garotas molham o corpo nas águas claras da piscina vão A pele bronzeada será um dos traços mais marcantes do deixando transpirar, para benefício do estilo de vida carioca, amplamente divulgado pelas ilustrações. corpo, um pouco de veneno, na forma Fig. 20. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Sol é maluco por Garotas”. 22 de outubro de 1955. Texto A. Ladino. agradável de conselhos ecomentários.” 83 A praia era um local descontraído em que as cariocas exibiam as curvas, emboraainda timidamente, de seus corpos bronzeados na areia: “Morenidade parece ser umaespécie de palavra de ordem na cidade, a conquista de uma cor considerada a perfeição docorpo. O que, por sua vez, indica um aspecto essencial ao charme da praia: é o lócus porexcelência da exibição corporal.” 84 “As Garotas do Alceu” não ficavam fora disso: “E presas nos maiôs as Garotassaúdam o sol e dele recebem as carícias luminosas. Uma praia sem sol quase não temgraça. Mas mesmo com sol, que seria da graça das praias se não houvesse Garotas?...” 85Na coluna elas freqüentavam a Praia de Copacabana e iam ao Arpoador, em Ipanema,reduto dos modernos e “arejados”: “Ipanema foi o berço de várias revoluções decomportamento, na moda nas artes plásticas, no cinema, na música popular, na Imprensa(...). 8683 “As Garotas do Alceu”. “Garotas na piscina”. Texto sem referência. In: O CRUZEIRO. 10 de março de1945, p.45.84 FARIAS, Patrícia. Corpo e classificação de cor numa praia carioca. In: Mirian Goldenberg (Org.). Nu &Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 264.85 “As Garotas do Alceu”. “Sol é maluco por Garotas!” Texto de A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 22 deoutubro de 1955, p. 110 e 111.86 CASTRO, Ruy. Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo: Companhia das Letras, 1999,p.11 50
  • 51. O período de vigência da coluna vai assistir, cada vez mais, ao cultivo da pelebronzeada, principalmente pelas cariocas, como Danuza Leão: “Depois de me lambuzarcom os óleos da moda – cada uma queria ser a mais queimada do grupo –, atravessávamosa rua e, com Murilinho de Almeida (...) íamos para a piscina do Copa, onde as criançastomavam aula de natação com a campeã Maria Lenk.” 87 Nas ilustrações das “Garotas” a pele clara, em alguns momentos, marcadamentebronzeada, vai ilustrar os hábitos e padrão de beleza do cidadão carioca: “Foi a praia quecriou aquela mocinha queimada e de óculos escuros, que fala uma linguagem que você daTijuca ou Madureira, não compreenderá.” 88 . Desde o início do século, a pele levemente bronzeada transformou-se em status,principalmente na Europa, referindo-se às pessoas que tinham condições de desfrutar deférias de veraneio. 89 No Brasil, a elite, por algum tempo, ligará a pele clara ao statussocial. 90 A pele rosada, apenas para conferir um aspecto saudável, é que será maisvalorizada: “Durante o decênio de 1920, apesar dos movimentos intelectuais que tentamreabilitar as raízes negras da nação, ou valorizar a miscigenação cultural especificamentebrasileira, a ideologia do branqueamento persiste, bem ancorada no pensamento daselites.” 91 Nos anos 1930 a situação começa a se modificar. A praia e o bronzeado tornaram-se elementos relacionados ao Rio de Janeiro: “(...) a elevação da categoria moreno como87 LEÃO, Danuza. Op cit, p. 5688 ANASTÁCIO, Marina Bruno Santo. Op cit, p.42.89 Segundo Wilson, a pele bronzeada fora anteriormente o sinal do trabalhador e repudiada pelos maisrequintados: “Por volta dos anos 20, que a pele bronzeada passou a ser um sinal daqueles que tinhampossibilidade de viajar. A pele bronzeada, desde essa época, passou a ser associada à modernidade”. In:WILSON, Elizabeth. Enfeitada de sonhos: moda e modernidade. Lisboa: Ed 70, 1985, p.4490 Essa valorização tem origem na teoria do branqueamento, muito aceita, especialmente, entre o período daAbolição da Escravatura e a Primeira Guerra Mundial. Segundo a teoria, pela miscigenação, a populaçãoficaria cada vez mais branca com o passar das gerações. Um dos principais defensores do branqueamento é oteórico Oliveira Vianna. In: SCHPUN. Mônica Raisa. Beleza em Jogo: cultura física e comportamento emSão Paulo nos anos 20. São Paulo: SENAC, 1999 Op cit, p.116.91 SCHPUN, Mônica Raisa. Op cit, p.116. 51
  • 52. forma favorita de inclusão numa totalidade: a dos habitantes da cidade. Assim, quem écarioca é moreno – e quem não for...” 92 Nesse período a origem mestiça do brasileiro é resgatada, embora na prática a corbranca ainda fosse estimada. 93 “Por fim, na representação vitoriosa dos anos 1930, o mestiço transformou-se em ícone nacional, em símbolo de nossa identidade cruzada no sangue, sincrética na cultura, isto é, no samba, capoeira, candomblé, futebol. Redenção verbal que não se concretiza no cotidiano, a valorização do nacional é acima de tudo uma retórica que não tem contrapartida na valorização das populações mestiças discriminadas.” 94 Ao mesmo tempo em que a coluna se conecta ao estilo de vida carioca, absorvendoa cultura do corpo bronzeado, ela paralelamente propaga o perfil branco elitista, o que écomprovado pela ausência de “Garotas” de outras raças, como negras, mulatas, entreoutras, não refletindo a realidade da miscigenação do país. Aliás, a mistura de raças serácolocada como uma das características mais singulares do brasileiro: “(...) muitos daquelesque se propuseram a definir uma especificidade nacional selecionaram a ‘conformaçãoracial’ encontrada no país, destacando a particularidade da miscigenação.” 95 Ao lado dos corpos bronzeados e do ambiente descontraído da praia, outrasdiversões eram bastante valorizadas entre os cariocas. O Jockey Club era, também, palcode eventos sociais disputados pelas elites e muito noticiados nas colunas sociais como a de92 FARIAS, Patrícia. Op cit, p.281.93 A valorização da mestiçagem atendia aos propósitos do Estado Novo em construir uma unidade nacional:“A tendência de valorizar a mestiçagem é uma opção pela ‘unidade da pátria’ pela homogenização.” In:VIANNA, Hermano. Op cit, p. 71. Teóricos como Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala foramresponsáveis pela sustentação desse novo posicionamento. Segundo Regina Abreu, a figura do mulatocarioca é resgatada, sendo a miscigenação uma característica valorizada por singularizar o Brasil. O conceitode raça foi nesse momento substituído pelo de cultura. In: ABREU, Regina. A capital contaminada:construção da identidade nacional pela negação do espírito carioca. In: LOPES, Antônio Herculando. (Org)Entre Europa e África: a invenção do carioca. Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa: Top books, 2000,p. 167-186.94 SCHWARCZ, Lilia Moritz. Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na intimidade. In:NOVAIS, Fernando A.; SCHWARCZ, Lilia Moritz. História da vida privada no Brasil: volume 4: contrastesda intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 17895 SCHWARCZ, Lilia Moritz.Op cit, p. 178 52
  • 53. Jacinto Thormes e Ibrahim Sued: “Em julho havia o Grande prêmio Brasil. O Sweeps-take,no Jockey Club do Rio de Janeiro, compreendia uma semana de festividades, dois jantaresnos salões do clube, uma noitada no Copa e duas tardes no prado.” 96 “As Garotas”, com seus compromissos sociais, freqüentavam as noites elegantes noMunicipal e notavam tudo, menos o espetáculo: “Dizem que aquela soprano tem umrepertório enorme! É. E com aquele vestido parece muito maior ainda!”97 Eventos como oGrande Prêmio Brasil, no hipódromo da Gávea, reuniam o high society, sendo um localpara ver e ser visto. Os bailes movimentavam a cidade também, como os do Ginástico e doClube da Aeronáutica, e “As Garotas”, é claro, não perdiam esse tipo de evento: “O Baile éum acontecimento social. Reúne pessoas numa congregação mais ou menos íntima,aproximativa, agrupadora.” 98 A lista de “As dez mais elegantes”, do colunista Ibrahim Sued, assim como “AsCertinhas do Lalau”, de Stanislaw Ponte Preta, eram muitos aguardadas. Carmem MayrinkVeiga, Danuza Leão e a atriz Ilka Soares eram nomes freqüentes nessas listas. O concursode miss, contudo, era o mais popular entre as “Garotas”. A maioria das mocinhas no Brasilsonhava em concorrer e desfilar na passarela, sob os flashes atentos dos fotógrafos. “AsGarotas” já reinavam, também, nos concursos de beleza: “O reinado das Garotas é tudo oque há de mais real. Toda Garota se sente tanto ou quanto Rainha. E muitas delas avaliamo seu prestígio e o seu fascínio pelo número de vassalos que conta (...).” 99 “As Garotas” foram concebidas por Alceu Penna tendo como inspiração o cenáriocarioca e as especificidades da classe média urbana, refletindo um estilo de vida particular.96 DURAND, José Carlos. Moda, Luxo e economia. São Paulo: Babel cultura, 1998, p.70.97 “As Garotas do Alceu”. “Garotas no Municipal”. Texto Alceu Penna. In: O CRUZEIRO. 25 de julho de1942, p. 20 e 21.98 . “As Garotas do Alceu”. “Garotas num baile”. Texto sem referência. In: O CRUZEIRO. 5 de junho de1943, p. 40 e 41.99 “As Garotas do Alceu”. “O reinado das Garotas”. Texto A Ladino. In: O CRUZEIRO. 7 de setembro de1957, p.58 e 59. 53
  • 54. É possível que, por pertencerem a esse universo, elas se mostrassem despreocupadas epouco conscientes com os problemas sociais, que estavam longe da sua realidade. A vida social intensa que a capital abrigava se encaixava perfeitamente ao estilo devida da juventude emergente da classe média. Pelos encantos dessas ilustrações, AlceuPenna conectou intimamente os jovens ao cenário da Cidade Maravilhosa. 54
  • 55. 55
  • 56. 1.3 Um broto de “Garota”: a emergência do conceito de juventude Foi especialmente na década de 1950 que a cultura jovem tomou formas maisconcretas. Era a primeira vez que essa categoria era reconhecida: “(...) o processo que conduz à codificação da adolescência como fase em si atingiu a maturação plena após a Segunda Guerra Mundial.” 100 Os jovens passaram a desenvolver atividades típicas para a sua faixa etária, assim como gostos“As Garotas” estavam passando pela experiência da primeira paixão, e estilo de vida: “Nas cidades,divididas entre receios e desejos.Fig. 21. Coluna “As Garotas do Alceu”. 1° amor das Garotas. Texto sem várias atividades juvenis nãoreferência. 10 de novembro de 1945. se confundiam nem semisturavam com as dos adultos.” 101 “As Garotas do Alceu” exibiam a atmosfera juvenil em suas páginas. Elas seautodenominavam “brotos”, uma gíria comum na época para designar os adolescentes. Alógica por trás do termo parece remeter à mulher que está começando a experimentar avida e seus desafios, desabrochando como uma flor.100 PASSERINI, Luisa. A Juventude, metamorfose da mudança social. Dois debates sobre os jovens: a Itáliafascista e os EUA da década de 1950. In: História dos Jovens volume 2. São Paulo: Companhia das Letras,1996, p. 352101 BASSANEZI, Carla. Mulheres nos Anos Dourados. In: PRIORI, Mary. História das Mulheres no Brasil.São Paulo: Contexto, 1997, p.620. 56
  • 57. Essa teoria pode ser comprovada pela seção “Garotas e a Broticultura”, em que as ilustrações aparecem regando botões de flores: “A broticultura tem tomado grande incremento nesses últimos tempos. Os brotos estão dominando em todos os reinos da natureza. E as Garotas por causa desse cartaz estão com tudo e cheias de prosa.” 102 A juventude está associada à beleza como algo admirado e almejado, especialmente pelas mulheres mais Como jovenzinhas que se prezem, as ilustrações queriam o autógrafo do astro internacional do momento, ao mesmo tempo em que cultivavam uma vaidade e tanto. maduras, que com a crescente valorização de um perfil jovem se atiravam em Fig. 22 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: A beleza das Garotas. Texto Alceu Penna. 01 agosto de 1942. cuidados para manter por mais tempo o Fig. 22 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas e os autógrafos. Texto A. Ladino. 11 de outubro de 1952 frescor característico dessa idade, algocompartilhado também pelas adolescentes: “A juventude está associada a um padrão debeleza e isso envolve um aumento progressivo com os cuidados do corpo, cuidados que,em geral, tendem a atenuar e dissimular a idade sócio-biológica e causar a impressão devitalidade perene.” 103 “As Garotas”, mesmo sendo naturalmente jovens, se interessavam por rituais debeleza que pudessem potencializar os seus predicados. Elas aparentavam cultivar avaidade, fato evidenciado na seção de 01 de agosto de 1942, “A beleza das Garotas”, que102 “As Garotas do Alceu”. “Garotas e a broticultura”. Texto A Ladino. In: O CRUZEIRO. 8 abril 1950, p.38e 39.103 VIANNA, Letícia C.R. A idade mídia: uma reflexão sobre o mito da juventude na cultura de massa. SérieAntropologia 121, Brasília, 1992, p.2. Disponível em: http://www.unb.br/ics/dan/Serie121empdf.pdf. Acessado em 10 deagosto de 2006. 57
  • 58. revela ao leitor os profissionais da estética por trás das suas aparências: “O leitor é umesteta naturalmente. Gosta de apreciar o belo. (...) Por isso quando contempla na rua asilhueta provocante de uma “Garota”, nem lhe passa pela cabeça o conjunto de artistasanônimos que burilaram o motivo ondulante de sua admiração.” Na batalha para se manterem jovens e belas, a escolha correta da roupa se tornavaimprescindível: “O sistema de valores da sociedade adolescente acentuava a importânciada aparência por meio das roupas, popularidade, atrativos externos.” 104 Na coluna amaratona para escolher o melhor modelo era muito penosa, especialmente para osnamorados, que eram obrigados a esperar as indecisas figuras: “Pois sim! Vão esperando,sentados, rapazes incautos, de muito topete e pouco bom senso. Uma Garota quando dizque vem já já é porque começou a vestir-se. E quando ela começa a vestir-se o mundo párae espera...” 105 Ao lado dessa corrida pelas aparências, freqüentemente, “As Garotas” eramilustradas em situações em que seus pensamentos voavam longe, mais próximos dosbonitões rapazes e das fofocas da última festa, aliás, um típico comportamento adolescente:“Fixava-se o cabelo, mas não os pensamentos. E eles voavam com os toques das Garotasdo Alceu, a bíblia do visual fashion e intelectual dos brotinhos.” 106 Ao mesmo tempo em que os jovens, em geral, tendiam a ter gostos ecomportamentos comuns, como a vaidade exacerbada e a insegurança, ao mesmo tempo,compartilhavam de estilos de vida específicos. A coluna apresentou um universo ligado àjuventude da classe média carioca, que começava a adquirir representatividade, fixandolocais específicos de diversão, bem como comportamentos: “(...) um viver urbano na zona104 PASSERINI, Luisa. Op cit, p.358105 “As Garotas do Alceu”. “A Garota vem já já”. Texto A Ladino. In: O CRUZEIRO. 14 de janeiro de 1956,p. 70 e 71.106 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Op cit, p. 57 58
  • 59. sul, em festas, nos cinemas, nos barzinhos, na praia, praticando esportes, regado a muitamúsica “moderna” (Dick Farney e Lúcio Alves), jazz e Frank Sinatra.” 107 A linguagem desse grupo etário também se fazia particular, sendo, para o pavor dospais conservadores, repleta de gírias como “é de lascar o cano” (ruim demais), “quemocotó” (que coxa!) ou “da fuzarca” (farra).108 Em “Lanhe das Garotas” publicada em 06 de maio de 1950, as ilustrações tambémse animavam com as gírias durante um papo com as amigas, marcado por um ar deinformalidade e descontraído: “Um artista, um tarzan, mais tarde um senhor de idade queme fez declaração. Dei pelota nos três!” O estilo de vida jovem era, comumente, impregnado de uma rotina agitada, repletade eventos com uma animação desconhecida em outra idade. “As Garotas” apareciam emcenários agitados mesmo quando, supostamente, estavam descansando: “As Garotas estãode férias, descansando (...) para elas repousar significa andar a cavalo, subir montanhas,dançar noites inteiras, nadar centenas de metros, ir ao cinema, etc., etc., etc.” 109 O rock, um ritmo norte-americano tão agitado quanto a vida dos jovens que oescutavam, começava a tornar-se mais presente no Brasil nos anos 1950: “Um novo comportamento começou a se delinear, interferindo em uma sociedade conservadora. Elvis Presley com sua voz rouca e sensual, seus rebolados, seu modo de vestir colocou em cena uma nova estética: o corpo é a mensagem. Essa movimentação corporal representa para o jovem a afirmação da sua identidade.” 110107 PEREIRA. Simone Luci. Imprensa e Juventude nos anos 50. INTERCOM – Sociedade Brasileira deEstudos Interdisciplinares da Comunicação. XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, p. 3.Disponível em: http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/4373/1/NP2PEREIRA.pdf.Acessado em 10 de maio de 2006108 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Op cit, p. 10109 “As Garotas do Alceu”. “As Garotas descansam”. Texto João Moço. In: O CRUZEIRO. 18 de março de1944, p.46 e 47.110 GUMES, Nadja Vladi Cardoso. RG: Jovem: Culturas Juvenis e a formação das identidades da juventude.Belo Horizonte, 2003, p. 2. Disponível em:http://reposcom.portcom.intercom.org.br/dspace/bitstream/1904/4992/1/NP13GUMES.pdf. Acessado em 28de outubro de 2006 59
  • 60. Carlos Gonzaga regrava “Diana” (1958), sucesso de Paul Anka, e Celly Campelograva a música “Estúpido Cupido” (1959): “O rock começava aqui. Mas não eraexatamente como no resto do mundo. As famílias não se assustavam. E as cobrastransviadas do Snack iam ter que esperar o “pega pra capar” dos anos 60.” 111 Enquanto isso, um novo ritmo surge – a bossa nova – que teve como marco olançamento de “Chega de Saudade”, música interpretada por João Gilberto no fim dadécada. Esse estilo musical foi protagonizado, sobretudo, pelos jovens da classe médiaintelectualizada: “Caracterizada pela sintetização de elementos musicais do jazz, da música erudita, e da música popular brasileira urbana das décadas anteriores, a bossa nova traduziu, de certa forma, as expectativas de um Brasil moderno, alimentadas por uma parte da classe média brasileira durante a vigência da política desenvolvimentista de JK” 112 . O cinema participou, também, ao lado da música, na difusão do estilo de vidajovem. A cultura teeneager, em evidência nos EUA, propagava-se no Brasil,principalmente, através do cinema hollywoodiano. Começava a surgir uma produçãocinematográfica voltada para os jovens, com ídolos teen como James Dean e MarlonBrando, que, em certa medida, vendiam um estilo de vida do seu país de origem e opropagavam como identidade juvenil: “Os meios de comunicação são o palco para apropagação de imagens juvenis de rebeldia, heroísmo, moda, gostos e identidades. Ajuventude é uma fonte de modo de expressão que apropria e é apropriada peloconsumo.” 113 “As garotas” também adoravam cinema, acompanhando a programação e,principalmente, como boas tietes, colecionavam autógrafos: “Elas têm suas preocupações e111 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Op cit, p.131.112 ZAN. José Roberto. Op cit, p.16113 GUMES, Nadja Vladi Cardoso. Op cit, p. 03 60
  • 61. algumas são de ordem intelectual como, por exemplo, a de colecionar autógrafos. Sãoeméritas colecionadoras (...).” 114 O cinema norte-americano revelou imagens ousadas e transgressoras. James Deanprotagonizou o filme “Juventude Transviada” (1955), definindo a essência de seradolescente, ou seja, de nunca ser totalmente compreendido pela sociedade e pelos pais: “A ‘nova’ autonomia da juventude como uma camada social separada foi simbolizada por um fenômeno que, nessa escala, provavelmente não teve paralelo desde a era romântica do início do século XIX: o herói cuja vida e juventude acabavam juntas. Essa figura, antecipada na década de 1950 pelo astro de cinema James Dean (...).” 115 Outros ícones do cinema ofereceram diversas identidades ligadas à juventude,oscilando entre a ousadia e o recato, assim como “As Garotas”, que pareciam absorver umpouco dessas duas influências. A atriz Marilyn Monroe idealizou a vamp maliciosa:“Marilyn Monroe, vamp molhada de Tormenta das Paixões, nua sob o vestido vermelho,sexo devorador, rosto desinibido, é quase um símbolo do novo relançamento do starsystem.” 116 Já o perfil inocente sensual foi imortalizado por Brigitte Bardot, em “Deuscriou a mulher” (1957), e Audrey Hepburn, em “Sabrina” (1954): “Muitos jovens dasclasses médias em ascensão queriam imitar seus ídolos, mas estavam apenas iniciando umatrajetória de liberação e rebeldia que, nas décadas seguintes, se tornaria um fenômeno demassa.” 117114 “As Garotas do Alceu”. “Garotas e os autógrafos”. Texto A ladino. In: O CRUZEIRO. 11 de outubro de1952, p.76 e 77.115 HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia dasLetras, 1995, p.318116 MORIN, Edgar. As estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p.18.117 SAN´TANNA, Denise Bernuzzi. Representações Sociais da liberdade e do controle de si. In: RevistaEletrônica do Arquivo do Estado n° 5. São Paulo, 2005. Disponível em:http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao05/materia01/. Acessado em 10 deoutubro de 2006. São Paulo, 2005, p.01. 61
  • 62. A juventude compartilhava, além de um estilo de vida específico, um visualcaracterístico também. Em linhas gerais, a imagem juvenil no Brasil era associada, para osrapazes, ao penteado pega-rapaz, o blue jeans, o Glostora 118 no cabelo e, para os maisrebeldes, os óculos “Ronaldo” 119 e a jaqueta de couro: “(...) a jaqueta preta, com ou sem o jeans e camiseta, sempre foi usada quase invariavelmente por grupos musicais que assumiam uma postura rebelde (...) Essas convenções foram estabelecidas pelos filmes de Hollywood sobre adolescentes, na década de 1950, embora apenas um deles tenha usado o rock.” 120 Os óculos “gatinho” para as moças eram muito populares também. O sucesso dessemodelo foi tão grande, que algumas óticas chegaram a vendê-lo sem as lentes de grau.121 Orabo-de-cavalo (muito presente nos penteados das “Garotas”), o bambolê, as alpargatas nopé e goma de mascar na boca, compuseram também a imagem das jovenzinhas da época. O jovem brasileiro nos anos 1950, à medida que ganhava destaque na sociedade,via-se dividido entre dois perfis distintos, um influenciado pelos discursos morais e dedesenvolvimento do país e outro em sintonia com as imagens do cinema norte-americano:“Nos discursos dos anos 50, é possível perceber um padrão de jovem responsável, que seocupa em trabalhar, estudar, ‘construir um futuro’, apresenta-se em concomitância com umideal de amor romântico, propagado pelos meios culturais, onde nem os artistas fugiam aesta construção.” 122118 Glostora era marca de uma espécie de pomada masculina usada para modelar e deixar os cabelos comaspecto lustroso. Segundo Alberto Villas, Glostora distinguia o cavalheiro de todos os demais, porque fixavasem empastar e amaciava sem engordurar. VILLAS, Alberto. O Mundo acabou. São Paulo: Globo, 2006,p.110119 De acordo com Joaquim Ferreira dos Santos, eram os óculos escuros usados por Ronaldo de Souza Castroo assassino de Aída Curi – jovem que se atirou de um prédio na Avenida Atlântica, no fim dos anos 1950,para fugir de um suposto assédio. Esses óculos simbolizavam a juventude transviada. In: SANTOS, JoaquimFerreira dos. Op cit, p. 137120 CRANE, Diana. A moda e seu papel social: classe, gênero e identidade das roupas. São Paulo: EditoraSenac São Paulo, 2006, p.360.121 GONTIJO. Silvana. 80 anos de moda no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p.77122 PEREIRA, Simone Luci. Op cit, p. 09. 62
  • 63. “As Garotas” também eram ilustradas em situações, muitas vezes, contraditórias. A liberdade se alternava com atitudes um tanto quanto conservadoras. Elas sentiam-se censuradas, muitas vezes, ao entregarem-se aos prazeres de “As Garotas” usavam também os óculos estilo gatinho, muito popular entre as jovens do período. Fig. 23. Coluna “As Garotas do Alceu”. Garotas na areia. Texto sem um beijo: “Momento terrível referência. 10 de novembro de 1945. para as Garotas é aquele emque elas são forçadas a cortar a trajetória de um beijo.”123 Ao mesmo tempo emanavam umar independente, que não era muito comum para a época, especialmente para uma jovem:“As garotas são todas uns anjinhos (que Deus me perdoe!)... Capazes de atear qualquerincêndio, desses que não há bombeiro que apague.” 124 Em um Brasil, que passava por uma grande modernização, em que velhosparâmetros sociais de conduta colocavam-se ao lado dos novos, era muito natural que afigura do jovem “certinho” convivesse com a do jovem “moderninho” ou até mesmo“transviado”. Do jovem, nesse período, era esperado saber dosar ingredientes modernos etradicionais, tentando estabelecer um equilíbrio entre eles.123 “As Garotas do Alceu”. “Alto, Garotas!” Texto A Ladino. In: O CRUZEIRO. 10 de abril de 1948, p.22 e23.124 “As Garotas do Alceu”. “As Garotas mais revolucionárias”. Texto sem referência. In: O CRUZEIRO. 13de setembro de 1947, p.22 e 23. 63
  • 64. CAPÍTULO 2. UMA REVISTA MODERNA: O CRUZEIRO DAS “GAROTAS”2.1 Os Diários Associados: rumo à integração nacional Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1891-1968) foi um homem visionário quefundou um grande império jornalístico na primeira metade do século XX: os DiáriosAssociados. Nascido em Umbuzeiro, na Paraíba, formou-se em Direito, mesmo sendo ojornalismo a sua grande vocação. Começou sua carreira no Jornal de Pernambuco e foipara o Rio de Janeiro em 1917. Chateaubriand, mesmo advogando, prática que logoabandonou, chegou a contribuir para vários jornais, incluindo o La Nacion, de BuenosAires. Foi redator-chefe do Jornal do Brasil e, até mesmo, correspondente do Correio daManhã em assuntos internacionais. Em 1924 adquiriu seu primeiro periódico, O Jornal, por uma quantia modesta: “(...)em 1924 quando Assis Chateaubriand Bandeira de Mello saindo da maioridade, comproufiado o matutino O Jornal, por 100 contos de réis, com dinheiro dado por um inglês,gerente do Banco de Londres.” 125 Aliás, é nesse periódico, considerado um dos principaisdos Diários Associados, que Alceu Penna conseguirá seu primeiro emprego, ilustrando osuplemento infantil. Logo depois, Chateaubriand consegue lançar outros jornais, como o Diário daNoite, o Diário de São Paulo e o Jornal do Commércio, um dos mais antigos do país. Iráconcretizar, também, um sonho antigo: comprar o Diário de Pernambuco, publicação ondeiniciou sua carreira. Em 1934, dando seqüência aos seus planos, o jornalista inaugura suaprimeira estação de rádio – a Tupi.125 NASSER, David. Diários Associados: ascensão e queda. In: ESTADO DE SÃO PAULO. 15 de julho de1980, p. 5. 64
  • 65. O jornalista, desde jovem, já ambicionava grandes feitos: “Seu objetivo, desdejovem, era implantar uma cadeia de jornais, para promover a integração nacional (...).”126Audacioso, ampliava a sua cadeia de periódicos dando apenas uma entrada e sepreocupando em liquidar o resto da quantia mais tarde. Aliás, essa é uma característica queirá acompanhá-lo: ser um mal pagador. Chateaubriand acumulou uma extensa rede de contatos e amizades influentes, queformariam a base do seu império. Desde a Revolução de 1930, quando se tornou aliado deGetúlio Vargas, conseguiu um enorme apoio financeiro do governo para suas empreitadas: “O Rio era o centro do poder de Chateaubriand, vigoroso jornalista, conseguiu lançar o Diário da Noite, outro que vendia uma barbaridade”. 127 Entretanto, como característica ele fazia alianças conforme o seu interesse: “A atenção dos governantes esteve sempre voltada aos Diários Associados devido à sua condição de poderosa máquina manipuladora da opinião pública (...) fez acordos com JK e mais que todos um relacionamento bastante controvertido com Getúlio Vargas.” 128 O grupo Diários Associados reuniu algumas importantes revistas do país, como OCruzeiro. Em 1928 Chateaubriand, atraído pela idéia de lançar uma revista diferente, emformato inovador, arrecada uma pequena fortuna para os padrões da época, a fim decomprar o título Empresa Gráfica O Cruzeiro de Edmundo Miranda Jordão. Investiu-sebastante no parque gráfico e nas instalações da revista recém-nascida, que mais tarde seriaa maior do Brasil. Com certeza, O Cruzeiro, a primeira revista ilustrada nacional, marcou ahistória da imprensa, sendo na época a menina-dos-olhos dos Diários Associados com126 COSTA, Camillo Teixeira da. Jornalismo: do lirismo às empresas modernas. In: Cadernos de Entrevistas.Belo Horizonte: PUC MINAS. Departamento de Comunicação. V.1 n°1, fevereiro de 1996, p. 26.127 NASSER, David. Diários Associados: ascensão e queda. Op cit, p. 5.128 CUNDARI, Paula Casari. Assis Chateaubriand e a implantação da TV no Brasil. Dissertação mestrado.Instituto Metodista de Ensino Superior. São Bernardo do Campo, São Paulo, 1984, p. 35. 65
  • 66. tiragens de recordes. Ela será uma das responsáveis por iniciar a consolidação do ideal de seu fundador: integrar o Brasil através da imprensa. Depois de O Cruzeiro, a revista A Cigarra foi comprada pelo grupo, se tornando uma importante publicação do período para mulheres. Ela foi criada em 1914 por Gelásio Pimenta, mas apresentava desempenho insatisfatório. Em 1933 é adquirida pelos Diários Associados, circulando até 1956. A direção ficou a cargo de Freddy Chateaubriand, sobrinho de Assis. Quando incorporada ao grupo, a publicação circulava no interior de O Cruzeiro, somente em São Paulo. Essa prática A Cigarra se tornou muito popular e com um direcionamento feminino não repercutiu positivamente nas vendas e, a partir dessa declarado, abordava temas como relacionamentos, experiência, A Cigarra tornou-se uma publicação de beleza e o mundo das celebridades. Fig. 24 a. Capa Cigarra. circulação independente. O seu conteúdo era diversificado e Sem data. Fig 24 b. Suplemento continha um editorial bastante comum às publicações feminino em A Cigarra. Ilustração de Alceu Penna. femininas da época: “A Cigarra mantinha a mesma receita Janeiro de 1945 editorial: contos, relatos de viagem, pequenas crônicas ereportagens, moda, beleza, uma seção de cartas muito movimentada.” 129 Mesmo sendoconsiderada uma publicação feminina, não foi pensada originalmente para esse público,mas seu conteúdo acabou configurando-a como tal: “ O conteúdo ameno, proclamado poralguns pesquisadores ao tratarem de A Cigarra, na verdade se dava na quase ausência decomentários sobre política e confrontos sociais em suas páginas.” 130129 BUITONI, Dulcilia Helena Schroeder. Imprensa Feminina. São Paulo: Ática, 1990, p. 45.130 AZEVEDO. Lílian H. de. Mulheres revistas: Educação, sociabilidade e cidadania na revista A Cigarra(1914-1920). Artigo apresentado no INTERCOM. XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação –Salvador/BA, setembro, 2002, p. 02. 66
  • 67. Alceu Penna foi uma presença marcante na publicação, sobretudo, a partir dadécada de 1940. “O suplemento modas” da revista contou com a sua contribuição,incluindo desenhos de sugestões de fantasias, bem explicadas, que iam das carnavalescasàs de festa junina. A partir de 1948, ele irá, juntamente com Elza Marzullo, responsávelpela coluna de beleza no O Cruzeiro, assinar “O Suplemento feminino”: “Conselhos debeleza, maquiagem para a noite, conselhos de moda (modelos americanos desenhados porAlceu) (...)” 131 . Além de ilustrações de moda, na revista, Alceu Penna investiu nos quadrinhos, nadécada de 1950, em parceria com a cronista Helena Ferraz, sob o pseudônimo de ÁlvaroArmando. Os dois criaram o “Marido da Madame”, que contava a história, em forma detextos rimados, de Gonçalo e Lolita, um casal de classe média alta. Chateaubriand, entre muitas empreitadas, foi um pioneiro, responsável pelolançamento da primeira emissora de TV do Brasil, a Tupi (1950-1980), que contou comfiliais no Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1947 ele funda o Masp – Museu de Arte de SãoPaulo –, em ação conjunta com Pietro Maria Bardi, jornalista e crítico de arte, reunindocerca de 100 milhões de dólares em patrimônio. Accioly Netto, que viria a ser o redator-chefe de O Cruzeiro, relembra que era comum Chateaubriand reunir colecionadores de arteem uma confraternização e depois anunciar no microfone que alguns deles estavam doandoobras para o museu e, claro, sem-graça, esses colecionadores não protestavam. 132 Os Diários Associados enfrentaram uma fase difícil após a morte de Chateaubriand,em 4 de abril de 1968, transformando-se em Condomínio Associado, controlado pelosenador João Calmon. O grupo já estava amargando uma forte concorrência de novosDisponível em:http://www.intercom.org.br/papers/xxvci/comunicacoes/COMUNICACOES_AZEVEDO.pdf. Acessado em30 de outubro de 2006.131 BUITONI, Dulcilia Helena Schroeder. Mulher de Papel. São Paulo: Loyola, 1981, p. 75.132 NETTO, Accioly. Império de Papel: Os bastidores de O Cruzeiro. Porto Alegre: Sulina, 1998, p. 36. 67
  • 68. 133conglomerados que se fortaleciam no cenário nacional, como O Grupo Abril eBloch 134 . A Editora Bloch lança em 1952 a revista Manchete, configurando-se na maior rivalde O Cruzeiro: “Imigrante russo naturalizado brasileiro que aqui chegou com a família em1922, Adolpho Bloch apostava que havia lugar no mercado para mais uma revista decirculação nacional, ou seja, que poderia concorrer com O Cruzeiro.” 135 Ela se diferenciava, assim, como O Cruzeiro, por uma atenção ao fotojornalismo ediagramação: “(...) a Ed. Bloch lança Manchete, revista de caráter mais moderno, queincorporava inovações gráficas, inclusive com mais páginas a cores, sempre em papel dequalidade, com um bom corpo de redatores e de colaboradores, excelentes fotógrafos,ilustradores e diagramadores.” 136 Com um projeto semelhante ao de O Cruzeiro, a revistaManchete ia se tornando aos poucos superior: “O apogeu da Manchete coincidiu com odeclínio de O Cruzeiro e com a transferência de dezessete jornalistas deste periódico para aManchete, em 1958, por divergirem da postura ética do proprietário. 137 ”133 Fundado em 1950 por Victor Civita como Editora Abril, o Grupo Abril é hoje um dos maiores e maisinfluentes grupos de comunicação da América Latina. A editora começou com a publicação O Pato Donaldnum pequeno escritório no Centro de São Paulo. Em 1960, num empreendimento inovador e ousado, VictorCivita resolveu publicar obras de referência em fascículos. Foi um fenômeno editorial. Ao mesmo tempo, ocrescimento da família Disney e o lançamento de Zé Carioca, em 1961, estimularam os quadrinhos nacionais.A Abril é responsável pelas publicações Capricho, Quatro Rodas, Placar, Playboy, Vip e Veja, hoje a maiorrevista do país e a quarta maior revista semanal de informação do mundo. In: www. abril.com.br.134 A Bloch foi fundada por Adolpho Bloch, em 1952. Bloch, anteriormente, chegou atrabalhar na RioGráfica, de Roberto Marinho. O grupo possuiu duas gráficas, editora e distribuidora de livros didáticos,fábricas de tinta, revistas, entre elas Desfile, Fatos e Fotos e Ele e Ela, emissoras de rádio e TV, queformavam a Rede Manchete. Ele sobrevive até o ano de 2000. Entre suas principais publicações está a revistaManchete e Jóia, uma publicação que servia basicamente aos produtos da multinacional Rhodia. “(...) Em1979 com uma receita operacional de Cr$ 1 bilhão 179 millhões a Bloch Editores apresentava um balanço decrescimento de vendas de 7,4% (acima da mediado setor 6,3 %) (...)”. In: Governo concede TVs aos gruposBloch e Sílvio Santos. 1° Caderno. JORNAL DO BRASIL. 20 de março de 1981, p.15.135 ANDRADE, Ana Maria Ribeiro de; CARDOSO, José Leandro Rocha. Aconteceu, virou manchete. In:Revista Brasileira História, São Paulo, v. 21, n. 41, 2001. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010201882001000200013&lng=en&nrm=iso>Acessado em 10 de outubro de 2006.136 BUITONI, Dulcilia Helena Schroeder. Op cit, p.87.137 ANDRADE, Ana Maria Ribeiro de. CARDOSO, José Leandro Rocha. Op cit, p. 2. 68
  • 69. A Editora Abril lançou também, em 1958, a Capricho, que vai apostar inicialmenteem um gênero feminino nascente: as fotonovelas. Sua divulgação foi bastante estruturadasob a direção do publicitário J.Thompson: “Nos primeiros números, as seções fixas, além das fotonovelas, são: contos, psicologia, moda e beleza, vida e atualidades, fatos reais e variedades. As matérias sempre muito curtas – a maioria de meia página –, “cortam” as fotonovelas, como se fossem uma “pausa para o descanso”, evidenciando que a fotonovela ocupa lugar de destaque na ordem de prioridade interna.” 138 Na década de 1950 a revista Seleções, uma adaptação da Reader´s Digest, norte-americana, existente desde 1942, engrossa os concorrentes de O Cruzeiro: “(...) pesquisasfeitas pelo ibope, como realizada em 1950, mostram que Seleções era a principalconcorrente de O Cruzeiro (...).” 139 Ela contava com poucas ilustrações e o tom dos textosera crítico, ao passo que a revista de Chateaubriand era essencialmente ilustrada, dotada deum tom mais descontraído. Seleções era a marca de um imperialismo crescente no país:“Não é segredo para ninguém que a política editorial de Seleções do Reader´s Digest éditada dos EUA (...) são os americanos que orientam intelectualmente ambaspublicações.” 140 A má administração e desorganização dos Diários Associados, juntamente com aconcorrência que se fortalece, fazem o grupo entrar em um período de decadência,culminando com a perda da concessão da rede Tupi de TV em julho de 1981. Outroscontratos de concessão são assinados para ocuparem o lugar da antiga rede de TV: “Oscontratos de concessão dos canais de TV da antiga Tupi foram assinados (...) Eles138 CASTRO, Ana Lucia. Revistas femininas: aspectos históricos, produção e usos sociais. Dissertação demestrado, São Paulo, 1994, p. 59.139 MIRA, Maria Celeste. O leitor e a banca de revista: a segmentação da cultura no século XX. São Paulo:Olhos D´água/ FAPESP, 2001, p.27.140 SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1977, p.456. 69
  • 70. possibilitam o surgimento de duas novas redes nacionais transmissoras de imagens: a SBTe a Manchete (...).” 141 Os Diários Associados hoje editam jornais importantes, como O Estado de Minas(MG), O Jornal do Commércio (RJ), o Correio Brasiliense (Brasília), O Diário dePernambuco (Recife), entre outros. Controla emissoras de rádio como a Tupi AM (RJ), aGuarani FM (BH), e de TV, como a Alterosa (BH) e TV Clube (Recife, Pernambuco),entre outros. Hoje os Associados são controlados por um grupo acionário, de propriedadedos funcionários mais proeminentes das empresas. Mesmo tendo enfrentado um períododifícil, o grupo é, até os dias de hoje, um grande império das comunicações, que controloumais de 100 jornais, revistas, estações de rádio e TV, agências de notícias. As principaispublicações da imprensa pertenciam ao grupo, entre elas o grande fenômeno editorial OCruzeiro. Foi uma empresa pioneira no campo das comunicações, pertencendo a umtempo em que a televisão não era a realidade geral, lançando-se na difícil tarefa de integraro Brasil de norte a sul.141 Contratos de concessão de canais são assinados. In: Folha Ilustrada. FOLHA DE SÃO PAULO. 20 deagosto de 1981, p. 36. 70
  • 71. 2.2 O Cruzeiro: a revista dos “arranha-céus” A revista O Cruzeiro foi um marco na imprensa nacional. O primeiro númerochegou às bancas em 05 de dezembro de 1928. Seu lançamento literalmente parou a entãomaior e mais importante avenida do Rio de Janeiro: a Rio Branco. Uma chuva de papel,que estava sendo atirada do alto dos edifícios, cobria as ruas, chamando as pessoas acomprarem a publicação: “(...) Compre amanhã O Cruzeiro, em todas as bancas, a revistacontemporânea dos arranha-céus.” 142 O Cruzeiro tinha um projeto audacioso para a época: “(...) Cruzeiro de Chateaubriand era uma revista com papel de melhor qualidade, repleta de fotografias, contaria com os melhores articulistas e escritores do Brasil e do exterior, e assinaria todos os serviços estrangeiros de artigos e fotografias (...) seria semanal. Com tiragem de 50 mil exemplares (...) que circulariam em todas as capitais e principais cidades do Brasil.” 143 No lançamento da publicação, a tiragem passa dos 48.000 exemplares, custando emtorno de 1$000, o exemplar. A revista era de variedades, pois abordava diversos assuntos e seu público-alvo eraamplo: “O Cruzeiro trazia um pouco de tudo e se dirigia a todos, homens, mulheres, jovensou não, longe da preocupação hoje obrigatória de descobrir preferências de cada um, seusgostos, expectativas ou estilo de vida. Era a revista da família brasileira.” 144 Ela foi a primeira revista ilustrada a circular nacionalmente e foi, durante muitotempo, a mais lida: “Quando O Cruzeiro atingiu a sua fase de maior sucesso, era uma142 NETTO, Accioly. Op cit, p. 36.143 MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1994, p. 178.144 MIRA, Maria Celeste. Op cit, p. 13. 71
  • 72. revista essencialmente eclética, destinada a ser lida por um público diversificado, de todas as classes sociais, incluindo homens e mulheres.” 145 O Cruzeiro se encaixava no projeto audacioso dos Diários Associados de integrar o Brasil através da imprensa, compartilhando, durante o Estado Novo, do resgate à identidade nacional. Realmente, noticiou acontecimentos em diversas regiões do país, como Pará, Rondônia, entre outros estados. A revista normalmente dava importância, por exemplo, a toda produção nacional de destaque, como Carmen Miranda, que ganhou diversas reportagens na revista durante o período de sua carreira meteórica. Em uma reportagem de 03 de agosto de 1957, O Cruzeiro reunia assuntos intitulada “A Arte Moderna do Brasil em Buenos Aires”, diversos, agradando à homens e mulheres. Foi uma tentativa de integração nacional de um país, destaca-se o orgulho de terem expostas na Argentina obras ainda, naquele período, dominado pelo localismo. Pretendia ser a porta-voz de toda a modernidade. de artistas nacionais renomados, como Heitor dos Prazeres Fig. 25 a. Capa O Cruzeiro, feita por Alceu Penna. 24 de dezembro e Di Cavalcanti: “O público e críticos de arte argentinos de 1938 Fig. 25 b. Capa O Cruzeiro puderam apreciar de perto as telas, os desenhos, as inaugural. 05 de dezembro de 1928 esculturas dos mestres das artes plásticas do Brasil.” Entretanto, mesmo sendo recebida como umarevista com “a cara do Brasil”, ela mostrou, na prática, mais os eventos relativos ao Rio deJaneiro, o modelo cultural dominante: “Ao mesmo tempo em que O Cruzeiro mostra oBrasil para o Brasil permeia os entendimentos dos leitores a fim de ajustá-los à visão demundo moderno veiculada pela própria revista.” 146145 NETTO, Accioly.Op cit, p. 123. 72
  • 73. Em seus primeiros números, tinha uma característica curiosa: ao lado das reportagens, havia o tempo necessário para lê-las: “Assim, para ler a entrevista com o presidente de Portugal, Oscar Carmona, o leitor iria precisar de treze minutos e vinte segundos. O conto ‘Salva pelo amor’ demandaria um tempo maior: 26 minutos e vinte segundos. A reportagem sobre a realização do filme Helena de Tróia, da Metro Goldwyn Mayer, dez minutos exatos.” 147 Com um projeto arrojado, a publicação O Cruzeiro prestou bastante atenção ao seu contava com muitas contribuições de peso, público feminino leitor, especialmente após a entrada de Accioly Netto, abordando receitas culinárias e matérias sobre o cinema norte- desde o setor de ilustrações, com Anita Malfati americano. Fig. 26 a. Coluna Lar doce Lar: Mais salgadinhos e Di Cavalcanti, além de nomes literários, como de salsichas. Assinada por Thereza Penna, irmã de Alceu, no O Cruzeiro. 13 de dezembro de 1958. Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Murilo Fig. 26 b. Reportagem O Cruzeiro: Vivi!. Sobre a atriz norte-americana Hedy Lammar. 05 de Rubião e Graciliano Ramos. Raquel de Queiroz dezembro de 1938. assinava, no final da edição, uma crônica,intitulada “Última página”. O conteúdo da publicação era variado. Havia desde colunas sociais, seções de moda(em sua maioria, feitas por Alceu Penna), reportagens sobre o Brasil e o exterior, atémesmo culinária. Curiosamente, é Thereza Penna a responsável, durante um bom tempo,pela coluna de culinária da revista Lar Doce Lar, que teve como antecessora Helena146 URSINI, Leslye Bombonato. A revista O Cruzeiro na virada da década de 1930. Dissertação mestrado.Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2000, p. 53.147 BARBOSA, Marialva. O Cruzeiro: uma revista síntese de uma época da história da imprensa brasileira.São Paulo, 2002, p.6. Disponível em:http://www.eca.usp.br/alaic/material%20congresso%202002/congBolivia2002/trabalhos%20completos%20Bolivia%202002/GT%20%207%20%20Juan%20Gargurevich/marialva%20Historia%20da%20comunicacao.doc. Acessado em 10 de outubro de 2006. 73
  • 74. Sangirardi: “São tantas as variedades de salgadinhos que se podem fazer com salsichas, que podemos assegurar que as receitas chegam a centenas. É também um ingrediente que quase sempre se tem em casa, servindo para o enriquecimento de qualquer ‘menu’ (...).” 148 O cinema era uma pauta constante na revista. Havia a seção “Cinelândia”, assinada por Pedro Lima, que se dedicava às fofocas do meio, noticiando a vida das estrelas como Judy Garland e Greta Garbo. As seções de humor se tornariam célebres pelas mãos de talentos como Millôr Fernandes em As seções de humor ficaram imortalizadas por talentos como Péricles e Millôr Fernandes, que salientaram a característica “O Pif Paf” e Péricles de Andrade Maranhão no marcante da publicação: oferecer diversidade, mas com conteúdo. “Amigo da Onça”: “Em 06 de junho de 42, Péricles Fig 27 a. O Pif Paf. Seção de humor, já estava na empresa. Tinha 17 anos. Passou a fazer assinada por Millôr Fernandes, em O Cruzeiro. 17 de outubro de 1959. dupla com Millôr, no Poste Escrito e no Fig 27 b. O Amigo da Onça. Seção de humor assinada por Péricles, em O Cruzeiro. 11 de janeiro de 1964. personagem Oliveira, O trapalhão – um portuguêspara variar – antecessor de O Amigo da Onça, que logo o consagraria.” 149 A revista promovia, também, edições especiais em datas comemorativas, comoNatal e carnaval, alavancando enormes vendagens: “O número de Natal, por exemplo, erasempre uma edição luxuosa, com algumas páginas impressas em papel especial (cartolina epapel couchê), muitas vezes com tarjas na cor prata.” 150148 Coluna “Lar doce lar”. “Mais salgadinhos de salsichas”. Thereza Penna. In: O CRUZEIRO. 13 dedezembro 1958.149 CARVALHO, Luiz Maklouf. Cobras criadas: David Nasser e O Cruzeiro. São Paulo: Senac, 2001, p. 57.150 NETTO, Accioly. Op cit, p.136. 74
  • 75. No início dos anos 1930, O Cruzeiro nem bem nascia e já perdia fôlego. Em 1933,Accioly Netto assumiria o controle da redação no sentido de reestruturar a revista, usandotodos os recursos, inclusive a pirataria 151 : “Como não há dinheiro, vale até inventar, criarfatos para justificar as imagens. O próprio Accioly Netto escreve uma coluna nesseformato com o pseudônimo de Marius Swenderson, ‘o correspondente de ao Cruzeiro emHollywood’.” 152 A passagem da coluna de Swenderson evidenciava que O Cruzeiro estavade olho nos padrões internacionais: “Foi sem dúvida, o magazine que criou o moderno tipode beleza feminina. A grande revista, com as exigências da publicidade decorativa, dignasde seu apuro gráfico (...).” 153 A partir da década de 1940, observando os esforços de reformulação, a revistacomeça a se reerguer: “(...) foi a partir de 1940 que a revista incorporaria o padrão de qualidade das publicações internacionais, incluindo, desde então, nas suas primeiras páginas, um detalhado expediente, em que se podia constatar a especialização dos seus serviços em vários departamentos, nos moldes das famosas revistas Life, Look, Paris Match e outras.” 154 A publicidade da revista também sofreu mudanças. A partir de 1933, quemassumirá o posto é J.Thompson, angariando verbas consideráveis para a publicação. Em1951 uma comitiva formada por Accioly Netto, Alceu Penna e outros visitou as redaçõesdas principais revistas norte-americanas, a fim de se atualizarem e trazerem práticas151 O Cruzeiro conseguia fotografias para preencher suas páginas junto às agências estrangeiras como aAtlantic Photo Berlim e a Consortium Paris e, possivelmente, junto à própria editora da revista a EmpresaGráfica Cruzeiro. In: URSINI, Leslye Bombonato. Op cit, p.53152 JUNIOR, Gonçalo. Alceu Penna e as Garotas do Brasil: moda e imprensa 1933/1980. São Paulo: Clubedos Quadrinhos, 2004. p. 36.153 “Cover Girl: Como a revista ilustrada criou um novo tipo de beleza feminina”. In: O CRUZEIRO. 6 dejaneiro de 1945, p. 59-64.154 MAUAD. Ana Maria. Sob o olhar: um exercício de análise da fotografia nas revistas ilustradas cariocas,na primeira metade do século XX. In: Anais do Museu Paulista v. 13, número 001. São Paulo, 2005.Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/273/27313105.pdf. Acessado em: 10 de outubro de2006, p. 24 75
  • 76. inovadoras para a revista brasileira. Após um início difícil, O Cruzeiro finalmente se recupera: “Tornou-se uma das revistas de maior vendagem na história do país, quanto mais para sua época. Saiu inicialmente com 50 mil exemplares, passando dos 700 mil na edição histórica sobre o suicídio de Vargas.” 155 Em 1949 a tiragem era de 300.000 e, em 1955, pulava para 630.000. 156 O Cruzeiro era, originalmente, uma revista de variedades, mas, no decorrer do seu projeto de reformulação, o segmento feminino ganhou maior destaque: “(...) dedica também ao público feminino a seção Carta de Mulher, onde publicam correspondências das leitoras (...).” 157 A coluna “As Garotas do Alceu”, surgida em 1938, atraiu o público feminino, levando as O direcionamento feminino da publicação ficava evidente com as mulheres a acompanhar a moda e os modos dessas colunas regulares de beleza e comportamento, que auxiliavam com dúvidas tanto de mulheres figurinhas. solteiras como das casadas. Fig 28 a. Coluna Elegância e As colunas de etiqueta e beleza se faziam beleza. Assinada por Elza Marzullo, O Cruzeiro. Destacava os milagres da boa maquiagem e presentes, aproximando-se das mulheres com um tom de dicas para não engordar. 06 de julho de 1957. conselho. Havia a coluna “Elegância e Beleza”, de Elza Fig 28 b. Coluna De mulher para Mulher. Assinada por Maria Marzullo: “Para realizar os mesmos milagres, você Teresa, em O Cruzeiro. Destacava “a arte” de agradar os homens. 27 de julho de 1957. precisará de um bom espelho de aumento, um olhoanalítico e tudo o que chamamos de maquilagem.” 158 A revista contava, também, com “Demulher para mulher”, de Maria Teresa: “Quando uma moça deixa de gostar de um rapaz155 MIRA, Maria Celeste. Op cit, p. 23.156 HONS, André de Seguin dês. Lê Brésil. Presse et histoire 1930-85. Paris: L Harmattan, p.28.157 BARBOSA, Marialva. Op cit, p.8.158 Coluna “Elegância e Beleza”. In: O CRUZEIRO.06 de julho de 1957. Sem paginação. 76
  • 77. que a ama, ou mesmo quando o amou apesar da ternura que ele lhe dedica, deve ser franca.”159 Havia também uma coluna de etiqueta social, assinada por Emily Post – um provável pseudônimo –, em que Alceu Penna assinava ilustrações, no final da década de 1940. Accioly Netto relembra do período de reestruturação da revista, assim como o que foi explorado nesse projeto: “Explorou bastante a figura feminina em diferentes situações, nas festas da alta sociedade ou nos desfiles de moda que se realizavam periodicamente no Goldem Room do Copacabana Palace.” 160 Percebe-se um intenso colunismo social, que não deixava de ser um chamariz para as mulheres, atraindo-as pela atmosfera de sonho e a possibilidade de espiar o que as “famosas” estavam usando. Havia as Alceu Penna emprestou a sua colunas sociais “G de A”, “O Jockey Club Mundano”, versatilidade em contos e editoriais na revista. As novidades em moda eram além da seção “Spot Light”, que cobria, sobretudo, devidamente explicadas, com textos que auxiliavam as leitoras a montar as peças. Fig. 29 a. Conto Bahia de Gilka acontecimentos e celebridades do teatro, entre outros. Machado, ilustrado por Alceu Penna, em O Cruzeiro. 08 de outubro de 1938. Essa era assinada por Crock, pseudônimo de Accioly Fig. 29 b. Portifólio Modas, em O Cruzeiro. Assinado por Alceu Penna. Netto. Moda norte americana, B. Altaman & Co, 5 ª Avenida. 17 de julho de 1943. Entre todos os profissionais que trabalharam emO Cruzeiro, Alceu Penna ocupou um lugar especial. Accioly Netto recorda: “(...) AlceuPenna, ele que foi um dos responsáveis pelo enorme sucesso da revista, com a qual159 Coluna “De mulher para mulher”. In: O CRUZEIRO. 27 de julho de 1957. Sem paginação.160 NETTO, Accioly. Op cit, p.48. 77
  • 78. colaborou durante nada menos que 28 anos.” 161 Ziraldo, que também trabalhou napublicação, relembra da importância do ilustrador: “A equipe de jornalistas, repórteres,ilustradores e humoristas de O Cruzeiro criaram vários mitos naqueles tempos – que nãovão muito longe. Não tenho, porém, conhecimento da história da nossa imprensa, denenhum outro artista que tenha influenciado, com seu trabalho, o comportamento de todauma geração (talvez só o Pasquim, com seu conjunto de colaboradores, tenha conseguidoisto, alguns anos mais tarde) (...).” 162 Millôr Fernandes, além de ter contribuído com os textos da coluna, auxiliou na arte-final das “Garotas”: “Eu achava Alceu um gênio, acompanhando seu desenho no O Cruzeiro e também no O Jornal (...) Trabalhamos anos dia a dia lado a lado (...) Foi aí que, cheio de medo, comecei a passar algumas horas, duas ou três vezes por semana, enchendo o fundo de seus desenhos. Não foi muito tempo, mas foi tempo de encantamento e medo. Você não sabe o pavor que eu tinha de errar tudo, inapelavelmente.” 163 Se O Cruzeiro foi importante na carreira de Alceu Penna, a recíproca é ainda maisverdadeira. Ele ilustrou a tradicional coluna “As Garotas do Alceu”, uma das principaisatrações da revista, assim como contos, até o final da década de 1930, em quase todas asedições, como “O Casal Solteiro”, em 23 de agosto de 1947, de Mayse Greig. Além disso,Alceu Penna ilustrou colunas, como “Spot Light”, assinada por Crock e produziu tanto otexto como a ilustração de sugestões de beleza como na reportagem “Cabelos mais curtos”,em 04 de outubro de 1941: “Cabelos curtos! Foi o grito que a revista norte-americanaVogue lançou, no princípio da estação, para revolucionar o mercado de penteados.” Na161 NETTO. Accioly. Op cit, p.125.162 Apresentação do catálogo da exposição “Garotas do Alceu”, realizada em julho de 1983, no Palácio dasArtes.163 MILLÔR. Fernandes. Apresentações. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.31. 78
  • 79. década de 1960, Alceu Penna também assinou reportagens, com boas fotografias, sobre como fazer enfeites de Natal. No setor de moda da revista, o ilustrador se tornou uma referência. A coluna “Garotas” já o tinha tornado conhecido, aproximando-o do universo feminino e, além disso, havia acumulado no seu currículo muitas viagens como correspondente de O Nos anos 1950, sobretudo, os editoriais fotografados Cruzeiro para Europa e EUA, cobrindo acompanhados de textos do ilustrador eram freqüentes. Fig. 30 a. Reportagem sobre os lançamentos da Maison de os principais desfiles. Christian Dior, de Alceu Penna, para O Cruzeiro. 28 de agosto de 1957. Alceu Penna assinava, Fig. 30 b. Reportagem sobre a coleção de Lanvin Castillo, inspirada no Japão, de Alceu Penna, para O Cruzeiro. 03 de agosto de 1957. regulamente, a seção de moda“Portifólio Modas”, a partir da década de 1940. Nela eram propostos modelos variados,para diversas ocasiões, desde vestidos de noite a trajes para o dia-a-dia. Em editoriais ilustrados, divididos por temas diversos (estampados, moda praia,baile, etc...), ele sugeria usos e cores apropriadas para o país, algo, na época, pouco usual.No editorial “Lar”, em 28 de setembro de 1946, Alceu Penna dava dicas para modelosinformais, mais adequados ao espaço doméstico: “Bergdorf criou e Alceu desenhou os trêsmodelos que estampamos em nossa página. São três maravilhosas sugestões, não apenasquanto ao estilo, mas também quanto à combinação das cores.” 164164 Seção modas. “O Lar”. In: O CRUZEIRO. 28 de setembro de 1946, p.67. 79
  • 80. Além dessa seção, havia as reportagens de moda com fotografias de ótimaqualidade e em cores. Alceu Penna trazia aos leitores um texto comentando as novidades ecoleções de moda, como a pertinência para a adoção de certas linhas. Nomes comoBalenciaga, Castillo, Dior eram freqüentes: “Longe, porém, de parecerem costumestípicos, os vestidos de Lanvin Castilho são ultraparisienses, incluindo, apenas esta sugestãooriental para dar uma graça especial.” 165 É importante salientar que as fotografias eramnormalmente assinadas, mas não se tem registro se provinham de O Cruzeiro ou doexterior. O Cruzeiro, em muitos aspectos, tinha uma dose de nacionalização, seja nosconteúdos, nas fotografias ou ilustrações, mesmo com a pirataria de fotos e textos vindosdo exterior. As reportagens sobre o Brasil eram freqüentes, contando com uma coberturafotográfica extensa, noticiando diversos locais e fatos nacionais, muitas vezes, explorandoregiões distantes da, até então, capital do país. “É, contudo, O Cruzeiro, que permanececomo o melhor representante desta tendência, a que se juntam duas particularidades: ojornalismo de aventura e a redescoberta do Brasil.” 166 O Nordeste recebeu atenção na reportagem “Garotas do Ceará,” que noticiava asbeldades do estado, em poses glamourosas e figurino impecável, evidenciando para todo opaís que não só as cariocas eram belas e chiques 167 . Em outra, o estado de São Paulo éressaltado em “Inverno no Guarujá”, destacando as belezas da Praia do Guarujá, colocandoque, mesmo no inverno, esse litoral era movimentado, repleto de rapazes e moçasconfraternizando. 168165 Reportagem “Castillo inspirou-se no Japão”. In: O CRUZEIRO. 3 de agosto de 1957. Sem paginação.166 HONS, André de Seguin dês. Op cit, p. 29167 Reportagem “Garotas do Ceará”. In: O CRUZEIRO. 4 de dezembro de 1948, p. 100-103.168 Reportagem “Inverno no Guarujá”. In: O CRUZEIRO. 27 de maio de 1944, p. 36-37. 80
  • 81. A partir de 1943, entram para o time da revista dois nomes que inaugurariam uma nova forma de fazer jornalismo - David Nasser e Jean Manzon: “Esse novo método de abordagem jornalística, em que a fotografia tem papel essencial, nasceu com as revistas ilustradas alemãs e francesas, entre o final dos anos 20 e o começo dos anos 30, e consolidou-se com o lançamento da revista americana Life, em novembro de 1936.” 169 Jean Manzon vinha de uma carreira na O modelo de nacionalidade propagado por O revista francesa Paris Match e espantou-se Cruzeiro estava atrelado ao Rio de Janeiro. Fig 31 a. Reportagem sobre o concurso Miss Brasil com a precariedade dos recursos gráficos de 1957, em que Teresinha Morango era a vencedora. O Cruzeiro. 06 de setembro de 1957. O Cruzeiro. O francês sugeriu a implantação Fig 31 b. Reportagem sobre as belezas de Copacabana. O Cruzeiro. 29 de maio de 1943. da dobradinha, repórter-fotógrafo, muitocomum em revistas estrangeiras. O par perfeito era David Nasser e, assim, todas asreportagens começaram a ser assinadas pela dupla. Essa parceria duraria 15 anos na revista: “Semanas depois, Manzon está amarrado a uma espécie de gaiola improvisada, do lado de fora da fuselagem de um Fockwulfe 160 da FAB que voa a 180 km/h sobre a Serra do Roncador (...) a reportagem “Enfrentando os Chavantes” (assim mesmo com ch e não com o correto x) ganhou 18 páginas inteiras de O Cruzeiro, com fatos jamais vistas de selvagens atacando a flechadas e golpes de bordura, a poucos metros de distância, um avião.” 170169 CARVALHO, Luiz Maklouf. Op cit, p. 63.170 MORAIS, Fernando. Op cit, p. 419. 81
  • 82. As reportagens eram quase sempre sensacionalistas e vinham em séries: “Se o modelo da fotorreportagem introduziu uma nova noção de tempo por meio de um modo específico de edição de imagens, as seqüências de fotorreportagens sobre um mesmo tema expandem ainda mais essa temporalidade, incorporando um atributo característico de certos tipos de ficção que é a construção em capítulos. Como estratégia comercial estimulava o consumo da revista e induzia o público a colecioná-la.” 171 O texto de Nasser era estrondoso e apocalíptico. O que não sabia, ele inventava,dando um ar de legitimidade à notícia. As fotos de Manzon auxiliavam o texto de Nasser,fazendo-o crescer: “Enquadramento perfeito, ângulos novos, closes de arrepiar, caras ebocas que pareciam em movimento, um estilo completamente novo se comparado ao dasfotos da imprensa brasileira incluindo O Cruzeiro.” 172 Já no início da década de 1960, a revista começa a ter prejuízos consideráveis. “Sóa revista O Cruzeiro acumulava a cada ano um prejuízo de 340 milhões de cruzeiros (200mil dólares da época, cerca de 820 mil dólares de 1994).” 173 Muitas estrelas da casa foram saindo, como Manzon, que se fixou na concorrenteManchete. A falta de recursos culminou com a descredibilidade de matérias pagas eanúncios excessivos: “Um dos problemas que levam ao seu fim é a decisão de exceder opercentual de anúncios, chegando a 70% do total das páginas. Ao mesmo tempo asmatérias pagas se tornaram quase uma regra (...).” 174 A publicação encerra as atividades em 1975. Em uma nova tentativa de reerguer ahistórica revista, ela é transferida para Hélio de Bianco. A revista sobrevive até 1980 e,com ela, encerra-se um importante capítulo na história da imprensa e do Brasil.171 COSTA, Helouise. Diacuí: a fotorreportagem como projeto etnocida. São Paulo, p.2. Disponível em:http://www.studium.iar.unicamp.br/17/diacui/diacui.pdf. Acessado em 17 de outubro de 2006.172 CARVALHO, Luiz Maklouf. Op cit, p. 64.173 MORAIS, Fernando. Op cit. P. 676.174 JUNIOR, Gonçalo. Op cit, p. 136. 82
  • 83. 2.3 A coluna “As Garotas do Alceu” Em 19 de novembro de 1938 surgia a coluna “As Garotas do Alceu” na revista OCruzeiro. As “Garotas” foram anunciadas pela revista como “endiabradas e irrequietas” eum ícone de uma revista que acompanhava a vida moderna. O título da coluna inauguralera “Garotas da Praia”: “Olha, depois vá dizer que não sou econômica. Fiz um belo maillot e mais este lenço para a cabeça com meio metro de seda!” Curiosamente, até a década de 1960, sobretudo, a coluna permanecerá na seção de humor da publicação, para posteriormente aderir a uma seção particular, destinada aos jovens.A primeira edição de “As Garotas” não poderia ter como fundo outro lugarsenão as praias, ponto de encontro, cada vez mais freqüente dos cariocas. A coluna eraFig 32. Coluna “As Garotas do Alceu” inaugural, em 19 de novembro de1938. composta por textos eilustrações 175 , sendo a relação entre eles próxima: um enriquece e complementa a “leitura”do outro. As imagens nos mostram “Garotas” belas e ousadas, com diálogos à sua altura:picantes e atrevidos. Os textos são escritos em tom humorístico e crítico. Às vezes vêm emversos, com rima, outras, apenas em diálogo. Normalmente, a coluna tinha textosintrodutórios, que contextualizam as situações apresentadas pelas “Garotas”. Os textos da coluna podem ser divididos entre as contribuições dos seus redatores.É importante ressaltar que, durante a minha pesquisa, notei que elas são, muitas vezes,175 A relação entre ilustração e texto será abordada no capítulo 4. 83
  • 84. irregulares, alternando, em um mesmo período, participações de redatores diferentes. Osperíodos mais homogêneos quanto às colaborações são dos redatores Edgar Alencar (A.Ladino) e Maria Luiza. Segundo Thereza Penna, as ilustrações eram criadas primeiro que os textos. Eracomum Alceu Penna deixar várias prontas, para depois serem legendadas quando precisavaviajar. (Informação oral novembro de 2006.) Na coluna, que começa em 1938 e acaba por volta do começo de 1941, AlceuPenna divide as participações com Accioly Netto (Lyto). É interessante notar, porém, que apartir do final de 1939, quando Alceu Penna viaja para os EUA, os textos serão todos dele.Em 28 de agosto de 1943 Alceu Penna assinava “Na terra onde mandavam as Garotas”:“Segura só aqui nestes músculos florzinha. Veja como é forte tua mulher.” Lyto assina“Garotas Yatching” em 21 de Janeiro de 1939: “Eu francamente gosto mais de passear deautomóvel, ao luar, porque quando a gasolina acaba, volto para casa de patins.” A participação de Millôr Fernandes é composta por dois momentos, a que ele assinaapenas Millôr, do final de 1942 até o início de 1944, e a assinada por Vão Gôgo, que vaiaté o final de 1946. Nas duas fases ele divide as participações com Alceu Penna. Vão Gôgoassina “Garotas Vamps” em 27 de janeiro de 1945: “Um copo de vinho, teu corpo em flor,as rosas mais belas do mercado de Omar, eis meu sonho Garota. O teu, porém, não será omesmo. E infelizmente eu sou pobre, pobre, pobre de marré de si.” A contribuição de Edgar Alencar (A. Ladino) começa no final de 1946, logo apósMillôr Fernandes, e começa a desaparecer no final de 1957. A. Ladino assina “Tática dasGarotas” em 13 de maio de 1950: “Se o Carlos banca o matreiro, bato o pé, sacudo o dedo,e o pobre fica com medo e amansa que nem um cordeiro.” 84
  • 85. A seguir começam a aparecer textos de Maria Luiza Castello Branco. Essa fase, especialmente, será marcada por um tom mais conservador, diferente dos textos anteriores. Nesse período, Amélia Whitaker, a Dona Lili, mulher de Leão Gondim, diretor de O Cruzeiro, estava na presidência da publicação. Ela interferiu em várias seções, inclusive nas “As Garotas”, pela pouca idade, se davam ao luxo de se preocuparem com viagens, rapazes, roupas e o ócio. Curtir a vida “Garotas”, como assinalou era uma expressão de ordem da coluna. Accioly Netto: “Mas por Fig 33 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: Malas e Garotas. Texto sem referência. 23 de novembro de 1940. interferência de Dona Lili, elaspassaram a serem feitas pela inexperiente Lia Castello Branco. E as Garotas passaram afalar coisas chatas, sempre em tom de conselho.” 176 Existiram outras contribuições de redatores, que vão aparecer mais em 1944 e 1946.O irmão de Alceu Penna, Aloysio, será um deles assinando “Pensamentos das Garotas” em26 de fevereiro de 1944: “As mulheres devem levar, e não serem levadas.” Houve outros,como João Velho 177 em “A batucada das Garotas”, assinando legendas em 12 de fevereirode 1944: “Cada vez que você decota um pouco mais o vestido, vem com esta história de176 NETTO, Accioly. Op cit, p. 82.177 Não há registros de quem seja João Velho. Possivelmente é um pseudônimo de um redator que colaboroude forma ocasional na coluna. 85
  • 86. Hawai...” Milton Brandão 178 será mais um exemplo em “Garotas e o horóscopo do mês”,em 10 de janeiro de 1942: “Se ele nasceu sob aquarius pode ser um bom partido... mas,parece um ‘salafrarius’ com pinta de ‘distinguido’.” É interessante que os redatores enfocados neste trabalho produzissem textos maisinteressantes para o público feminino do que a única mulher, de que se tem registro, quecontribuiu como redatora na coluna. Mesmo não pertencendo ao universo das mulheres,esses redatores compartilhavam de um modo de escrever diferenciado (a escrita feminina),que dialogava com as mulheres e cativava até mesmo os homens, como já explorado: “De uma maneira fundamental, pode-se dizer que (...) a escrita feminina não ser exatamente a escrita das mulheres, mas estar sempre relacionada à mulher, seja pelo grande número de mulheres que escrevem nessa dicção, seja pela evidência com que esse discurso se manifesta no texto das mulheres, ou ainda pela mulheridade que está implicada na escrita feminina, mesmo quando é praticada por homens (há sempre aí, nesse tipo de discurso, uma certa voz de mulher, um certo olhar de mulher.” 179 A escrita feminina pode ser identificada na coluna pela impressionante sonoridade,expressada através das rimas, que provocam um ritmo de leitura diferenciado, sensível, emque a palavra em si é um componente extra do texto: “(...) mais que a história que se vaicontar, mais que o enredo que se desenvolve, importam o som das palavras, a textura devoz, os contornos do ritmo, os movimentos respiratórios do texto (...).” 180 Paralelamente aos textos particulares, a coluna era caracteristicamente temática,com títulos definidos, apresentando, semanalmente, uma diversidade de assuntos como “OBanho das garotas”, em 31 de janeiro de 1942, “Garotas e meditação”, em 28 de julho de1956, e “Garotas em exame”, em 22 de novembro de 1952. Não havia personagens178 Não há registros de quem seja. Possivelmente é um pseudônimo de um redator que colaborou de formaocasional na coluna.179 BRANCO, Lúcia Castello. O que é a escrita feminina? São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 20.180 BRANCO, Lúcia Castello. Op cit, p. 22. 86
  • 87. definidos, ora apresentando os seus nomes e muitas vezes não. A coluna compunha umadiversidade de “Garotas”: cabelos loiros, morenos, ruivos, curtos, longos, presos, soltos.“Garotas, qual o seu tipo”, em 29 de agosto de 1942, mostrava a variedade de tipos, entreos quais destaco a morena: “Descendentes de várias que vampirizaram o mundo, desde oepisódio da maçã. Nasceu em juiz de Fora, Belém ou Caxias. Temperamental e imitaHeddy Lammar.” As cores das ilustrações 181 era um outro ponto marcante e diferencial.Curiosamente Alceu Penna era daltônico. Thereza Penna conta que tinha que colocarlegendas nas tintas do irmão para ele não se confundir. (Informação oral extraída em junhode 2006.) Durante toda a sua carreira, as cores vivas empregadas em suas criações vãoqualificá-lo como um grande colorista. É interessante perceber que, no momento inicial da coluna, o desenho de AlceuPenna é diferenciado, se comparado aos anos seguintes, especialmente a partir do início dadécada de 1940, período em que ele vai pela primeira vez aos EUA. As ilustrações das“Garotas” têm olhos pequenos, muitas vezes representados por traços, que se assemelhama um asterisco. Analisando o conjunto de sua obra, percebe-se que essa é umacaracterística que se repete em outros trabalhos na época, como nas ilustrações parafigurinos de cassinos e ilustrações diversas feitas na própria revista O Cruzeiro. A partir dadécada de 1940, o desenho de Alceu Penna vai se modificando. O rosto das ilustrações das“Garotas” torna-se mais detalhado, os olhos ganham ênfase e contornos maiores, assimcomo a boca fica mais evidente.181 As cores na coluna serão tratadas, com mais precisão, no capítulo 4, como parte da análise das imagensdas “Garotas”. 87
  • 88. A coluna surgiu de um pedido de Accioly Netto a Alceu Penna, para criar as primeiras pin-ups brasileiras 182 . As ilustrações foram inspiradas nas “Gibson Girls”, de Charles Dana Gibson, um norte- americano de Roxbury, Massachusetts. Seus desenhos fizeram história no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Gibson começou seu trabalho na Life Magazine, mas chegou a contribuir com outras revistas, como a Bazzar e Weekly. Com a criação das Gibson Girls, teve seu nome alçado ao estrelato: “Existia um merchandising das Gibson Girls (....). Livros grandes, ‘álbuns de mesa’, como eram chamados, pratos de porcelana, cinzeiros, roupas, capas de travesseiro, capas de cadeiras, colheres de As Gibson Girls inspiraram a coluna “Garotas” e tinham em comum a lembrança, telas, leques, sombrinhas, todos maneira diferenciada, mais ousada de retratar a mulher. estampavam as criações de Gibson.” 183 Fig 34 a. Camille Clifford, atriz, conhecida por ser uma Gibson Girl. 1905. Fig 34 b. Ilustração Gibson Girl. 1909182 As Gibson Girls podem ser consideradas os primeiros exemplares famosos de pin ups. Alberto Vargas(1896 - 1982) e George Petty (1894 -1975) tornaram-se, mais tarde, expoentes do gênero. As pin upsestamparam pôsteres e calendários, tornando-se populares, entre os soldados americanos, durante a SegundaGuerra Mundial. Betty Grable ficou famosa nas estampas desses pôsteres, assim como Josephine Backer,Lauren Bacall, Marilyn Monroe, Kim Novak, entre outras.183 Artigo “Charles Dana Gibsons elegant drawings captured the spirit of an age”, p. 4. Disponível emhttp://www.gibson-girls.com 88
  • 89. Elas se tornaram um ideal de beleza vigente na época: “Na virada do século XX, existia uma variedade de indústrias de músicas, poemas, livros e ilustrações populares que exaltavam a beleza, a virtude e a vitalidade da garota americana. Desenhos de Gibson, Howard Chandler Christy and Harrison Fisher (...) todos contribuíram para fazer da garota adolescente um ícone do excepcionalismo e progresso material americano.” 184 As figuras representavam mulheres jovens e ativas: “As Gibson Girls deram um novo enfoque no vestir e na moda. Suas roupas poderiam ser reproduzidas de forma simples e fácil. Elas refletiam uma condição prática da mulher. A proliferação das roupas no estilo Gibson Girl apontava para uma mulher trabalhadora, tornando esse estilo disponível nas lojas de departamento, pelos catálogos, refletindo mudanças na indústria da moda.” 185 Normalmente elas eram ilustradas com roupas impecáveis, na última moda, comcabelos penteados amarrados no topo da cabeça, bem volumosos, usando enormes chapéus.A silhueta era curvilínea, com uma cintura marcada e os traços finos e delicados. Algumas semelhanças são notáveis entre as Gibson Girls e a coluna “As Garotas doAlceu”. Além, claro, de representarem mulheres que ousavam em moda e comportamento,os dois exemplares mostravam situações específicas. As Gibsons Girls eram retratadastomando um chá da tarde e “As Garotas” passeando em Copacabana, por exemplo. Havialegendas acompanhando as figuras de Gibson como “A debutante” e “O dia dos sonhos”,ambos de 1909, assim como nas “Garotas”. Em 1900, “Em qualquer lugar na costa sul”,184 BRUMBERG, Joan Jacobs. The Body Project: an intimate history of american girls. New York, 1997, p.21.185 CRAICK, Jennifer. The face of fashion: cultural studies in fashion: Londres: Routledge, 1997, p. 74. 89
  • 90. mostrava-se um grupo de garotas sentadas na praia conversando, com vestidos leves e elegantes, apropriados para a ocasião. Comumente, mulheres proeminentes, como a atriz Camille Clifford, que se encaixavam no padrão de beleza das ilustrações de Gibson, eram chamadas de Gibson Girls: “O artista ajuda tanto a popularizar a pin- up que até as próprias americanas que se encaixam no seu estilo de sensualidade passam a ser chamadas de ‘Gibson Girls’.” 186 Era comum Alceu Penna fazer croquis de vestidos para as mulheres da alta sociedade, o que levava muitas delas a serem chamadas de “Garotas do Alceu”. Esse aspecto foi Assim como as Gibson Girls, as “Garotas” tiveram representantes no mundo real. Damas da sociedade carioca frequentemente eram apontadas como um exemplo de uma evidenciado pelos desfiles “Garota”. Fig 35 a. Reportagem Garotas do Alceu, em O Cruzeiro beneficentes, chamados “Providência Desfile “Charme”, para o evento beneficente Providência dos Desamparados. 30 de outubro de 1948. dos Desamparados”, no Copacabana Fig. 35 b. Foto desfile Providência dos Desamparados com as damas da sociedade vestidas de Alceu Penna. 1948 Palace:186 JUNIOR, Gonçalo. Op cit, p.56. 90
  • 91. “E hoje apresentamos novamente aos leitores as famosas “Garotas do Alceu”, mas agora em carne e osso. (...) As garotas todas pertencentes à alta sociedade carioca, estavam ‘belas e delicadas quais borboletas da primavera’, como diriam nossos eufóricos cronistas sociais.” 187 Segundo Thereza Penna, Anna Marina, editora do Caderno Feminino do jornalEstado de Minas, foi considerada uma representante das “Garotas” em Minas Gerais. Aeditora relembra a importância dessas figurinhas: “As Garotas do Alceu representavam, principalmente para as garotas dos anos 50, modelo de comportamento, de estilo. Copiava-se tudo delas: o penteado, a roupa, o savoir vivre. Numa época em que a televisão era um sonho, as notícias e fotos do outro lado do mundo levavam dias para chegar até aqui. Alceu Penna recebia as informações do que estava em moda lá fora, processava as tendências e, pioneiro, criava com seus desenhos um estilo brasileiro. Com isso, influenciou toda uma geração. Autênticas, as Garotas não passaram, continuam na moda até hoje.” 188 A beleza das “Garotas”, entretanto, se diferencia tanto das pin-ups quanto dasGibson Girls, especificamente, pois, geralmente, não é passiva e serve a um objetivomaior: o delas mesmas. As ilustrações mostram meninas que usam a beleza e as armas de sedução paraconseguir mimos, namorar quantos rapazes fossem possíveis, enfim, conseguirem o quequerem e fazer o que bem entendem. Elas não estão acostumadas a serem contrariadas:“Nada mais justo do que respeitarmos os enfados dessas criaturinhas, que são anjos decandura quando não são contrariadas.” 189 A conquista, para as “Garotas”, não é passiva. Abeleza é fatal e elas “atacam” sem piedade suas “presas”: “Esta é uma página dedicada a187 Reportagem “Garotas do Alceu” sobre o desfile “Charme”. Providência dos Desamparados. In: OCRUZEIRO. 30 de outubro 1948, p. 86-89.188 MARINA, Anna. Texto manuscrito. Belo Horizonte, 2006.(mimeo). 9 de novembro de 2006.189 “As Garotas do Alceu”. “Não contrarie as Garotas”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 10 de dezembrode 1955, p.78-79. 91
  • 92. belas, feras, a feras belas e a belas ferinas. São todas perigosas, todas traiçoeiras. Tenham cuidado, portanto, quando avistarem alguma delas.” 190 É interessante perceber que a coluna foi além da sua designação. Ela aproximou-se do gênero da crônica, pois apresentava fatos do cotidiano dessas meninas, situações, muitas vezes, íntimas e mundanas. A crônica conterá algumas particularidades que vão ao encontro da coluna: “Focaliza, via de regra, um tema restrito, em As ilustrações de Alceu Penna não economizavam na fofoca, mas elas podiam! Até aula de moda para as suas fiéis leitoras elas davam. prosa amena, quase coloquial (...) Fig. 36.a Coluna “As Garotas do Alceu”: Cuidado! Garotas. graças a isso, estabelece-se uma Texto Alceu Penna. 08 de novembro de 1941. Fig. 36 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas dão aula atmosfera de intimidade entre leitor e de moda. Texto Maria Luiza. 25 de outubro de 1958. cronista, que refere experiências pessoais ou expende juízos originaisacerca dos fatos versados.” 191 Os textos das “Garotas” tinham um tom coloquial, como seelas estivessem conversando intimamente entre si e com o leitor: “O Júlio pensa, quetonto! Que eu não estou observando, mas ele que vá pensando que a ‘mamãe’ dorme noponto!” 192 Situações do cotidiano eram a essência dos assuntos abordados, por exemplo,190 “As Garotas do Alceu”. “As Garotas e as feras”. Texto Alceu Penna. In: O CRUZEIRO. 15 de maio de1943, p.40-41.191 PAES, José Paulo; MASSAUD. Moisés. Pequeno dicionário de literatura brasileira. São Paulo, p.82.192 “As Garotas do Alceu”. “Garotas manjando”. In: O CRUZEIRO. 25 de agosto de 1956, p.58-59. 92
  • 93. quando as meninas enfrentavam os temidos exames: “Ao professor Ludgero de agradartanto me esforço, que ele teria remorso se me sapecar um zero.” 193 A coluna alcançou uma grande popularidade durante os anos de sua veiculação.“As Garotas do Alceu” chegaram a ser programa na Rede Tupi, uma emissora dosAssociados, em 1941: “Viraram até programa de TV no começo da TV Tupi,protagonizadas por Lourdinha Bittencourt, Salomé Coteli, Nilsa Magrassi e SolangeFrança, sob a direção de Paulo Gracindo e patrocinado pelo Jóquei Club Brasileiro.” 194 Durante a minha pesquisa ao acervo de O Cruzeiro, deparei-me com ediçõessingulares da coluna pelos temas abordados. “Das Garotas para as garotas”, em 29 desetembro de 1942, mostrava Alceu Penna respondendo a questões de suas leitoras,carinhosamente referidas por ele, também, como suas “Garotas”. Não se sabe se foram,realmente, perguntas de leitoras ou se foram inventadas. Uma leitora, do Rio de Janeiro,indagava sobre a atitude indiferente de seu namorado e eis o que elas responderam: “Nãose preocupe com isso! Vá usando a maior quantidade de ‘visgo’ que puder. Em qualquercaso, porém, lembre-se do provérbio: ‘Não corra atrás de um bonde, nem de um homem.Há de passar outro depois’.” Se verdadeiras, as perguntas refletiam a grande referência queessas figuras representavam para as mulheres da época, a ponto de recorrerem ao seucriador para conselhos íntimos. Um outro exemplar curioso da coluna foi “Garotas e as Garotas de O Cruzeiro”, em11 de agosto de 1956, que mostrava a opinião das “Garotas” (ilustrações) sobre a forma emque eram retratadas em O Cruzeiro: “Apesar dos comentários, às vezes muito ordinários,aqui não temos rivais. E sempre somos bonitas, mas verdades sejam ditas, mas na vida nóssomos mais.” Essa abordagem aponta para uma figura feminina menos passiva em relação193 “As Garotas do Alceu”. “Exame das Garotas”. In: O CRUZEIRO. 22 de novembro de 1958. Sempaginação.194 NETTO, Accioly. Op cit, p. 125. 93
  • 94. à sua representação, no caso pelos redatores da coluna, especialmente, em se tratando, eles,de figuras masculinas, sobretudo. Uma edição especial, “Garotas na Berlinda”, em 15 de abril de 1944, mostravaprofissionais importantes dentro da revista manifestando suas opiniões sobre as figuras deAlceu Penna. É aparente pelos versos da edição que todos da redação já tinham sidoseduzidos pelas “Garotas”. Eis o que Millôr dizia: “Ó jovem garota bela, ó bela, jovempequena, vossas curvas tentadoras é que vos colocam em cena.” David Nasser já dizia deoutra maneira: “Garotas da minha vida, amores do meu amor... Onde estais, sonhosperdidos, saudade, sonho sem cor...” A coluna “Garotas” refletiu, também, momentos pelos quais o país estava passando, como quando o Brasil entra na Segunda Grande Guerra, em 1942. “Garotas a postos”, em 17 de outubro de 1942, chamava a Edições singulares convocando suas leitoras a participar no esforço de guerra eram apresentadas com muito charme e poucos atenção para o período de sabiam resistir os seus apelos. sacrifícios, em como cada leitora Fig 37 Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas à postos. Texto sem referência. 17 de outubro de 1942. poderia ser útil ao país: “Se, porém, se julga com aptidõesdiferentes poderá ingressar ao Corpo de Saúde e Pronto-Socorro, além de tratar dos feridosem caso de ataque aéreo.” É interessante que, apesar desse exemplar, o racionamento frutodo conflito não será amplamente explorado nas páginas da coluna. “As Garotas” protagonizaram calendários também, exibidos no último número domês de dezembro, sendo muito aguardados. Uma “Garota” a cada mês era apresentada, 94
  • 95. com motivos típicos referentes. No mês de dezembro, por exemplo, os motivos eram natalinos, no mês de abril, os motivos eram relacionados à Páscoa, e assim por diante. O tom das ilustrações era sensual, já que as figuras apareciam com pouca roupa, com decotes, mostrando uma boa extensão dos seus corpos, lembrando os calendários de pin- ups. A revista O Cruzeiro noticiou os bastidores da criação do calendário: “Alceu Penna, em seu atelier, desenhando algumas páginas do ‘Calendário das Garotas’, servindo de modelo, a bailarina Irene Hozlo, uma das mais famosas belezas dos palcos cariocas, cuja plástica perfeita muito auxiliou o artista naOs calendários das “Garotas” tendiam a ser um pouco concepção de seus desenhos.” 195mais maliciosos. O corpo ficava mais à mostralembrando bastante as pin-ups.Fig. 38 a. Reportagem Calendário Garotas, em OCruzeiro, sobre os bastidores da produção do Na verdade, segundo Thereza Penna,calendário. 06 de dezembro de 1952.Fig. 38 b. Calendário Garotas. Sem data. seu irmão costumava trabalhar em casa e não possuía um ateliê (informação oral junho2006), fatos que levam a crer que a situação foi criada para a reportagem. Como a matériaacima descrita evidenciou, é provável que Alceu Penna tenha se inspirado em belasmulheres de sua época para desenhar suas “Garotas”. Mesmo assim, não se tem umregistro que ele tinha uma mulher, em especial, como modelo. A coluna sobreviveu até 1964 na revista O Cruzeiro. As “Garotas” inspiraram,durante 28 anos, moças e rapazes do Brasil e deixaram recordações. Talvez elas tivessem195 Reportagem “Calendário das Garotas”. In: O CRUZEIRO. 6 de dezembro de 1952, sem paginação. 95
  • 96. alcançado tamanha popularidade porque, mesmo não sendo figuras estranhas a suasleitoras, elas conseguiam estar um pouco à frente delas. “N´O Cruzeiro, ao contrário dafotografia cuja função era resgatar o presente passando, pode-se dizer que a ilustração iaonde a fotografia não conseguia: ao passado distante – e idílico – e ao futuro, sempreapresentado como se avizinhando.” 196196 URSINI, Leslye Bombonatto.Op cit, p. 50. 96
  • 97. 3. O CORPO E A MODA DAS “GAROTAS DO ALCEU”: UM ESPELHO DOAMANHÃ3.1 A moda e o corpo das “Garotas”: um reflexo de transformações A moda e o corpo atuam como um espelho de uma época e revelam um imaginárioespecífico, estabelecendo uma comunicação com o mundo em que estão inseridos. Acultura, os costumes, as regras de conduta social, o modo de pensar e agir de umasociedade podem ser revelados, por meio das roupas e da maneira com que o corpo érevelado ou escondido: “(...) as mudanças da moda ligam-se a transformações mais vastase completas, do modo de ser, sentir e pensar de uma sociedade (...)” 197 . Visto como canal de comunicação, o corpo relaciona-se com a cultura presente eseus acontecimentos, absorvendo suas características, através de uma trocacomunicacional: “Os índios Cadúveos, no passado tribal de comunicação oral, concebiam 198que um corpo sem pintura é um corpo mudo” . Assim, através dele podemos entender acultura de uma sociedade. Segundo Célia Maria Antonacci Ramos: “Com esses gestos, oshomens registram a conquista do corpo como lugar na cultura” 199 . O corpo e a moda possuem territórios de múltiplos significados: “O corpo é aomesmo tempo a coisa mais sólida, mais elusiva, ilusória, concreta, metafórica, semprepresente e distante: um sítio, um instrumento, um entorno, uma singularidade e umamultiplicidade”. 200197 SOUZA. Gilda de Melo e. O espírito das roupas: a moda no século dezenove. São Paulo: Cia das Letras1987, p. 23.198 RAMOS. Célia Maria Antonacci. Tatuagem e Globalização: uma incorporação dialógica em tempos deglobalização. In: Corpo Território da Cultura.(Org) BUENO, Maria Lúcia. CASTRO, Ana Lúcia. São Paulo:Annablume, 2005, p. 98199 RAMOS. Célia Maria Antonacci. Op cit. p. 91200 TURNER. Bryan. S. El Cuerpo y la sociedad: exploraciones em teoria social. México: Fondo de CulturaEconômica. 1989, p. 33 97
  • 98. Através dos gestos e expressões corporais uma rede de significação não-verbal éposta em evidência: “O corpo age, põe em ação o gesto, por intermédio da mobilidade, queamplia significadamente o potencial de significação da linguagem corporal” 201 . O corpo possui em si uma capacidade de troca de informações com o ambiente que,não necessariamente, precisa da moda para concretizar. Entretanto, obstante essaindependência comunicacional, tanto o corpo quanto a moda estão intimamenteconectados. A moda adquire expressão através do corpo e vice-versa. Estão ligados e emconstante interação, pois a moda projeta-se no corpo e esse na moda, funcionando como“parceiros”: “A Antropologia é rica em estudos que demonstram ser o corpo um espaço deconstrução de significados simbólicos, deixando como legado a idéia de que o uso que delefazemos, somado ao vestuário, aos ornamentos e pinturas corporais, compõem um universono qual inscrevem-se valores e comportamentos”. 202 O corpo e a moda das “Garotas do Alceu” pensados como canais de comunicação,evidenciam, em parte, a realidade vivenciada pelas moças contemporâneas à coluna, queviviam sob o comando de uma sociedade patriarcal. Mesmo refletindo o universo dasleitoras de O Cruzeiro, a coluna, ao mesmo tempo em que se aproxima dessa realidade,parece dar pistas de certos avanços em direção a uma situação menos conservadora para amulher. Mesmo assim, elas representaram um papel importante no imaginário feminino nosentido de se tornarem um modelo: “A descrição do indivíduo é a descrição de seuambiente social. Ou seja, o discurso, tanto quanto a roupa ou o próprio indivíduo, traduzsempre um ato de remissão a uma determinada concepção de ordem social, e é sempre a201 LURIE, Alison A linguagem das roupas. Rio de janeiro, 1997, p. 71202 BUENO, Maria Lúcia. CASTRO, Ana Lúcia. Corpo Território da Cultura. Citação da introdução. Op. cit,p. 10 98
  • 99. ela que se faz referência, é sempre ela que orienta não apenas a forma de pensar o mundo,mas também a forma de pensar a si próprio dentro desse mundo”. 203 No período em que a coluna surgiu o Estado Novo tentava conformar o país em ummodelo específico voltado ao progresso. Esse direcionamento exigiu um controle geral sobas massas e, especialmente, de seus corpos, que ocuparam posição de destaque nessapolítica: “O domínio, a consciência de seu corpo só puderam ser adquiridos pelo efeito doinvestimento no corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento muscular,a nudez, a exaltação do belo corpo (...)”. 204 A prática de esportes que, desde os anos 1920 se tornava mais freqüente, toma lugarcentral no governo de Getúlio Vargas: “Muitas pedagogias participam desse movimento,mas a disciplina das massas passa necessariamente pela do corpo. (...) O esporte define asnormas de saúde e beleza, instaura competição e auto-realização, desenha temporalidaderacional, autônoma e exemplar, simplifica e unifica”. 205 O presidente regulamentou o seu ensino em todo território nacional no início dadécada de 1930: “A 18 de abril de 1931, o ensino secundário sofre reforma, sendoestabelecida a obrigatoriedade dos exercícios de educação física para todas as classes (...).Todos os programas são precedidos de uma orientação metodológica e a que diz respeito àeducação física específica, a finalidade será ‘proporcionar aos alunos o desenvolvimentoharmonioso do corpo e do espírito, concorrendo, assim para formar o homem de ação físicae moralmente sadio, alegre e resoluto, cônscio do seu valor e responsabilidade”. 206203 BERGAMO, Alexandre. Elegância e atitude: diferenças sociais e de gênero no mundo da moda. In:Cadernos Pagu, Campinas, n. 22, 2004, p.88204 FOUCAULT. Michel. A Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2004, p.146205 SCHUPUN. Mônica Raisa. Beleza em jogo: cultura física e comportamento em São Paulo nos anos 1920.São Paulo: Senac, 1999, p.12206 ACCIOLY. Aluízio Ramos. MARINHO. Inezil Penna. História e organização da Educação Física e dosDesportos. Rio de Janeiro: Batista de Souza, 1956, p.174 99
  • 100. Nesse período e, também, posteriormente, “As Garotas” foram ilustradas em situações em que praticavam atividades físicas. Como a coluna era centrada em figuras juvenis e, portanto, dinâmicas, é natural que os esportes encaixassem perfeitamente em seu estilo de vida. “Garotas e equitação” em 16 de janeiro de 1943 mostra as ilustrações dominado a prática da equitação: O esporte possuiu uma dimensão de sociabilidade. “As “Muitas garotas escrevem-nos Garotas” demonstram descontração ao praticar esportes e um interesse maior além da boa forma: paquerar! indagando se a equitação é coisa custosa Fig. 39 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Bicicletas e de aprender. Por esse motivo Garotas” em 05 de Agosto de 1946. Texto A. Ladino Fig. 39 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e equitação” em 16 de janeiro de 1943. Texto Millôr resolvemos instruí-las sobre em que Fernandes consiste, na realidade, a arte de montar.Sigam nossos passos ou, falando em linguagem própria, o nosso trote e aprendamconosco”. As atividades físicas tornam-se cada vez mais incentivadas, não apenas pelo lado dasaúde, mas também do bem-estar: “Mas menos do que o fim da vontade de controlar oscorpos, essa exaltação do bem-estar emerge como uma nova estratégia para legitimá-la.Pois controlar o corpo implica agora colocá-lo em movimento muito mais do que cerceá-lo” 207 .207 SANT´ANNA. Denise Bernuzzi. Corpo e História. In: Cadernos de Subjetividade. Núcleo de Estudos ePesquisas da Subjetividade. Programa de Estudos Pós Graduados em Psicologia Clínica PUC-SP. v 01, nº 02.São Paulo, 1993, p. 256 100
  • 101. O bem-estar, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, passa ser valorizado,colocando em pauta algo até então inédito em relação aos cuidados corporais - o prazer:“(...) a apologia do bem-estar – ora traduzido em termos de prazer, ora compreendido comosinônimo de satisfação pessoal e harmonia entre o corpo e mente – paralela à galopantedesnaturalização do sofrimento.” 208 Mesmo no período anterior ao pós-guerra, “As Garotas” compartilhavam de umarelação com os esportes mais fluida, ou seja, para elas estar em movimento significava ummomento de descontração. O martírio fruto obrigação em exercitar-se não aparece, deforma geral, na coluna. As ilustrações, por exemplo, combinavam o exercício como uma oportunidade depaquera, ou seja, encaravam a situação como uma oportunidade de estar mais visível eexposta aos olhos do sexo oposto. Os corpos em movimento na coluna apontavam para oseu desnudamento e a conseqüente exploração da sensualidade através do corpo: “Nuncahouve um homem tão gozado como o Silvinho! Disse que gosta de me ver de bicicleta sópara apreciar as minhas curvas!” 209 É interessante perceber que existiu um lado conservador no incentivo dos esportesem relação às mulheres durante o governo totalitário, pois não eram todas as atividadesesportivas que eram recomendadas ao sexo feminino: “Algumas medidas normatizadorasem relação ao esporte feminino foram levadas à cabo posteriormente pelo Estado Novo,como aquelas que vedavam às mulheres a prática de esportes incompatíveis com a suanatureza” 210 . Ao examinar as seções de “As Garotas” é possível constatar que elas nãoexploravam esportes tradicionalmente exercidos por homens como o futebol. Elas se208 SANT´ANNA. Denise Bernuzzi. Op cit, p. 256209 “As Garotas do Alceu”. Bicicletas & Garotas. In: O CRUZEIRO. 05 de Agosto de 1946, p.22 e 23210 KNIJNIK, Jorge Dorfman. A mulher brasileira e o esporte: seu corpo, sua história. São Paulo: Mackenzie,2003, p.62 101
  • 102. limitavam a atividades mais leves como a natação, equitação, patinação ou ciclismo, colocando seus corpos em movimento, sem, contudo, ferir os preceitos tradicionais impostos às mulheres: “Se a elegância e delicadeza eram ‘atributos femininos’ altamente valorizados, asAs ilustrações não competiam com os homens no esporte,ao contrário, preferiam tê-los agarradinho a elas. . práticas físicas permitidas se restringiamFig 40. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas patinando”19 de janeiro de 1946. Texto Vão Gôgo àquelas que se conciliavam com as idéiasque prevaleciam sobre a natureza fraca do corpo e do sistema reprodutivo femininos”. 211 Paralelamente à crescente importância dada aos esportes, a moda norte-americana,ganha cada vez mais espaço, principalmente para a juventude. Esse movimento pode serobservado, desde os anos 1920 no Brasil, não somente no Rio de Janeiro, mas em SãoPaulo: “Na metrópole emergente (São Paulo), estar na moda era estar sintonizado com oque ocorria em Paris, Londres, e a partir da década de 20, Estados Unidos, cuja influênciaseria fortalecida pelo cinema. Era preciso afirmar a modernidade imitando os grandescentros já estabelecidos” 212 . Os EUA ampliam sua influência no Brasil com a “política de boa vizinhança” e elase acentua, ainda mais, após a Segunda Guerra Mundial com a Europa devastada. A modafeminina assiste a uma difusão em larga escala de trajes para esportes e atividades ao arlivre, privilegiando talentos como Claire Mc Cardell, que inspirará alguns vestidos casuaisdas “Garotas”.211 ADELMAN. Mirian. Mulheres atletas: re-significações da corporalidade feminina. In: Estudos feministas,Florianópolis 11(2): 360, julho-dezembro 2003, p.446. Disponível em:http://www.scielo.br/pdf/ref/v11n2/19131.pdf. Acessado em maio de 2007212 BONADIO. Maria Claudia. Moda: costurando mulher e espaço público. Estudo sobre sociabilidadefeminina na cidade de São Paulo 1910-1930. Pré-projeto de Mestrado apresentado ao Departamento deHistória da UNICAMP, 1997, p.06 102
  • 103. As roupas práticas americanas agradavam à emergente juventude, devidamente representada pelas “Garotas” que, pouco a pouco, começava a delinear um estilo de vida particular, sendo a moda um elemento “As Garotas” mal chegaram a NY e já estavam aflitas para adquirir a moderna moda das norte-americanas. Essa será importante de identificação: “Os uma influência forte na coluna. Fig 41. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas & New produtores americanos também York” 19 de janeiro de 1946. 29 de Junho de 1940. Texto Alceu Penna mapearam com precisão o mercadoadolescente e fizeram roupas com o “visual jovem” especificamente para essa faixa etária”213 Após a Guerra o comércio de roupas prontas começa a ser, cada vez mais,legitimado. Esse movimento abriu definitivamente o mercado da moda para os EstadosUnidos, que desde o século XIX já desenvolvia técnicas para a confecção industrial:“Depois da 2ª Guerra o poder real da moda produzida em série foi, pela primeira vez,reconhecido. Somente então a idéia de tirania tornou-se firmemente associada ao design deroupas elegantes para as mulheres”. 214 O cinema e os costureiros norte-americanos ofereciam alternativas em moda ebeleza diferente da tradicional Alta Costura francesa, o que, sem dúvida, vai ao encontrodas idéias de modernidade e progresso tão incorporadas pela revista O Cruzeiro: “Naverdade, essa idéia de maior variedade, criatividade, originalidade e mesmo liberdade damoda lançada pelas atrizes americanas também está ligada à ideologia de progresso (...) Os213 MENDES, Valerie. LA HAYE, Amy. A moda do século XX: Martins Fontes, 2003, p. 146214 HOLLANDER. Anne. TORT. Alexandre Carlos. O sexo e as roupas: a evolução do traje moderno. Rio deJaneiro: Rocco, 1996, p. 206 103
  • 104. Estados Unidos carregam todas as conotações de modernidade, permitem identificações mais vantajosas quanto à imagem que se faz do futuro.” 215 A coluna “As Garotas” desde a temporada de Alceu Penna nos EUA para a Feira Mundial em New York em As roupas preferidas das “Garotas” mostravam o corpo e suas formas. Adeptas da roupa norte americana no dia a dia, 1939, demonstravam apreciar bastante elas aderiram à sua descontração e sensualidade. Fig 42. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas em as modas desse país: “Depois de uma shorts”. 18 de outubro de 1952. Texto A. Ladino temporada em Washington, as Garotasvoltaram a New York para a inauguração da Feira Mundial. (...) Nos primeiros dias, e nasprimeiras semanas, o tempo foi pouco para visitar os cinemas, os theatros, as estações derádio, e, principalmente as casas de modas”. 216 O visual norte-americano das “Garotas” foi, sobretudo, representado pelas calçascigarretes, que podiam vir acompanhadas de suéteres e, também, os dos práticos e sensuaisshorts: Em um tempo em que a mulher não gozava de muita liberdade no vestir e que ascalças femininas e shorts ainda eram vistos com algumas ressalvas, essas ilustrações, defato, faziam escolhas incomuns, mesmo que, aparentemente, de forma acidental: “Rasgueias calças na canela pulando um cerca de arame farpado e tive que cortá-la como recursoextremo. Agora todas as minhas amigas estão fazendo o mesmo, julgando que se trata da 217última moda...”. Os shorts, apesar de usados para práticas esportivas desde os anos 1930, só no finaldos anos 1960 começam a aparecer nas ruas efetivamente: “O short tomou conta dasGarotas. Ou melhor, as Garotas tomaram conta do short. Às vezes o short deixa de sê-lo215 SCHUPUN. Mônica Raisa. Op cit, p. 127216 “As Garotas do Alceu”. Garotas & New York. In: O CRUZEIRO. 29 de Junho de 1940, p.22 e 23217 “As Garotas do Alceu”. As Garotas descansam. In: O CRUZEIRO. 18 de março de 1944, p.46 e 47 104
  • 105. para se transformar em calças compridas para o cinema e os passeios de auto, ou ‘pesca-siris’ para os piqueniques e bailaricos campestres. O short ajuda o movimento das Garotase por isso mesmo elas o tem como sua indumentária preferencial...” 218 A coluna, mesmo ostentando as linhas da moda dos EUA, também privilegiava obom gosto francês. Essa moda, ao contrário da norte-americana, seguiu linhas distintas deelegância. A alternância de influências será uma característica constante nos anos devigência da coluna. O corpo e a moda da mulher francesa, especialmente durante o governo de Vichy valorizavam a seriedade e discrição: “(...) a mulher se afasta da ‘masculinização dos costumes femininos’, cobiçada antes da Guerra pela adoção dos cabelos curtos ou do A moda austera no período do conflito não chegou a afetar em muito o visual das “Garotas”, que continuavam a cigarro. Escapando a esse ‘perigo’ por aparecer com roupas coloridas e visual diversificado. Apesar da distancia, percebe-se elementos muito usados no período com os chapéus. uma atitude julgada saudável, ela Fig.43. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e os chapéus novos”. 13 de maior de 1939. Texto Alceu Penna redescobre (...) seu lugar no lar, seu papel de mãe. Seu corpo se adapta aessa função natural redescoberta... Os seios, os quadris se ‘ajustam’, a cintura se afina”. 219 A influência francesa na coluna se fazia presente, sobretudo, nos vestidos de noite.Ao se vestirem de acordo com esses ditames, as ilustrações apareciam incorporar certorigor na aparência. As luvas, por exemplo, eram acessórios muito presentes nas ocasiõesformais.218 “As Garotas do Alceu”. Garotas em shorts. A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 18 de outubro de 1952, p. 76 e77219 VEILLON. Dominique. Moda & Guerra. Um retrato da França ocupada. Rio de Janeiro: Jorge ZaharEditor, 2004, p.212 105
  • 106. A coluna “Garotas” exibe a presença de conjuntos de saias e blusas, além dostailleurs, modelos muito usados durante a Segunda Guerra Mundial. Os chapéus eram,também, freqüentes na década de 1940. Entretanto, essa linha não seria a predominante noperíodo. As roupas coloridas, os vestidos de gala esvoaçantes para bailes, com metros emetros de tecidos, a despeito da escassez de matéria prima, seriam ilustrados, amplamente,nos corpos das “Garotas”. Com o fim do conflito, a França aos poucos retomou as suas atividades no setor damoda, especialmente da Alta Costura. A nova silhueta continuaria a delinear oconservadorismo como nos tempos da Guerra, porém a austeridade cede espaço às roupasmais glamourosas, que utilizam uma fartura de tecidos, imortalizadas pelo New Look deChristian Dior lançado em 1947. As saias rodadas, volumosas, com a cintura marcada, muitas vezes por um cintoapertado eram cada vez mais freqüentes na coluna, principalmente a partir dos anos 1950.Os chapéus enfeitados cedem lugar à simplicidade dos rabos de cavalo e laços de fita nocabelo, usados, principalmente, pelas adolescentes, faixa etária correspondente às“Garotas”. Após a Segunda Guerra Mundial, sobretudo, impulsionada por esse movimento davolta ao lar, a mulher adotou características excepcionalmente femininas. O corpo e amoda dialogavam com esse momento de resgate aos valores tradicionais: “Umafeminilidade que foi historicamente construída, naturalizada, universalizada e essencializadacomo inerente à “natureza” das mulheres, como sua “marca”, não obstante a pluralidade desuas histórias. A força instauradora das representações de feminilidade revela-se na 106
  • 107. permanência desse “pudor”, dessa marca de silêncio que envolve as mulheres e que pesa primeiramente sobre seus corpos”. 220 A silhueta estava de acordo com os novos padrões rígidos de conduta e apresentação da mulher no pós-guerra. O A partir da década de 1950, os vestidos inspirados no New Look de Dior serão a coqueluche na coluna, para corpo voltava a estar sob a vigilância os eventos sociais, especialmente os de gala. Os corpos voltam a exibir o conservadorismo sob o comando da silhueta “cinturinha de pilão”. constante do olhar masculino em oposição Fig.44 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas dão cada baixo!”. 01 de novembro de 1952. Texto A. aos tempos do conflito. Ele se viu confinado Ladino a um novo espartilho: as modernas cintaselásticas como a Vespa, para moldar a “cinturinha de pilão”. A esbelteza era cada vez mais valorizada, entretanto, sem características andróginascomo as vivenciadas nos anos 1920. As curvas eram bem vindas: “Era o que os homenspreferiam: as cheinhas, de corpo violão sete cordas. Se uma delas passasse por perto serialouvada com um discreto galanteio: ‘Que estouro boazuda’.” 221 Obstante a isso, Elza Marzulo que assinava a coluna “Elegância e Beleza” narevista O Cruzeiro, já alertava as jovens para os perigos do excesso de magreza: “O medode engordar quando se torna uma obsessão, isto é, quando não é confortado por uma exataindicação médica, é pura e simples doença: é uma psicose cujas vítimas são levadas a nãoalcançar um escopo estético, mas a por em sério e grave risco a sua saúde”.222 “As Garotas do Alceu” exibiam um formato de corpo condizente com o padrãoestabelecido na época. Eram magras e longilíneas, mas possuíam curvas, ostentando uma220 RIOS. Gilma Maria. Educação Física e a “masculinização da mulher moderna”. Universidade PresidenteAntonio Carlos. Unipac Araguari, MG, p. 02. Disponível em:http://www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/G/Gilma_Rios_38_B.pdf. Acessado em 07 de março, 2007.221 SANTOS. Joaquim Ferreira dos. Feliz 1958: o ano que não devia terminar. Rio de Janeiro: Record, 2003,p. 12222 MARZULLO. Elza. Coluna Elegância e Beleza. In: O CRUZEIRO 06 de julho de 1957 107
  • 108. cinturinha minúscula. Mesmo possuindo, muitas vezes, um vestuário que expunha mais apele, elas não fugiam do ideal feminino de corpo, aquele ainda confinado às cintas elásticase submisso à uma certa artificialidade. A mulher deveria camuflar suas imperfeições com a ajuda dos cosméticos e vigiarsempre, para que seu marido nunca visse a sua verdadeira face: “(...) fingir ser bela, fingir,sobretudo perante o homem amado, que se tem a cintura fina, o porte de rainha e uma vozaveludada é, para os conselheiros de um passado recente, uma estratégia correta e mesmosaudável”. 223 A beleza ainda era um tanto programada e a naturalidade dos brotos dos anos 1960ainda não era a realidade, embora não estivesse tão distante de sua emergência: “É naindividualização, e também no artifício, às vezes sistemático, que se aprofundou a belezanas democracias entre as duas guerras: a idéia sempre mais aguçada de que a beleza seconstrói pela técnica e os materiais.” 224 “Garotas e camuflagem” em 21 de novembro de 1942 as ilustrações se entregavamaos tratamentos de beleza, camuflando suas imperfeições, comparando certos artifícios àsestratégias de guerra: “Uma aplicação dessas cintas em sacos de areia não constituiria umaarmadilha formidável?” A aparência das ilustrações do início da coluna se assemelha ao modelo de belezaencarnado pela figura da vamp hollywoodiana, embora não fossem tão fatais quanto àsdivas Jean Harlow e Marlene Dietrich, exemplos do gênero: “Na órbita do filme noir, essasedutora insubmissa e temível inaugurou a era do glamour (...).” 225 Os traços são maisfinos, os olhos puxados e a maquiagem é levemente carregada nos olhos. No entantoapesar da semelhança, com o avançar do tempo, elas pareciam estar mais próximas da223 SANT´ANNA, Denise Bernuzzi. Cuidados de si e embelezamento feminino: fragmentos para uma históriado corpo no Brasil. In: Políticas do Corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo:Estação Liberdade, 1995, p. 127224 VIGARELLO. Georges. A história da beleza. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006, p. 167225 FAUX. Dorothy Schefer. A beleza do século. São Paulo: Cosac & Naif. Edições, 2000, p.146 108
  • 109. beleza da virgem inocente e rebelde dos cinemas: “A virgem inocente ou rebelde, com imensos olhos crédulos, de lábios entreabertos ou suavemente sarcásticos (Mary Pickford e Lilian Gish nos EUA, Suzanne Gandais na França Nessa seção a maquiagem e alguns recursos de beleza como (...)” 226 . “As Garotas” irão estampar um poderoso sutiã ou uma cinta, estavam na lista das “Garotas” para camuflar suas imperfeições. Essa será uma uma beleza cada vez mais jovial. Os prática comum às mulheres do período. Aqui esses artifícios serão comparados à artilharia de guerra, evidenciando a batalha que era se manter bela. olhos tornam-se maiores e o sorriso se Fig.45 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e camuflagem". 21 de novembro de 1942. Texto Alceu Penna. alarga, aproximando-se cada vez mais do ideal de beleza encarnado pelas pin-ups. A figura perniciosa da vamp muito feminina, mas demasiadamente liberal, cedialugar a um novo modelo, a jovem esbelta e de maçãs-do-rosto coradas: “Principalmentenos últimos anos da década de 50, quando os gestos dedicados a embelezar começavam ademonstrar uma desenvoltura outrora desconhecida; sob o signo das marcas ‘Made inHollywood’, a feminilidade das femmes fatales da década anterior parecia ter se tornado dodia para noite, um artifício da velha e cansada Europa.” 227 A indústria de beleza já estava em sintonia com a mudança que se operava. O sexappeal dos brotos era a nova inspiração. A maquiagem deveria ser mais leve, nada de coresescuras e truques excessivamente artificiais: “Usava-se laquê em salões de cabeleireiro, adepilação era comumente feita com gilete e depilar as sobrancelhas nem sempre era vistocomo coisa de mulher de boa família. A sombra para as pálpebras, quando podia ser usada,era considerada adequada para festas noturnas. Esmalte de cor forte costumava despertar226 MORIN. Edgar. Estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro, 1989, p.08227 SANT´ANNA. Denise Bernuzzi. Do glamour ao sex-appeal: notas sobre o embelezamento feminino entre1940 e 1960. In: História &Perspectivas. Uberlândia (23): 115-128 julh/dez.2000, p. 116 109
  • 110. suspeitas.” 228 A cor dos esmaltes das “Garotas”, ignorando essa regra, era normalmentevermelho rubi, assim como os lábios. Com o avançar da década de 1950 a beleza feminina passa, cada vez mais, a serencarada como um trabalho e dever cotidiano da mulher. Ao contrário do que seacreditava, ela passou a encarar os cosméticos como uma chance de corrigir as suasimperfeições e não apenas escondê-las. Os novos recursos em maquiagem tornaram-seimprescindíveis. Elza Marzullo novamente dá dicas em sua coluna no O Cruzeiro: “Abeleza pode ser conquistada. Analisando a maquilagem de outras mulheres e,principalmente, a que é empregada por suas amigas, as quais naturalmente você vê sempintura, chegará a conhecer os pequenos milagres conseguidos com os modernoscosméticos”. 229 Tradicionalmente, as regras de beleza caminhavam juntas com as de elegância, poissozinha ela não bastava. A elegância ocupava a importante tarefa de disciplinação econtrole dos corpos: “(...) o ideal de elegância perpassa também o discurso do “deve ser”para as mulheres dos anos 50. Ressalta-se inclusive que não adianta só “beleza pura”, mastem de ter elegância e charme”. 230228 SANT´ANNA. Denise Bernuzzi. Op cit, p.120229 MARZULLO. Elza. Coluna Elegância e Beleza. In: O CRUZEIRO. 06 de julho de 1957230 PEREIRA, Simone Luci. Imprensa e Juventude nos anos 50. INTERCOM – Sociedade Brasileira deEstudos Interdisciplinares da Comunicação. XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.Disponível em: http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/4373/1/NP2PEREIRA.pdf.Acessado em 10 de maio de 2006, p. 08 110
  • 111. A expressão “só é feia quem quer” se aplica a esse contexto. O descuidado com o corpo e as roupas eram sinais de fracasso feminino, sob o ponto de vista de uma sociedade patriarcal, em que a ascensão máxima da mulher era um bom casamento. A jovem solteira deveria cuidar da sua aparência, a fim de atrair candidatos. “As Garotas do Alceu” eram ilustradas de forma impecável. Olhando sob o ponto de vista atual é coerente que A beleza das “Garotas” acompanhou as mudanças nos padrões de beleza do cinema Hollywoodiano, migrando, pensemos nelas como figuras mesmo que aos poucos, da fatalidade para a ousadia jovial. Fig. 46 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas a demasiadamente artificiais. Estavam bordo”. 30 de novembro de 1938. Texto Alceu Penna Fig. 46 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Que te quero sempre maquiadas, cabelos penteados e Garota”. 26 de outubro de 1957. Texto A. Ladino. unhas feitas. Eram ilustradas seportando de forma polida e elegante. Entretanto, ao observar mais atentamente éconstatado que, para a época, em que o corpo feminino era objeto de extrema vigilância econtrole as ilustrações exibiam pelo corpo e a moda, mais liberdade do que era costumeirono dia a dia da maiorias das moças do período. De certa maneira, as ilustrações jáanunciavam uma etapa nova que caracterizaria a transição dos anos 1950 para 1960:“Beleza mais livre (...) secretamente trabalhada pela dinâmica da igualdade.” 231 Na corrida pela beleza, a indústria de cosméticos e higiene se aperfeiçoavam.Novos produtos começam a aparecer no mercado, substituindo ultrapassadas formas de se231 VIGARELLO. Georges.Op cit, p. 171 111
  • 112. embelezar: “(...) segue-se a modernização da beleza, sobretudo das mulheres. O rouge foisendo preterido pelo blush, o pó de arroz pelo pó compacto, as máscaras caseiras de beleza,de abacate, pepino, camomila etc pelos modernos cosméticos”. 232 “As Garotas” refletiram a crescente invasão de cosméticos no mercado porempresas estrangeiras consagradas, que apareciam até mesmo em seções em que o temaera a culinária: “Os morangos devem ser servidos com creme. Não há creme chantili. Seráque creme Pond´s serve?” 233 Uma boa aparência era imprescindível para uma jovem, que desejava escolher entrevários partidos aquele que a mais interessava. A beleza deveria servir ao homem, ou seja,ao seu desfrute, impedindo que a sua verdadeira individualidade emergisse: “Mulheresenfeitam-se, vestem-se de negro ou se cores e encantam. Mascaram e são suas própriasmáscaras no batom que marca seus lábios, no pó facial sobre a tez que quer sem manchas,sem máculas. Congelam no tempo linear pelo mascaramento do real. Semideusas damodernidade, as mulheres escapam ao real pelo viés da simulação e constroem existênciasinabarcáveis totalmente pela razão masculina. Existência da ordem do ritual, doprocessual.” 234 A grande variedade de produtos em oferta no mercado provocou umredirecionamento da propaganda. A beleza se torna um produto, embalado edemocratizado: “(...) Daí a ‘generalização’ dessa beleza, impensável até então, ao alcanceda retórica lisa e versátil do mercado.” 235232 MELLO. João Manuel Cardoso de. NOVAIS. Fernando A. Capitalismo Tardio e sociabilidade moderna.In: SCHWARCZ. Lilia Moritz (org.). História da Vida Privada v.04. São Paulo: Companhia das letras,1998, p. 568233 “As Garotas do Alceu”. Garotas e a arte culinária. In: O CRUZEIRO. 22 de Abril de 1950, p.118 e 119234 ROMERO, Elaine. Corpo, mulher e sociedade. Campinas: Papirus, 1995. p 132235 VIGARELLO. Georges. Op cit, p. 171 112
  • 113. Era necessário romper resistências em adotar novos artigos, instruindo o consumidor a absorver novos hábitos: “Assim, bem antes dos anos 1960 já era possível encontrar diversos anúncios cujo objetivo O Cruzeiro procurou conscientizar sobre a suposta “nova mulher moderna”, já tratando de esclarecer que a designação não deveria ferir os princípios da moral e bons costusmes. era provocar identificação entre Fig.47 “A mulher em nova edição”. 28 de setembro de 1957 os consumidores e bens deconsumo mediante apelos dirigidos à subjetividade daqueles.” 236 O Cruzeiro, como veículo porta-voz das elites e da ideologia dominante, defendeuem sua linha editorial uma mulher que atendesse aos interesses da modernização do país,mas que fosse alienada aos problemas políticos femininos, não ferindo aos interessesconservadores: “Com tantas dificuldades e problemas que sempre circundaram o mundofeminino, a revista de grande tiragem nacional procurou enfatizar muito mais libido,vaidade e mito fantasioso das mulheres, num período definido como moderno, do quetratar dos problemas da dura realidade da maioria das brasileiras, que viviam na maiscompleta submissão”. 237 A revista chegou a realizar uma reportagem dedicada, exclusivamente, a apontar onovo modelo de mulher moderna: “Uma enquête realizada por O Cruzeiro na AméricaLatina demonstra que a jovem deste continente realiza um sadio equilíbrio entre as virtudestradicionais e a liberdade da educação moderna, sem perder a feminilidade”. 238236 FIGUEREDO, Anna Cristina Camargo Moraes. Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada.Publicidade, cultura de consumo e comportamento político no Brasil (1954-1964), 1998237 CERPA. Leoní. A máscara da modernidade: a mulher na revista O cruzeiro (1928-1945). Passo Fundo:UPF, 2003, p.73238 O CRUZEIRO. A mulher em nova edição. 28 de Setembro de 1957, p.24 e 25 113
  • 114. O conceito de mulher moderna vigente no período da coluna diferenciava-sedaquele popularizado nos anos 1920, sobretudo, pelos EUA: “(...) o desafio competitivoque o modelo da mulher americana moderna lançava, tanto ao velho estilo de vidapatriarcal como ao novo estilo de vida coletivista, tinha menos a ver com a bandeira do quecom a sua representação em produtos, na moda, nas notícias e no cinema. Na sua realidadetão diversa, as mulheres modernas emergiram das lutas anteriores pela emancipaçãopolítica, econômica e sexual. (...) Por volta dos anos 20, empenhados agentes damodernidade tinham de ter em conta os anseios e símbolos de liberdade e individualidadedas mulheres”. 239 A exaltação do consumo servia, portanto, ao ideal de desenvolvimento, mas nãosignificou para a mulher conquistar independência: “O que se percebe é que a mulheralcançava apenas uma independência consumista, e ainda com o dinheiro dos maridos,porque poucas usufruíam uma liberdade financeira própria”. 240 “As Garotas” como mocinhas jovens e, provavelmente, dependentes dos pais,compartilhavam, até certa medida, do pensamento que deveriam ser sustentadas pelos seusnamorados ou futuros maridos. “Para as garotas” em 15 de maio de 1954, salienta o ladomaterialista dessas ilustrações, que colocam seus namorados na obrigação de enchê-las demimos caros: “O Antônio tem mania de me dar orquídeas, mas ele revela gosto fino. Sãomuito caras as orquídeas, mas estou cheia de orquídeas e de pulseira de níquel.” Paralelamente às inúmeras definições e indefinições sobre a mulher, as ilustraçõesrefletiram medos, inseguranças, alegrias, desejos de muitas mulheres da classe médiabrasileira. Pode se dizer muito sobre aquele tempo, pela observação dos traços quecompunham os seus corpos e a moda. Em meio a uma corrida rumo ao desenvolvimento,uma visão se destacou, graciosa e ao mesmo tempo controversa, chamada “As Garotas do239 COTT. Nancy F. A mulher moderna: o estilo americano dos anos 20. DUBY. Georges. PERROT.Michelle. História das mulheres: o século XX, v.5. Roma: Afrontamento, 1991, p. 95.240 CERPA. Leoní. Op cit, p. 79 114
  • 115. Alceu”, ensinado os brotinhos da época os benefícios incomparáveis da malícia e do bom-humor ao burlarem a ordem existente. 115
  • 116. 3.2 A ousadia discreta das “Garotas”: objetos de desejo A coluna atraiu nos anos de sua veiculação um público diverso. As mulheres asadmiravam como modelos de beleza e comportamento e os homens as admiravam por seusdotes físicos e charme invejáveis. As moças do período queriam ser uma “Garota” e osrapazes desejavam se casar com uma delas. Heloisa Buarque de Hollanda relembra a admiração que sentia pela coluna: “Éinevitável, para mim, voltar no tempo quando penso em Alceu Penna. Lembro-meimediatamente de minha ansiedade, ainda adolescente, esperando o Cruzeiro aparecer nasbancas e eu, correndo as páginas da revista, para encontrar as “Garotas” da semana. Não sópara mim, mas para minha geração de meninas que iam ao cinema Rian à tarde e depoisiam em grupo tomar sunday de Morango com waffles nas Americanas, Alceu Penna era ummodelo de comportamento. Sentíamos suas páginas como modernas, atuais, descoladas.Eram frases, gestos, formas de olhar e seduzir, as roupas, chapéus, maiôs, fantasias. Ah!As fantasias de carnaval, fielmente copiadas pelas costureiras do bairro...” 241 Se para as moças da época, “As Garotas” tornaram-se modelos, para os rapazes elaseram objetos de desejo. Alberto Villas relembra o lugar ocupado pelas ilustrações em seuimaginário: “Um dia sonhei que estava me casando com uma garota do Alceu. Ela vestiaum vestido branco com uma cauda enorme e segurava um buquê de flores cor-de-rosa everde. De repente, acordei.” 242 As ilustrações eram cercadas de uma magia inalcançável, uma estética perfeita,quase que boas demais para serem verdade. E de fato eram mesmo. Sua imagem tornou-seum fetiche: “A incorporação do fetichismo é evidente em nossa sociedade, e pode ser vista241 HOLLANDA, Heloisa Buarque. Texto manuscrito. Rio de Janeiro, 2006.(mimeo).242 VILLAS. Alberto. O mundo acabou. São Paulo: Globo, 2006, p.261 116
  • 117. em diversos contextos que representam, de um modo ou de outro, uma propriedade mágica do objeto fetichizado”. 243 É sabido, como explorado no primeiro capítulo que as “Garotas” foram inspiradas nas pin-ups, mais precisamente nas Gibson Girls. Essa inspiração é crucial para as pensarmos como objetos de desejo masculino. As ilustrações apareciam vestidas com trajes decotados, em poses A coluna atraiu tanto o público feminino quanto o convidativas e sensuais: “A vamp era masculino. O banho das “Garotas”, uma situação íntima, poderia suscitar as mais loucas fantasias masculinas, ao a mulher viciosa, capaz de introduzir mesmo tempo, que as roupas na última moda, atraíam os olhos femininos curiosos. qualquer homem no paraíso tenebroso Fig.48 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “O banho das Garotas”. 31 de janeiro de 1942. Texto Alceu Penna e escaldante do erotismo. (...) Com a Fig.48 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas em passeios”. 02 de novembro de 1946. Texto A. Ladino pin-up, não há nada disto. Ela existe eisto basta. Ela possui olhos grandes, uma boca larga que ri, mostrando os dentes muitobrancos, um busto que poderia servir de cabide, nádegas que fariam com que um atiradorrevirasse os olhos, coxas acolchoadas e tornozelos decentes. Seios nádegas, sorriso: eis deque é composta a pin-up, e esta ausência de mistério acaba por ser o mais misterioso dosmistérios.” 244243 BOTTI. Mariana Meloni Vieira. Fotografia e fetiche: um olhar sobre a imagem da mulher. In: CadernosPagu (21) 2003, p. 105244 PIPER, Rudolf. Garotas de papel: história da pin-up brasileira em 170 ilustrações. São Paulo: Ed Global,1976, p. 88 117
  • 118. Na coluna as ilustrações não possuem um apelo sexual tão explícito quanto as pin-ups, pois deveriam agradar ao público feminino também, no entanto, compartilhavam docódigo de sedução delas. “As Garotas”, muitas vezes, posam para o leitor, ou seja, olhamdiretamente para ele, quase como um convite a apreciá-la. A roupa também é parteimportante, pois é decotada, apresentando peças que mostram pernas, colo, braços, semrevelar tudo: “Acompanhado desse olhar, por vezes lúdico, sério ou insinuante, temos aindumentária, que reforça o convite. A escolha por vestir a modelo ao invés de representá-la nua é, em certo sentido, uma escolha fetichista” 245 . Partindo dessa perspectiva, “As Garotas” mostram sua porção conservadora: amulher como objeto de desejo e, portanto, de apreciação. Simone de Beauvoir fala sobre aface estática e submissa dos corpos femininos: “O ideal da beleza feminina é variável, mascertas exigências permanecem constantes: entre outras exigi-se que seu corpo ofereça asqualidades inertes e passivas de um objeto, porquanto a mulher se destina a ser possuída(...) não deve ser promessa de outra coisa senão de si mesmo: precisa deter o desejo”. 246 Além do corpo, o contexto em que se inseriam as ilustrações era propício paraaflorar a sensualidade. A praia era um dos programas mais ilustrados nas páginas das“Garotas”. Era sem dúvida um espaço de liberações corporais e aproximações. Elasexibiam suas curvas, adquiriam um belo bronzeado e, frequentemente, jogavam seucharme para os rapazes: “Na areia fresca e macia que tanto repouso enseja, a Garota sódeseja boa sombra... e companhia” 247 . Os corpos desnudados, outrora encobertos por tecidos e tabus se libertavam emdireção a uma nova e incerta realidade. Na praia se desfrutava de liberações, tanto do pontode vista das roupas, pelo uso de trajes de banho que mostravam partes do corponormalmente escondidas, quanto da possibilidade de estar em contato com o sexo oposto.245 BOTTI. Mariana Meloni Vieira. Op cit, p. 125246 BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p. 200247 “As Garotas do Alceu”. Na barraca das Garotas. In: O CRUZEIRO. 05 de novembro de 1955, p .26 e 27 118
  • 119. A praia tornava-se um local de socialização entre rapazes e moças e, se por um lado havia as liberações, também existiam as coações, os receios que a proximidade dos rapazes A praia possibilitou muitos encontros para “As Garotas” e pudesse por abaixo a reputação da as mocinhas da época. Corpos à mostra e sensualidade aos olhos do sexo oposto, ao mesmo tempo em que aproximava, colocava novos receios em relação ao corpo. moçinha: “Calma, deitada na areia, Fig.49 Coluna “As Garotas do Alceu”: “O banho das desacata a vida alheira, mas não entres Garotas”. 31 de janeiro de 1942. Texto A. Ladinono mar, não, pois o teu maiô estético, de tão bonito e sintético pode atrair tubarão” 248 . A insegurança de exibir o corpo em trajes de banho, também cerceava o clima deliberdade. O desejo incontido de agradar aos olhos do sexo oposto torna-se uma coaçãoque, como as cintas elásticas sufocantes, tentavam moldar os corpos em um determinadopadrão. “As Garotas” como qualquer moça da época, estavam divididas, cotidianamente,entre a ousadia e o recato. Esse comportamento não era estranho para uma sociedade conservadora, à despeitode todas as modernizações. Clarisse Lispector escreveu, sob o pseudônimo de HelenPalmer, a seção “Correio Feminino” no Correio da Manhã entre 1959 e 1961. Nesse espaçoela dava dicas de beleza e comportamento que, em muito, refletiram a realidade femininado período: “A mulher deve ser primeiro que tudo feminina. Deve ter a habilidade de secontrolar a ponto de deixar que outras pessoas se tornem mais importantes que ela dentrodo seu estrito meio de relações”. 249 “As Garotas do Alceu” materializaram uma mulher mascarada pelo desejo deagradar, mas ao mesmo tempo, rompiam esse padrão para incorporar um modelo mais248 “As Garotas do Alceu”. Garotas cuidado com o tubarão! In: O CRUZEIRO. 03 de março de 1953, p. 70 e71249 NUNES. Maria Aparecida (org). Correio Feminino. Qualidades para tornar a mulher In: Correio daManhã. LISPECTOR, Clarisse. 22 de janeiro 1960, p.100 119
  • 120. pessoal em sintonia com as suas vontades, mesmo que essas não fossem exatamente asesperadas: “Despistando os namorados e a todos mais despistando, mesmo de olhinhosfechados as Garotas vão manjando” 250 . Esse conservadorismo vai começar a ser burlado com a crescente urbanização eampliação das possibilidades de encontro entre os sexos. Mesmo com as regras quepautavam a aproximação entre rapazes e moças, essas transformações geraram um impactona formatação do namoro: “Os hábitos de ir a bailes, festas, cinema, praia e de fazer ofooting proporcionam contatos cada vez mais freqüentes e diretos entre jovens de ambos ossexos. Estas práticas, ao longo do tempo ‘destroem’ (substituindo por processos maisíntimos) antigas formas de namoro e modificam a iniciativa da escolha do cônjuge que setransfere dos pais para os próprios indivíduos interessados.” 251 Eram nesses espaços de convivência que a jovem solteira poderia entrar no jogo daconquista. Esse jogo, entretanto, composto de olhares, sorrisos e expressão corporalreceptiva tinha que ser pautado pela moral e bons costumes, deixando a iniciativa, o flertepara os rapazes: “A minúcia dos gestos e a escolha das roupas expressam a unidadeesperada entre comportamentos e a ordem social da qual o indivíduo faz parte. Oscomportamentos, embora expressos como algo alheio que possa ser aprendido, não passade procedimentos de autocontrole para que o indivíduo não fira a unidade esperada entreele e a ordem social a que pertence”. 252 “As Garotas”, ao contrário do esperado, flertavam com os rapazes participando,mesmo que, disfarçadamente, do jogo da conquista. A expressão corporal das ilustraçõesao se verem interessadas em algum rapaz era sempre acompanhada de um olhar de canto,um sorriso discreto e maroto: “IT, sorriso e menelo, atrevimento e receio, que torna a250 “As Garotas do Alceu”. Garotas manjando. In: O CRUZEIRO. 25 de Agosto de 1956, p. 58 e 59251 BASSANEZZI. Carla. Virando as páginas, revendo as mulheres. Revistas femininas e relações entrehomem e mulher (1945-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 80252 BERGAMO. Alexandre. Op cit, p. 90 120
  • 121. garota ‘a tal’, eflúvio gostoso e quente, imponderável presente que nos faz bem e nos fazmal” 253 . Mesmo deixando o homem achar que está sendo conquistado, como era o costumeda época, elas investiam ativamente no flerte, uma iniciativa masculina, abusando do seucharme e beleza: “É das causas mais singelas a que o Rio descontrola: é que as Garotas,seis delas, estão dando bola.” 254 O corpo e a moda das “Garotas”, frequentemente, eram usados como “armas” paraconseguir coisas dos rapazes através da sedução, uma prática que destoava das normas deboa conduta: “(...) considerava-se que o culto á beleza deveria levar em conta os princípiosmédicos higiênicos e nunca a sedução. Para isso, os discursos higienistas de educadores emédicos procuravam frear a libido feminina, estabelecendo limites entre a ‘vaidade dasmulheres honradas’ e a ‘libertinagem das de condutas duvidosas’ (...).” 255 A beleza das ilustrações não estava a serviço dos homens, pois atendia a uminteresse maior: o delas: “Dos truques dessas pequenas não há que possa escapar,estrategistas serenas, elas sabem despistar. E, guerrilheiras capazes, que lutam sempre asorrir, para vencê-las rapazes, só há um jeito, aderir.” 256 Era para a época um consenso, que as mulheres utilizavam o choro para desarmaros homens e conseguir o que queriam, como até hoje, muitas ainda o utilizam. Era umatática comum ao chamado sexo frágil, que se posicionava de modo passivo na sociedade,não gozando de nenhum poder de iniciativa: “Não raro estas mulheres aconselharam,inclusive, suas filhas a ‘Fazer coisas não aparentando estar fazendo’, a exigir coisas semparecer estar exigindo, a ‘fazer tudo com muito jeito e tato’, porque afinal, ‘homem nãogosta de saber que está sendo mudado’.” 257253 “As Garotas do Alceu”. charme it., ophm... In: O CRUZEIRO. 25 de fevereiro de 1956, p. 58 e 59254 “As Garotas do Alceu”. Garotas dando bola. In: O CRUZEIRO. 03 de Agosto de 1946, p.23255 CERPA. Leoní. Op cit, p. 82256 “As Garotas do Alceu”. A tática das Garotas. Texto A. Ladino. 13 de maio de 1950, p.46 e 47257 COUTINHO. Maria Lúcia Rocha. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares.Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p.101 121
  • 122. “As Garotas” assumiam uma posição diferente. Sua arma secreta era seu charme,seus encantos e sorriso: “Depois de um dia de lucidez, alguém descobriu que o prantoincha os olhos, avermelha o nariz, enfeia. E assim como se evoluiu do tacape para ametralhadora, assim as mulheres evoluíram do choro para o sorriso. Uma Garota de dentesbonitos tem no sorriso uma arma de trinta e dois gumes...” 258 Ao longo desses 26 anos de coluna modelos provindos do cinema geravam umamultiplicidade de inspirações para os jovens, assim também como a imprensa e osexemplos do cotidiano. O que seria aceitável? : “Ser brotinho em 1958 (...) é ficar divididaentre o erotismo soft de BB, as freiras do Colégio Imaculada Conceição em Botafogo ouser comportadamente atrevidinha como as Garotas do Alceu, de O Cruzeiro”. 259 O jovem como faixa etária à parte, era uma novidade, e muitas vezes, esses nãosabiam se portar em relação ao seu corpo e moda. Em ambientes públicos as mulheresdeveriam se portar com descrição, não era bem visto uma moça ir a festasdesacompanhada, ou mesmo ficar até de madrugada nelas e se exceder nas bebidas. Ocódigo de conduta era rígido, especialmente para as senhoritas. Obstante a isso, “AsGarotas”, mesmo compartilhando desse código cometiam seus excessos: “Querendo bancargrã fina e mostrar seus predicados, bebe tanto a Rosalina que confessa seus pecados!”. 260 Questões sobre a sexualidade, a menstruação, o primeiro sutiã eram freqüentementetratadas entre mulheres com muito pudor, sendo jamais discutidas abertamente. Em vistade tamanha artificialidade, era pouco provável, que alguma mulher nutrisse intimidade econhecimento sobre seu próprio corpo: “Todas essas mulheres andavam soterradas debaixode toalhinhas, anáguas, combinações e sutiãs de enchimento e preconceitos.” 261258 “As Garotas do Alceu”. O sorriso é a arma das Garotas. In: O CRUZEIRO. 08 de março de 1958, p. 76 e77.259 SANTOS. Joaquim Ferreira dos. Op cit, p. 49260 “As Garotas do Alceu”. Garotas dão cada baixo. In: O CRUZEIRO. 01 de novembro de 1952, p.76 e 77261 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Op cit, p. 56 122
  • 123. Estar consigo mesma era um dever, ao contrário de hoje, que deve ser um prazer,ou seja, um momento de auto-conhecimento: “(...) o corpo feminino é reconhecido comoobjeto do olhar e do desejo (aspectos que logo se tornam alvo das campanhaspublicitárias), mas aparece calado devido ao pudor que lhe é exigido como marca defeminilidade”. 262 “As Garotas” nesse sentido foram representadas de forma mais à vontade com seucorpo, mas não apenas com ele. Levando em conta que a moda e o corpo funcionam como“parceiros”, era natural que elas estivessem á vontade com suas roupas também. Mesmonão entrando em temas como a sexualidade, de forma explícita, as páginas da colunaexibiam essa temática de forma discreta. Se por um lado, “As Garotas” demonstraram uma maior intimidade com o corpo eforam adeptas de uma moda sedutora e prática, que valorizasse seus atributos físicos, emparte, era porque existiam apenas nas páginas de O Cruzeiro. Não tinham que enfrentar se,por ventura, excedessem em algum tipo de bebida ou paquerassem abertamente um rapaz,as verdadeiras conseqüências de quebrar o código dos bons costumes. “As Garotas”,mesmo sendo de papel, inspiraram mulheres reais. Desde mulheres da sociedade, comoexemplificado no desfile da Providência dos Desamparados, até moças comuns, todasqueriam ser uma das “Garotas”. Ruy Castro discorre sobre a importância das “Garotas” como modelo de beleza ecomportamento, destacando a sua singularidade: “O traço do ilustrador mineiroacompanhou e esteve à frente de muitas transformações que o Brasil viveu. Suas Garotas262 ANGELI, Daniela. Uma breve história das representações do corpo feminino na sociedade. Rev. Estud.Fem. [online]. 2004, vol. 12, no. 2 [cited 2007-03-13], pp. 243-245.Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2004000200017&lng=en&nrm=iso>.ISSN 0104-026X. doi: 10.1590/S0104-026X2004000200017 123
  • 124. tinham it e ensinavam às mulheres que ter personalidade e ser independente não era umautopia. Os rapazes ficavam malucos e queriam ser maridos, namorados ou qualquer outracoisa dessas meninas tão características do charme e do meneio brasileiros. Pois a páginade Alceu lhes ensinou que, para conquistá-las, teriam de mudar seus conceitos e aceitaruma nova mulher”.263 “As Garotas do Alceu” representavam um imaginário de uma sociedade emtransição, ou seja, no compasso da renovação de costumes e tecnologias. A modernidadeestava no ar, e com ela, o sabor da mudança e o desejo do novo. Elas compartilhavam darealidade vivenciada pelas moças da época, viviam as mesmas angústias e obstáculos, alémde gostarem das mesmas coisas. Seu corpo e moda estavam sujeitos às mesmas restrições evigilâncias, em uma época que a formalidade ainda se sobrepunha. Alceu Pennarepresentou uma tendência que pairava no ar, ainda tímida, que se tornou mais concreta naspáginas das espevitadas “Garotas”.263 CASTRO. Ruy. Texto de apresentação da exposição “O Brasil na ponta do lápis: Alceu Penna, modas efigurinos”. Centro Universitário Senac-SP. Maio 2007 124
  • 125. CAPÍTULO 4. “GAROTAS”... ALGO A SER INDEFINIDO4.1 Um homem que desenhou mulheres: o olhar diferenciado Toda imagem produzida pelo homem contém a visão de mundo dele, revelando,assim, traços de sua subjetividade. O olhar do homem é condicionado pelo contexto emque sua cultura está inserida: “O modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral evalorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais sãoprodutos de uma herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinadacultura.” 264 Essa imagem não terá a neutralidade como característica e sempre evidenciará seumodo de ver determinado objeto, pessoa ou até mesmo uma paisagem: “As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens e alegorias. Ou talvez sejam apenas presenças vazias que completamos com o nosso desejo, experiências, questionamentos e remorso. Qualquer que seja o caso, as imagens, assim como as palavras são a matéria de que somos feitos.” 265 Quando Van Gogh pintou os famosos girassóis, ele os fez tão singulares que sãoidentificados como “Os girassóis de Van Gogh”, e não como uma simples retratação dessetipo de flor. Os girassóis pintados eram diferentes e jamais seriam iguais a outro tipo deprodução com esse tema, pois naquela imagem continha algo muito particular: o modo dever do pintor, ou seja, o seu olhar do mundo.264 LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1996, p.70.265 FIGUEIREDO, Rubens; MANGUEL, Alberto;EICHEMBERG, Rosaura; STRAUCH, Claudia. Lendoimagens: uma história de amor e ódio. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 21. 125
  • 126. Esse modo de ver está, portanto, condicionado a diversos fatores, como aindividualidade do produtor da imagem, sua cultura e costumes, bem como ao contexto emque foi produzida, podendo revelar muito sobre o criador e o tempo por ele vivido: “As imagens foram feitas, de princípio, para evocar a aparência de algo ausente. Pouco a pouco, porém, tornou-se evidente que uma imagem podia sobreviver àquilo que representava; nesse caso, mostrava como alguém tinha sido – e, conseqüentemente, como o tema havia sido visto por outras pessoas. Mais tarde ainda, a visão específica do fazedor de imagens foi também reconhecida como parte integrante do registro. A imagem tornou-se um registro de como X tinha visto Y.” 266 É interessante perceber que, da mesma forma que uma determinada imagem refleteo olhar de uma pessoa, a sua apreciação também depende daquele que a vê. O olhar docriador da imagem e o do apreciador são igualmente subjetivos, ou seja, mesmo desejandoser um registro imparcial, o olhar estará sempre condicionado: “Todavia, embora todas asimagens corporizem um modo de ver, a nossa percepção e nossa apreciação de umaimagem dependem também do nosso próprio modo de ver. Por exemplo, Sheila pode seruma entre vinte pessoas, mas por motivos pessoais, só temos olhos para ela.” 267 A mulher foi, ao longo do tempo, extensamente abordada em pinturas, ilustrações efotografias. Percebe-se que esse tipo de pintura é um movimento particular, pois revela,como discutido anteriormente, o modo de ver a figura feminina em um determinadomomento histórico, que freqüentemente foi retratado por figuras masculinas: “(...) comoqualquer representação a imagem é um jogo, guiado por regras culturais que evoluíram eque continuarão a evoluir. A imagem da mulher tem uma história em si mesma.” 268266 BERGUER, John. Modos de Ver. Lisboa: Edições 70, 1972, p.14.267 BERGUER, John. Op cit, p.14.268 DUBY, Georges; PERROT, Michelle. Imagens da Mulher. São Paulo: Afrontamento, 1992, p. 140. 126
  • 127. Alceu Penna, ao criar as ilustrações das “Garotas”, como não podia deixar de ser,corporizou seu próprio modo de ver a figura feminina. A imagem um pouco contraditóriaque temos das mulheres é entendida pela ótica do autor, que vivenciou um período em queelementos novos conviviam com os velhos paradigmas: “Quando lemos imagens – de qualquer tipo, sejam pintadas, esculpidas, fotografadas, edificadas ou encenadas, atribuímos à elas o caracter temporal da narrativa. Ampliamos o que é limitado por uma moldura para um antes e um depois e, por meio da arte de narrar história (sejam de amor ou de ódio), conferimos à imagem imutável uma vida infinita e inesgotável.” 269 Por outro lado, não podemos deixar de perceber que a malícia tomava um espaçomaior nas ilustrações, destacando, de forma sutil, essas figuras do cenário feminino comumda época, algo que não pode ser explicado pela simples influência do contexto do paísnaquele momento. Nesse sentido as imagens são entendidas menos por um movimentoexterior e mais interior, que parte do próprio ilustrador e de sua sensibilidade ao lidar coma realidade: “As imagens em si mesmas não são falsas nem verdadeiras, são expressões deanseios e sentimentos correspondentes ao que a realidade é ou ao que pode vir a ser.” 270 O olhar de Alceu Penna em relação à mulher parece emergir do próprio contextoem que estava inserido, mas também de sua sensibilidade ao lidar com essa realidade.Examinando os registros profissionais de Alceu Penna, percebe-se que ele concebeu muitasilustrações de figurinos para cassinos e shows, tendo trabalhado nesses lugares ao longo desua carreira. Haja vista a extensa atividade do profissional nessa área, ele provavelmenteesteve em contato, mais do que a grande maioria das pessoas, com um ambiente liberal e269 FIGUEIREDO, Rubens; MANGUEL, Alberto; EICHEMBERG, Rosaura; STRAUCH, Claudia. Op cit p.27.270 COSTA, Cristina. A imagem da mulher: um estudo de arte brasileira. Rio de Janeiro: Senac, 2002, p.161. 127
  • 128. descontraído, algo que deve ter contribuído, em certa medida, para a sua retrataçãoincomum da mulher. Não podemos esquecer que, mesmo Alceu Penna tendo convivido em meio aomundo dos espetáculos, ele ainda assim era um homem, ou seja, algo que teria potencialpara influenciar o seu traço de maneira inquestionável, como de fato o fez. O modo comque seu gênero atuou nos seus desenhos pode ser percebida, sobretudo, pela exploração dasensualidade. Essa perspectiva deriva da sua visão, portanto masculina, em apreciar amulher como objeto de desejo. Alceu Penna conseguiu desenhar figuras belas e, ao mesmo tempo, modernas earejadas, sem cair nas tradicionais representações femininas: “A mulher sempre foi um dos temas preferidos dos ilustradores e cartunistas. Vistas pelos homens, elas se dividiam em tipos bem definidos. As belas bem vestidas, charmosas, interesseiras e loucas para casar. A galeria das feias incluía as feministas e as feras, munidas da vassoura e do rolo de macarrão.” 271 Pode-se dizer, em linhas gerais, que o conjunto de seus desenhos não afirmaramestereótipos, e muito menos depreciaram a figura feminina pela exploração constante damalícia. Em “As Garotas”, devido ao seu olhar incomum, Alceu Penna ilustrou mulheresque, mesmo se encaixando nos padrões conservadores, deram aos leitores de O Cruzeiroum respiro da realidade monótona e preconceituosa da época.271 MATTAR, Denise. Texto de abertura do livro da exposição Traço, Humor e Cia. Museu de Arte Brasileira(MAB). Fundação Armando Álvares Penteado. 24 de maio a 298 de junho de 2003, p.8. 128
  • 129. 4.2 Imagem e texto na coluna “As Garotas”: uma relação humorística “(...) o humor sobrevive aos tempos, importante na virada do século, continuou deliciando leitoras e leitores até hoje. Sua função não se modificou, e políticos e artistas continuam temendo o efeito sarcástico de uma cena ou frase infeliz no traço de um humorista. ‘Eu tenho medo do Chico Caruso’ disse Fernando Henrique Cardoso. E era para ter... Só que, ao deixar o governo, uma das lembranças mais festejadas foi a coleção de charges que ganhou do humorista.” 272 Como já explorado, a coluna foi locada, por muitos anos, na seção de humor de OCruzeiro, fato que atesta a importância desse na sua caracterização. É provável que grandeparte do sucesso que a coluna alcançou ao propagar idéias avançadas em relação à mulherdeva-se, principalmente, à exploração imagética juntamente com a textual. Em “AsGarotas” a imagem necessita do texto e vice-versa, estabelecendo um vínculo dedependência. Essa relação existe, pois as retratações visuais, essencialmente, são passíveis demúltiplas interpretações, ao passo que os textos, mesmo podendo abarcar algunsentendimentos, conseguem cercar o significado geral associado às imagens: “(...) todaimagem é polissêmica e pressupõe subjacente a seus significados uma cadeia ‘flutuante’ designificados, podendo o leitor escolher alguns e ignorar outros.” 273 O elemento do riso pode associar-se à retratação imagética, quando estereótipos sãobanalizados, assim como situações levadas demasiadamente a sério, ocupando um papelimportante na coluna ao questionar realidades. “Garotas e o lar”, em 31 de julho de 1943,coloca as ilustrações na função de dona de casa. Aparentemente, o estereótipo da “rainhado lar” permanece intacto ao observar as imagens. Entretanto, o texto revela, por exemplo,272 CORRÊA, Thomaz Souto. In: MATTAR, Denise. Texto de abertura do livro da exposição Traço, Humore Cia. Museu de Arte Brasileira (MAB). Fundação Armando Álvares Penteado. 24 de maio a 298 de junho de2003, p.77.273 BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. Lisboa: Ed. 70, 1982, p. 32. 129
  • 130. que elas não estão ligando muito para o desempenho desse papel: “Porque você nãocostura para mim enquanto eu leio?” Nesse sentido, ao mesmo tempo em que o humor abria a possibilidade de explorar realidades incomuns na coluna e jamais discutidas em aberto, ele transformava aquelas ilustrações inanimadas em entidades mais reais, aproximando-as Quem olha para essas ilustrações não imaginam que além de não levarem o menor jeito para tarefas domésticas, elas não ligavam a mínima para isso. Divertir-se era o lema das dos leitores e leitoras de O Cruzeiro: “Garotas”. Fig.50. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e o lar”. “(...) se o riso, essa epifania da 31 de julho de 1943. Texto Alceu Penna emoção não nos dá nada deduradouro, pelo menos humaniza e nos faz parte daquela integridade acabada da existênciacotidiana.” 274 A aproximação provocada pelo humor torna a comunicação mais simpática. “AsGarotas” compartilharam desse efeito, pois, ao apresentarem situações, por exemplo, emque faziam malabarismos para conciliar dois namorados ou faziam um comentárioengraçado sobre o vestido de uma amiga, não se mostravam vulgares ou mesmo chatas, esim engraçadas. A seção “A ressaca das Garotas”, em 09 de março de 1946, mostrava umaidealização da mulher às avessas. Nela as ilustrações estão sofrendo dos males de teremabusado das bebidas, uma situação que não ficava bem a mocinha nenhuma, mas encaradapela lente do bom humor. Em um determinado trecho da coluna, um rapaz se interessa poruma “Garota” nesse particular estado, notadamente com segundas intenções: “Não quero274 TOMÉ, Elias Saliba. Dimensão cômica da vida privada na República. NOVAIS, Fernando A.;SEVCENKO, Nicolau. História da vida privada no Brasil: vol. 3: República: da belle époque à era do rádio.São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 364. 130
  • 131. gim nem cachaça, nem quero beber mais nada, só quero agora teus lábios minha adega divinizada.” “As Garotas”, por não serem figuras demasiadamente perfeitas, se encaixaram no perfil do “novo herói” descrito por Gilles Lipovetsky, pois apresentam uma atitude cool frente à Uma situação complicada para uma boa moça de família: vida, mesmo tendo sido criadas em um cair na farra do carnaval e extrapolar no álcool. “As Garotas” encaravam tudo com bom humor e sem maiores período anterior 275 : “O novo herói não dramas. Fig. 51 Coluna “As Garotas do Alceu”: “A ressaca das se leva à sério, desdramatiza o real e Garotas”. 09 de março de 1946. Texto Alceu Penna. caracteriza-se por uma atitudemaliciosamente desprendida ante os acontecimentos (...) não há entrada para ninguém quese leve a sério, ninguém é sedutor se não for simpático.” 276 Mesmo diante da simpatia das ilustrações, os textos da coluna, aliados às imagens,não seriam sozinhos tão eficazes em disseminar a malícia na coluna, se não fosse pelohumor contido neles. Esse recurso proporcionou um desvio da seriedade dos assuntosabordados, permitindo, ao mesmo tempo, exprimir de uma forma despretensiosa idéias nãotão aceitas para os padrões conservadores femininos. Aliás, essa será uma prática bastantecomum entre os humoristas em geral, que irão explorar o riso para criticar realidades, sem,275 As “Garotas” podiam ser figuras perfeitas esteticamente, mas seus comportamentos não o eram, poisficavam de ressaca, tinham muitos namorados e paqueravam abertamente, atitudes que violavam as normasde bom comportamento da época. Essa característica vai ao encontro das idéias de Gilles Lipovetsky aodiscorrer sobre as facetas do humor na pós-modernidade, ao falar do “novo herói”, que é descontraído mesmoem situações tensas, exemplificando com personagens como James Bond, que por essa atitude sãoextremamente sedutores e populares. In: LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaio sobre oindividualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio DÁgua, 1983, p. 132.276 LIPOVETSKY, Gilles. Op cit, p. 132. 131
  • 132. contudo, perder de vista a descontração: “Os humoristas quase sempre são mais graves do que possam parecer à primeira vista, sob o disfarce anedótico de uma piada.” 277 Na seção os textos casam-se com as imagens. Se apenas De maneira a não confrontar, observássemos a imagem das “Garotas” não conseguiríamos entender a malícia colocada: a aluna que seduz o professor. Aparentemente, elas apenas estão cercas de livros, preocupadas o humor era um recurso que criava com as provas. uma atmosfera de duplicidade, ou Fig. 52. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas em provas”. 29 de outubro de 1955. Texto A. Ladino. seja, algo que nunca se diziaabertamente, mas se insinuava nas entrelinhas: “(...) o cômico também sempre constituiu,no caso do Brasil em especial, uma forma de sublimar emoções.” 278 A seção “Garotas em provas”, em 29 de outubro de 1955, explorava o duplosentido: “Não sei para que prova escrita. Se o professor fosse mais inteligente e menosmíope veria logo que meu saber está na cara.” Esse exemplo fornece uma dimensão dealgo socialmente condenável até os dias de hoje: a aluna seduzir o professor. No caso, apassagem remete à investida interesseira da “Garota”, que tenta conseguir uma nota melhorcom a utilização dos seus atributos físicos. Os textos da coluna alcançaram as suas leitoras, sem esbarrar em constrangimentosou pudores, ao dizer sem querer dizer, disfarçando o que intencionava manifestar, algo quenão funcionaria sem a dimensão do cômico:277 BARBOSA, Francisco de Assis. In: ZIRALDO. 1964-1984: 20 anos de prontidão. Rio de Janeiro:Record, 1984, p. 7.278 TOMÉ, Elias Saliba. Op cit, p. 364. 132
  • 133. “Há no humor uma vocação dialética espontânea, que o leva a questionar os princípios que enrijecem as certezas que se cristalizam, as conclusões que se pretendem definitivas. O humor força a consciência a se abrir para o novo, para o inesperado, para o fluxo infinitamente rico da vida, para a inesgotabilidade do real.” 279 “Na barraca das Garotas”, em 5 de novembro de 1955, exemplifica a duplicidadeimputada aos engraçados textos da coluna, que, se colocados de forma mais direta, nãoseriam possíveis de estar em uma revista familiar da época. Nessa seção as ilustrações seencontram na praia e munidas de más intenções, atrás de uma companhia masculina: “Nabarraca que se expande, com franjas ao derredor, se a hospitalidade é grande, a hospedeiraé maior.” Pode-se entender nas entrelinhas, também, que a figurinha desejava estreitar asaproximações, talvez, para algo além dos olhares, uma atitude complicada para uma moçade família, que desejava manter a sua reputação. Mesmo diante da simpatia das ilustrações, os textos da coluna, aliados às imagens,não seriam sozinhos tão eficazes em disseminar a malícia na coluna, se não fosse pelohumor contido neles. Esse recurso proporcionou um desvio da seriedade dos assuntosabordados, permitindo, ao mesmo tempo, exprimir de uma forma despretensiosa idéias nãotão aceitas para os padrões conservadores femininos. Aliás, essa será uma prática bastantecomum entre os humoristas em geral, que irão explorar o riso para criticar realidades, sem,contudo, perder de vista a descontração: “Os humoristas quase sempre são mais graves doque possam parecer à primeira vista, sob o disfarce anedótico de uma piada.” 280 Na coluna “As Garotas” uma figura feminina atípica foi difundida por meio dostextos e imagens. A relação bem-sucedida entre esses elementos, acrescida do humor,279 KONDER, Leandro. Barão de Itararé: o humorista da democracia. Coleção Encanto Radical. São Paulo:Editora Brasiliense, 1983. p.65.280 BARBOSA, Francisco de Assis. In: ZIRALDO. 1964-1984: 20 anos de prontidão. Rio de Janeiro:Record, 1984, p. 7. 133
  • 134. revelou o talento de um ilustrador e redatores que, como “As Garotas”, não se encaixavamem nenhum tipo de classificação. 134
  • 135. 4.3 Garotas modernas ou emancipadas? Uma análise imagética e textual da coluna A relação particular estabelecida entre o corpo e a moda na coluna “As Garotas doAlceu” nos aponta para uma incerta realidade da mulher brasileira. A análise imagética etextual da coluna procura esclarecer até que ponto as imagens da emancipação femininavão ao encontro das figuras de Alceu Penna e em que momento elas se separam. As seções a serem estudadas, a seguir, foram escolhidas por representarem oconstante conflito entre a ousadia e o recato protagonizado pelas “Garotas”. Elasenfatizam, também, como o corpo e a moda se manifestam nessa aparente contradição. Em “Garotas de Sarongs”, de 10 de abril de 1943, as ilustrações aparecemadornadas com colares e usando saias floridas. Esse traje, constituído de um pedaço detecido envolto nos quadris, é popular, sobretudo, na Ásia e nas ilhas do Pacífico. Segundoo texto, escrito pelo próprio Alceu Penna, elas trouxeram essa moda para as praias cariocasprovando estarem sempre por dentro das inovações. O traje aparece como novidade e servirá para atrair o olhar feminino ansioso porimitar “As Garotas”. É fato também que, pela sensualidade com que são ilustradas e pelaexpressão corporal em pose, como se as “Garotas” estivessem sendo observadas, ésugerido que haveria uma apreciação masculina. A moda dos Sarongs aparece como ponto central da coluna, mas o corpo dasilustrações é também um protagonista. Em uma passagem da coluna, a relação entre ocorpo e a moda avança para além das imagens: “Sabes qual a diferença entre as Garotas deontem e de hoje? As Garotas de ontem costumavam exibir as modas. Mas hoje, com ossarongs, as modas exibem as Garotas.” 135
  • 136. Fig.53. “Garotas de Sarongs” em 10 de abril de 1943. Texto Alceu Penna. “As Garotas” convidam o leitor a apreciar abeleza dos seus corpos e chamam a atenção das leitoras para uma nova moda, inspirada nos trajes havaianos chamadosSarongs. A coluna dialoga com moças e rapazes ao mesmo tempo. Uma diversidade de beldades são ilustradas porPenna, desde o tipo morena da pele bronzeada até a loura platinada de pele alva. Os Sarongs combinavam com todas! Esse trecho evidencia o corpo, estabelecendo-o como parte importante dacomposição da moda e da beleza feminina. Ela sublinha uma tendência, cada vez maior, dea moda exibir e acentuar o formato do corpo, e não escondê-lo em enormes quantidades detecido, fato que não deixa de acentuar a íntima relação entre esses elementos: “A relaçãoentre corpo e moda é ambígua, na medida em que a moda atua na formatação do corpo, aovalorizar determinadas zonas, enquanto o corpo limita a moda, impondo proporções,volumes, medidas para a criação do estilista.” 281 “Na terra onde mandavam as Garotas”, de 28 de agosto de 1943, Alceu Penna nosconvida a mergulhar em um universo em que a sociedade está sob o comando dasmulheres, em uma inversão dos papéis entre homem e mulher: “Consta que houve um281 CASTRO. Ana Lúcia. Identidades e Estilos de vida. In: CASTRO. Ana Lúcia. RAMOS. Maria LúciaBueno. Corpo Território da Cultura. São Paulo: Annablume, 2005, p.141. 136
  • 137. reino – isso foi há muito tempo – em que as mulheres mandavam nos homens. Esse reinoera o das amazonas (...) Bom será saber como as coisas corriam naquele tempo que agoraparecem estar voltando.”Fig 54. “Na terra onde mandavam as Garotas” em 28 de agosto de 1943. Texto Alceu Penna.. O ilustrador aspirouum mundo em que as suas graciosas ilustrações estivessem no comando. Longe de estar fantasiando ele mostrou umatendência que começava a se tornar mais consistente para as mulheres brasileiras. Com muito humor, “As Garotas”deixavam de ser, pelo menos nas páginas de O Cruzeiro, o sexo frágil. À primeira vista, a coluna parece nos mostrar um universo fantasioso, se analisadopelo ângulo da sociedade conservadora da época. Entretanto, pelo exame da coluna,notamos que Alceu Penna nos apresenta menos uma situação fantasiosa e mais umprenúncio de que os papéis tradicionalmente impostos às mulheres estavam prestes a sofrermudanças. As ilustrações estão caracterizadas como guerreiras, um papel ocupado na história,sobretudo, por homens. Além dessa alusão, elas estão, em certa medida, incorporandoatitudes típicas masculinas, como a “Garota” que inclina um homem para beijá-lo.Contudo, “As Garotas”, mesmo como guerreiras, não abolem a sensualidade e 137
  • 138. feminilidade, vestindo-se com um uniforme provocante, mostrando bastante as pernas.Pensando assim, especificamente nas vestimentas sensuais, elas ainda servem a um olhomasculino externo, mesmo em uma situação em que parecem estar no comando. Nessa seção o ilustrador parecia tentar codificar para os leitores e leitoras de OCruzeiro uma tendência, ainda tímida, de liberação feminina. Essa mensagem eracontundente, principalmente para as leitoras, pois mostrava uma mulher mais liberada,mas, ao mesmo tempo, bela e feminina, quebrando o estereótipo da feminista, que porquerer uma igualdade maior entre os sexos era tachada de feia e rabugenta. Estava implícito na visão de Alceu Penna que, para experimentar posiçõesmasculinas na sociedade, as mulheres não precisariam encarnar linhas austeras nocomportamento e no vestir, o que constituiu um exemplo e tanto para as leitoras: “Algumasimagens nos levam a rememorar, outras a moldar nosso comportamento; ou a consumiralgum produto ou serviço; ou a formar conceitos ou reafirmar pré-conceitos que temossobre determinado assunto; outras despertam fantasias e desejos.” 282 Em “Três Garotas e Páris na sinuca”, de 24 de julho de 1943, Alceu Penna recriauma cena mitológica em que o deus Páris premia com uma maçã a deusa mais bonita,como escreve o redator Vão Gôgo: “Senhoras, seus encantos a sua beleza é um tesouro, amais bela ganhará uma rica maçã de ouro.” Minerva e Juno são rejeitadas por Páris porterem mais atributos intelectuais do que físicos. Ele escolhe Vênus, porque ela tem a belezacomo seu atributo maior: “Para falar mesmo a verdade seu presidente da mesa tenho sóvivacidade e um bocado de beleza.” O tema dessa coluna nos revela a mulher como uma visão que satisfaz ao olhomasculino. A mulher só é notada pelos seus atributos físicos, relegando a sua identidadeàquela imagem idealizada.282 KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na trama fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial, p.44. 138
  • 139. Fig. 55. “Três Garotas e Páris na sinuca” em 24 de julho de 1943. Texto Vão Gôgo. As Garotas equilibram signos doconservadorismo e da ousadia com muito cuidado. Se por um lado são objetos de desejo masculino, por outro não seinibem ao mostrarem boa dose de pele para os leitores de O Cruzeiro. De acordo com Berguer, dentro de si a mulher carrega uma porção feminina, avigiada, e outra masculina, a vigilante, que observa a sua imagem tal como deve serapresentada ao homem: “O vigilante da mulher dentro de si própria é masculino: a vigiada,feminina. Assim, a mulher transforma-se a si própria em objeto – e muito especialmentenum objeto visual: uma visão.” 283 O corpo da ilustração central, diferentemente das outras duas, está seminu e osseios estão cobertos por um simples leque. Todos os olhares se convertem para ela.Podemos inferir que ela seria a Vênus, premiada pela sua incrível beleza, e talvez por issoesteja com o corpo mais exposto que as outras figuras. Mesmo quando a coluna trata amulher de forma conservadora, ela ousa ao apresentar o corpo quase nu em suas páginas.283 BERGUER. Op cit, p. 51. 139
  • 140. Em “Garotas, Maio e casamentos”, de 1 de maio de 1954, as “Garotas” sãomostradas inspiradas a se casar, principalmente no mês considerado o da noivas: “Vou fazer uma novena para meu santo milagroso, para ver se ele tem pena, e me remete um esposo”. O texto mostra a urgência e pressa para que se concretize o casamento, colocado como ritual muito importante e, como de fato era, para a mulher da época: “Proclamava-se que o casamento era ‘o estado perfeito’ e também uma obrigação à qual ninguém poderia se furtar.” 284 As cores predominantes são o azul no fundo e branco na roupa das ilustrações,representando a pureza entregue ao noivo. O vermelho aparece, embora em menorquantidade, provavelmente, indicando a conquista amorosa e o romance. A posição corporal das ilustrações, especialmente a maior, novamente indica umobservador masculino externo. Entretanto, as imagens das noivas “Garotas” suscitam,também, uma apreciação feminina, já que o casamento era um evento muito esperado pelasmoças da época, sendo a coluna uma boa vitrine para elas: “Bela, mulher e imagem sãotermos que estão tão intimamente associados que quase se confundem. Homens emulheres, estamos sujeitos às seduções terrivelmente associadas da imagem e da belezafeminina imaginada.” 285 A temática da seção, mesmo essencialmente tradicional, desvia dessa característicacom o emprego de um determinado texto, em um tom bem-humorado e irônico, remetendoa uma faceta não tão comportada das “Garotas”: “Maio é o mês por excelência doscasamentos e por isso mesmo é o ideal das Garotas....esses anjos de candura.” Esse recursocoloca, mais uma vez, o recurso do riso, enfatizando a duplicidade nos textos de formadespretensiosa.284 BESSE, Susan. Modernizando a desigualdade: reestruturação da ideologia de gênero no Brasil 1914-40.São Paulo: Universitária SP, 1999, p. 73.285 DUBY, Georges; PERROT, Michelle. Op cit, p.140. 140
  • 141. Fig 56. “Garotas, Maio e casamentos” em 01 de maio de 1954. Texto A. Ladino. Como qualquer mocinha da época, todaGarota desejava se casar em um modelo luxuoso. As ilustrações se aproximaram das suas leitoras ao desejarem também osonho do matrimônio, mesmo que esse lado ficasse um pouco de lado na maioria das vezes. Em “Garota, o peixe morre pela boca!”, de 29 de setembro de 1956, o redator EdgarAlencar, o A. Ladino, escreve: “Garotas, se você quer segurar o preferido e, logo queliberem, transformá-lo em um bom marido, a tarefa é muito pouca, nada tem deextraordinária: basta só algumas gotas da velha arte culinária, pois vocês sabem, Garotas,que o peixe cai pela boca.” Essa edição nos remete ao tema da identidade feminina ligada às atividadesdomésticas, como a culinária, muito em voga com a figura da “rainha do lar”, após aSegunda Guerra Mundial. Uma moça disposta a conseguir um bom partido deve mostrarcomo é prendada. Essa é uma exigência masculina e revela como ele quer vê-la, atuando 141
  • 142. como construtor da sua identidade: “O seu próprio sentido daquilo que é, é suplantado pelosentido de ser apreciada como tal por outrem.” 286Fig 57. “Garota, o peixe morre pela boca!” em 29 de setembro de 1956. Texto A. Ladino. Toda mocinha da época quedesejasse possuir um leque extenso de pretendentes deveria cultivar as prendas domésticas como a culinária. As Garotas,mesmo não levando jeito para a coisa, se esforçavam bastante para agradar os rapazinhos, incorporando a identidadefeminina tradicional. A posição corporal das ilustrações é direcionada para um olhar externo, ou seja, aum espectador, por sinal masculino. No canto esquerdo superior, a “Garota” olha para esseespectador, como para se certificar de que seu olhar está lá, observando e avaliando, fatocomprovado pelas ilustrações menores, que exibem os seus quitutes. A “Garota” ao centro,que coloca uma iguaria na boca de um rapaz, demonstra que está ao seu dispor, propondorealizar os maiores caprichos gastronômicos. Nota-se que, apesar de estarem em uma atividade doméstica como a culinária, nãoestão mal arrumadas, pelo contrário, estão maquiadas e penteadas, com uma roupa, mesmo286 BERGUER, Jonh. Op cit, p. 50. 142
  • 143. que adequada à cozinha (com o avental), bem composta. Essa evidência está de acordocom a norma rígida com que a aparência era regida, em um momento em que aformalidade, até para os homens, era um imperativo e a beleza para as mulheres, umaordem, conquistada com uma boa maquiagem: “A maquiagem é a única expressãopossível, ou mesmo a única verdade. E também construção voluntária, objeto deperseverança, de determinação (...).” 287 É interessante reparar que há uma grande atenção, de forma geral na coluna, para acor vermelha. Retomo nesse ponto o fato de que Alceu Penna era daltônico. Uma pessoacom visão normal é capaz de ver as cores tais como elas são, podendo fazer, portanto,combinações que lhe agradam aos olhos, prestando atenção ou não no significadointrínseco a elas. O ilustrador, por ser daltônico, leva a crer que escolhia as cores mais pelarepresentação do que pela sua beleza. Esse pensamento nos apresenta uma dimensãocuidadosa na escolha das cores empregadas na coluna, pois provavelmente não eram feitasao acaso. O vermelho como cor recorrente nas ilustrações remete ao perfil sedutorconstante das “Garotas”, bem como à sua malícia e volúpia. Nessa edição em especial, o vermelho é a cor que mais se sobressai, presente nodetalhe do avental da “Garota” central, no título da coluna, no suéter da ilustração no cantodireito inferior, no avental e fita de cabelo da “Garota” no canto direito superior. O tema éa sedução, sem dúvida, mas nos moldes conservadores, ou seja, a mulher que atrai o sexooposto pelas prendas de futura esposa. O vermelho entra como a cor do desejo, daconquista e parece que, por essa ser discreta, a sua utilização também o é: “Nas artesvisuais, a cor não é apenas um elemento decorativo ou estético. É o fundamento daexpressão (....)” 288287 VIGARELLO, Georges. Op cit, p. 167.288 MODESTO, Farina. Psicodinâmica das cores em comunicação. São Paulo, 1986, p.23. 143
  • 144. Mesmo abordando um tema conservador como a mulher no lar, a coluna fornecepistas discretas de que “As Garotas” não serviam muito para esse tipo de papel. Esse fatonão seria plenamente percebido sem a ajuda do texto, que, mesmo reforçando, conseguecontradizer a imagem que está sendo mostrada: “Não há nenhum conflito entre os doistipos de informação. Cada uma tem as suas especificidades. Mas as implicações danatureza universal da informação visual não se esgotam em seu uso como substitutivo dainformação verbal.” 289 O texto consegue imputar uma outra perspectiva à imagemmostrada: “Mexer com massas, que espiga! Vou meter mãos pelos pés, que esse rolo depastéis só serve mesmo é para briga.” Em “Uma Garota infernal”, de 19 de outubro de 1957, a “Garota” é ilustradavestindo-se de capetinha, com tridente e rabo pontudo. Essa imagem, apesar de nos remetera uma figura má, tende a encantar e seduzir o espectador. A “Garota” olha fixamente paraele, em uma posição corporal aberta e convidativa. A roupa é uma espécie de collant, querealça as formas da ilustração. A análise que tendemos a fazer desse exemplar da coluna é que ela contém umafigura feminina maliciosa. Ao mesmo tempo, também podemos perceber uma imagem nosmoldes tradicionais, que parece ter como objetivo preencher os desejos masculinos. A cor predominante na coluna, no caso, é novamente o vermelho, refletindo asedução, mas também sinalizando o perigo: “A paixão aquece o fogo. Há o jogo entre oamor e pecado e uma relação com o fato: o vermelho como representante do fogo,aquecerá os amantes e o mesmo fogo indicará a cor da proibição: não toque no fogo.” 290Esse perigo alerta os rapazes incautos a tomarem cuidado com o poder que essas figurasexercem sobre eles.289 DONIS, A. DONDIS. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 185.290 GUIMARÃES, Luciano. A cor como informação: a construção biofisica, lingüística e cultural dasimbologia da cores. São Paulo, 2000, p. 118. 144
  • 145. Fig 58. “Uma Garota infernal” em 19 de outubro de 1957. Texto A. ladino. A “Garota” corrompia os mais incautosrapazes. Ela encarnou nessa edição a mulher tentadora, que leva os homens a cometer loucuras. Como de costume, asilustrações demonstravam muita intimidade com seus corpos, sem o receio de explorar a sensualidade, algo poucoincentivado para as moças de reputação. Nesse mesmo sentido, a mulher é representada como a tentação, o perigo que levaos homens à perdição, tal como o exemplo de Adão e Eva, quando essa come a maçãproibida e os condena a abandonar o paraíso. Aqui está implícito que a mulher éresponsável pelos deslizes masculinos, e não ele próprio. Esse é um posicionamento que leva a figura feminina ao constante sentimento deculpa ao usar a sedução. A construção da sua identidade dá-se pelo olho masculino, ouseja, tal como ele quer vê-la, e não como ela é de verdade, imputando um sentimento deculpa e embaraço em relação ao seu corpo. Essas atitudes são originadas da visãopecaminosa em relação à mulher, afirmadas pela tradição cristã ocidental, como salientaBryan Turner: “Meu argumento é que, essas atitudes frente ao corpo são, ao menos em 145
  • 146. parte, um reflexo do conjunto da tradição cristã do Ocidente. Meu corpo é carne: é o localdo apetite corruptor, do desejo pecaminoso e da irracionalidade privada.” 291 Os versos de A. Ladino adicionam elementos não percebidos pela apreciação daimagem em si: “Garota cheia de bossa, como o Petróleo, bem nossa, tropical, primaveril,você, Garota flamante, é um hino belo e vibrante, à pujança do Brasil.” Esse trecho da coluna sublinha uma associação entre a brasileira e a sensualidade,entretanto de uma forma um tanto quanto nacionalista. Esse trecho parece apontar para osurgimento da mulher brasileira tipo exportação. Esse perfil associou os predicados e asensualidade dessa figura feminina às suas raízes miscigenas, fato ancorado no mito dastrês raças (branco, índio, negro) criado no período do Estado Novo para forjar uma unidadenacional: “A mestiçagem brasileira nunca foi um fenômeno homogêneo. Os defensores domestiço como símbolo nacional tiveram que escolher, entre várias mestiçagens ocorridasno Brasil aquelas que melhor se enquadravam nos seus projetos de identidade nacional.” 292Essa relação talvez comece a surgir com mais força no momento e, provavelmente, oredator, assim como intelectuais da época se inspiraram nessa suposta particularidade dopovo brasileiro para explicar essa característica. É tendencioso colocar “As Garotas do Alceu” em qualquer tipo de rótulo:modernas, emancipadas, comportadamente ousadas. No entanto, elas não parecem seencaixar em nenhum deles, sendo isso uma característica constante, de uma forma geral,nas seções pesquisadas. Elas não eram a “melindrosa”, a “rainha do lar” ou as “feministasfeias”, eram outra coisa no meio desses estereótipos. A verdade é que podemos, de maneira geral, interpretar as imagens da coluna pordiversos ângulos e, assim mesmo, em todos, modelos novos e antigos de mulher serão291 TURNER, Bryan. S. El Cuerpo y la sociedad: exploraciones em teoria social. México: Fondo de CulturaEconômica. 1989, p. 33292 VIANNA, Hermano. Op cit, p.68. 146
  • 147. apresentados convivendo ou entrando em conflito entre si: “Por definição, as imagensvisuais sempre propiciam diferentes leituras para os diferentes receptores que as apreciamou que dela se utilizam enquanto objetos de estudo.” 293 Se existiu uma intenção, algo discutível, por parte do autor Alceu Penna e doconjunto de redatores que colaboraram com a coluna, foi a de não estabelecer nenhum tipode classificação da mulher. A coluna demonstrou as inúmeras situações em que o novo e oantigo se esbarravam e como “As Garotas” lidavam com eles. Como ser moderna e aomesmo tempo não ficar falada? Até onde ir com o meu namorado, sem que ele pense quesou demasiadamente experiente? Como aproveitar as ousadias da moda sem, contudo, servulgar? Tudo indica que esses questionamentos pertenciam tanto às “Garotas” quanto amuitas mocinhas no período de vigência da coluna. É fácil entender, assim, por que acoluna foi tão popular. O diálogo e a identificação existiam entre a coluna e as leitoras, enão o discurso normatizador. A coluna não estava preocupada em estabelecer um padrão de comportamento entreas suas leitoras, já que as ilustrações eram em si contraditórias. É fato que a coluna refletiua sociedade da época, em processo de intensas modernizações, fruto de avanços naindústria e urbanização. Os novos padrões conviviam com os velhos, já anunciando que osvelhos estavam fadados a desaparecer. Alceu Penna nos deixou uma sugestão de ummodelo de mulher mais independente e individual, que, mesmo vivendo em uma sociedadeainda conservadora, muitas vezes prestava atenção em seus anseios e sonhos, colocando-seem primeiro lugar em relação ao homem e aos papéis tradicionalmente impostos a ela.293 KOSSOY, Boris. Op cit, p. 45. 147
  • 148. CONCLUSÃO “As Garotas” viveram seu auge entre as décadas de 1940 e 1950, um momento emque a mulher se via solapada entre anúncios de cremes e pó-compacto, buscandoreinventar-se, inspirando-se no cinema e nas revistas ilustradas, ansiosa por umaredescoberta. Na verdade, a coluna pouco auxiliou na tarefa de imputar uma determinadaidentidade a ela, pois se ocupou mais das contradições que do discurso homogêneo damoral e dos bons costumes. Esse discurso, repleto de regras, que inundavam a literatura e a imprensa,funcionava na realidade como um apoio na verdadeira crise da identidade feminina, que sócresceria com o passar dos anos, como discutido por Betty Friedan: “A imagem públicaque desafia a razão e tem pouco a ver com a realidade, teve o poder de modelarexcessivamente a vida da mulher. Mas essa imagem não possuía tal força se não existisseuma crise de identidade.” 294 A coluna, ao omitir-se dos tradicionais estereótipos femininos, abriu espaço parauma nova figura feminina, que estava querendo emergir. Esse novo tipo de mulher aindanão era a realidade e precisaria esperar os movimentos, a partir dos anos 1960, queprocuraram quebrar valores tradicionais profundamente arraigados: “O movimento jovemda década de 1960 não foi apenas altamente inovador em termos políticos, foi, talvez, antesde tudo, um movimento revolucionário na medida em que colocou em xeque os valoresconservadores da organização social (...).” 295 “As Garotas do Alceu”, ao mesmo tempo em que eram o espelho da mulherpropagada pelas comunicações, de moral conservadora, mas em sintonia com amodernidade, se tornaram figuras marginais, na medida em que fugiam desse padrão em294 FRIEDAN, Betty. Mística feminina. Petrópolis: Vozes, 1971, p.67.295 PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do Feminismo no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo,2003, p. 42. 148
  • 149. direção a um novo modelo. Marilza Mestre fala sobre um conceito de marginalidade naconstrução do feminino, que se aplica ao exemplo materializado pelas “Garotas”: “Natalie Zemon Davies entende por marginalidade a condição daquele (a) que está às margens da média de comportamento aceito socialmente como normal. Ela entende que alguns tendem (por diversas razões contingenciais) a fugir do repertório padrão, e assim ocorre a variabilidade necessária para que novos padrões comportamentais possam ser selecionados pela cultura e que esta sofra as mudanças.” 296 “As Garotas”, mesmo representando um tipo de mulher mais livre das amarras dasociedade patriarcal e dos papéis tradicionalmente atribuídos a ela, não materializaram aemancipação feminina completa. Um quadro da emancipação feminina, em sua formacompleta, apontado por Françoise Thébaud, é a constituição de um espaçoverdadeiramente comum entre homens e mulheres, um espaço de igualdade de direitos eoportunidades, preservando a diferença de identidades. 297 Essa igualdade até hoje não seconcretizou plenamente e, assim, muitas batalhas ainda teriam que ser travadas após operíodo da coluna para que os efeitos da revolução feminina começassem a tomar formasmais concretas. Em um primeiro momento pensei que com o desfecho da dissertação chegaria arespostas mais concretas sobre “As Garotas”. Hoje, olhando para trás, penso que essepensamento só empobreceria a análise e não corresponderia à totalidade do objetoestudado. É, na verdade, difícil lidar com a indefinição. Tive o intuito, inicialmente, dedizer exatamente o que foram as ilustrações de Alceu Penna. No entanto, perceber ascontradições e a profundidade do que elas representaram foi um grande aprendizadoretirado dessa experiência. “As Garotas” foram recatadas e modernas, bobinhas e espertas,296 MESTRE, Marilza. A marginalidade como fator de construção do feminino. Disponível em:http://www.utp.br/psico.utp.online/site1/artigo_marilza_mestre1.pdf, p. 3. Acessado em 3 de março de 2007.297 DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das mulheres: o século XX, v.5. Roma: Afrontamento,1991. 149
  • 150. doces e ásperas, entre tantos outros paradoxos que as tornam praticamente impossíveis dedefinir. 150
  • 151. FONTES E BIBLIOGRAFIA:1- Arquivos, acervos e bibliotecas consultadas:Biblioteca do Centro Universitário Senac. SPBiblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Estadual deCampinas. UNICAMPBiblioteca Pontifícia Universidade Católica. PUC-MGBiblioteca Pública do Estado de Minas Gerais Luiz de Bessa. BHArquivo do Jornal Estado de Minas. BHAcervo pessoal Thereza de Paula Penna. RJ2- Exposições visitadas:“As Garotas do Alceu”. Museu de Arte da Pampulha. Belo Horizonte. 18 de abril de 2005a 01 de maio de 2005“Carmem Miranda para sempre”. Memorial da América Latina. São Paulo. 08 de março a16 de abril de 2006“O Brasil na ponta do lápis: Alceu Penna, modas e figurinos”. Centro Universitário Senac.São Paulo. 09 a 26 de maio de 2007 - Campus Universitário Senac - SP3- Eventos:Evento Minas Cult. Desfile de estilistas mineiros, sob a direção de Paulo Borges,inspirados pelo trabalho de Alceu Penna. Praça da Estação. Belo Horizonte. 16 de abril de20051. Fontes e Bibliografia1.1. Fontes1.1.1. Fontes oraisThereza de Paula Penna. Rio de Janeiro: 01 fevereiro de 2006, 07 de junho de 2006, 02novembro de 2006. 151
  • 152. 1.1.2. Fontes escritas:O, CRUZEIRO (Acervo Jornal Estado de Minas)1928 – 1980“As Garotas do Alceu”. In: O CRUZEIRO (Acervo Jornal Estado de Minas)1938 – 1964CIGARRA, A (Acervo Jornal Estado de Minas)1930 – 1950ESTADO DE MINAS (Arquivo Estado de Minas)16/04/00CASTRO. Ruy. Texto de abertura da exposição “O Brasil na ponta do lápis: Alceu Penna,modas e figurinos”. Centro Universitário Senac-SP. Maio 2007HOLLANDA, Heloisa Buarque. Texto manuscrito. Rio de Janeiro, 2006 (mimeo).MARINA, Anna. Texto manuscrito. Belo Horizonte, 2006 (mimeo). 09 de novembro de2006.1.2 Catálogos de exposições:Apresentação do catálogo da exposição “Garotas do Alceu”, realizada em julho de 1983,no Palácio das Artes.1.3 Memórias e Biografias:CARVALHO. Luiz Maklouf. Cobras criadas: David Nasser e O Cruzeiro. São Paulo:Senac, 2001CASTRO, Ruy . Carmem: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005DÓRIA. Carlos. Bordado da Fama: Uma biografia de Dener. São Paulo, 1998JUNIOR, Gonçalo. Alceu Penna e as Garotas do Brasil: moda e imprensa 1933/1980.São Paulo: Clube dos Quadrinhos, 2004LEÃO, Danuza. Quase tudo: memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2005MORAIS. Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 152
  • 153. NETTO. Accioly. Império de Papel: Os bastidores de O Cruzeiro. Porto Alegre: Sulina,1998NUNES. Maria Aparecida (org). Correio Feminino. Qualidades para tornar a mulher In:Correio da Manhã. LISPECTOR, Clarisse. 22 de janeiro 1960SANTOS. Joaquim Ferreira dos. Feliz 1958: o ano que não devia terminar. Rio de Janeiro:Record, 2003VILLAS. Alberto. O Mundo acabou. São Paulo: Globo, 20061.4 Obras e textos literários:MILLÔR. Fernandes. Apresentações. Rio de Janeiro: Record, 2004PESSOA. Fernando. Não sei quantas almas tenho. Disponível em:http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v096.txt. Acessado em 19 de junho de 2007.2. Bibliografia2.1. Obras de referência:CASTRO, Ruy. Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo: Companhia dasLetras, 1999PAES. José Paulo.MASSAUD. Moisés. Pequeno dicionário de literatura brasileira. SãoPaulo2.2 Livros, teses, relatórios e artigos científicos:ABREU. Regina. A capital contaminada: construção da identidade nacional pela negaçãodo espírito carioca. In: LOPES. Antônio Herculando. (org) Entre Europa e África: ainvenção do carioca. Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa: Top books, 2000ACCIOLY. Aluízio Ramos. MARINHO. Inezil Penna. História e organização daEducação Física e dos Desportos. Rio de Janeiro: Batista de Souza, 1956ADELMAN. Mirian. Mulheres atletas: re-significações da corporalidade feminina. In:Estudos feministas, Florianópolis 11(2): 360, julho-dezembro 2003, p.446. Disponível em:http://www.scielo.br/pdf/ref/v11n2/19131.pdf. Acessado em maio de 2007 153
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  • 158. MELLO. João Manuel Cardoso de. NOVAIS. Fernando A. Capitalismo Tardio esociabilidade moderna. In: SCHWARCZ. Lilia Moritz (org.). História da Vida Privadav.04. São Paulo: Companhia das letras, 1998MENDES, Valerie. LA HAYE, Amy. A moda do século XX: Martins Fontes, 2003MESTRE. Marilza. A marginalidade como fator de construção do feminino. Disponívelem: http://www.utp.br/psico.utp.online/site1/artigo_marilza_mestre1.pdf, p. 03. Acessadoem 03 de março de 2007.MIRA. Maria Celeste. O leitor e a banca de revista: a segmentação da cultura no séculoXX. São Paulo: Olhos D´água/ FAPESP, 2001MODESTO. Farina. Psicodinâmica das cores em comunicação. São Paulo: EdgardBlucher, 1986MORIN. Edgar. As estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio,1989MOURA. Gerson. O Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana. SãoPaulo: Brasiliense, 1984SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo: ensaios. Rio de Janeiro: Codecri, 1979OLIVEIRA, Lucia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, Ângela Maria de Castro.Estado novo: ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1982ORTIZ. Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural.São Paulo: Brasiliense, 1994______________Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985,p. 42OWENSBY. Brian P. Intimate Ironies: modernity and the making of middle class inBrazil. Califórnia: Stanford University Press, 1999PASSERINI, Luisa. A Juventude, metamorfose da mudança social. Dois debates sobre osjovens: a Itália fascista e os EUA da década de 1950 . In: História dos Jovens volume 02.São Paulo: Companhia das Letras, 1996PEREIRA. Simone Luci. Imprensa e Juventude nos anos 50. In: INTERCOM. SociedadeBrasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXIV Congresso Brasileiro deCiências da Comunicação, p. 03. . Disponível em:http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/4373/1/NP2PEREIRA.pdf.Acessado em 10 de maio de 2006PINTO. Céli Regina Jardim. Uma história do Feminismo no Brasil. São Paulo:Fundação Perseu Abramo, 2003 158
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  • 161. JORNAL DO BRASIL.Governo concede TVS aos grupos Bloch e Sílvio Santos. In: 1°Caderno. 20 de março de 1981, p.15.4. Artigo publicado em meio digitalCHARLES DANA GIBSON´S ELEGANT DRAWINGS CAPTURED THE SPIRIT OFAN AGE, p. 04. Disponível em http://www.gibson-girls.com/index.html 161
  • 162. CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕESINTRODUÇÃOFig 01. Alceu Penna desenhando. Sem data. Acervo Gabriela Ordones PennaFig.02 a. Figurino inspirado na ópera Carmem. Sem data. Acervo Thereza Penna.Fig 02 b. Figurino Bolero. Sem data. Acervo Thereza Penna.Fig. 03 a e 03 b. “Cada terra tem seu uso”. Sugestão de fantasias de Alceu Penna, para OCruzeiro. 04 de fevereiro de 1939. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 04 a Croqui de modelo do costureiro Balenciaga, Sem data. Acervo Thereza PennaFig. 04 b Croqui de um modelo do costureiro Fath. Sem data. Acervo Thereza PennaFig. 05 Cartaz sabão Sulfuroso. Sem data. Acervo Thereza Penna.Fig. 06 a 06 b Croquis de Alceu Penna para shows ou cassinos. Sem data. Acervo TherezaPennaFig. 07 a Capa livro “J Carlos: Época, vida e obra” de Álvaro Cotrim (Alvarus).Fig. 07 b Ilustração de Erté “Alphabet Cloak”. Sem data.Fig 08 a Figurino de Alceu Penna para Elza Soares. Show Brazil Export, no Canecão.1972. Acervo Thereza Penna.Fig. 08 b Croqui para o figurino da “Viúva do Palhaço” do show da Rhodia Stravaganza.1969. Acervo Thereza Penna.Fig.09 a Capa revista Tricô e Crochê. Exemplar pertencente à Mercedes Penna, mãe deAlceu. Sem data. Acervo Thereza Penna.Fig. 09 b Ilustração Calendário Santista. 1945-46. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 10a. Croqui feito para show. Possivelmente para o Brazil Export no Canecão em1972. Acervo Thereza Penna.Fig. 10 b. Croqui feito para Ducal Jeans e Madras denominado Golden Years 1973.Acervo Thereza Penna.CAPITULO 01Fig 11. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas em Copacabana. 04 de janeiro de 1941.Texto Lyto. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas. 162
  • 163. Fig 12 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas de fevereiro”. 07 de fevereiro de 1942.Texto Lyto. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 12 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Municipal com as Garotas”. 18 de fevereiro de1956. Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 13 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas de setembro”. 05 de setembro de 1942.Texto Millôr Fernandes. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 13 b. Coluna “As Garotas do Alceu”. “Garotas em férias”. 17 de novembro de 1945.Texto Vão Gôgo. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 14 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garota Cinema”. 26 de novembro de 1938.Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 14 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas e a luta de Box. 27 de julho de 1940. OCruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 15. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas & Carnaval em 14 de fevereiro de 1942.Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 16 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e a arte da culinária”. 26 de novembrode 1938. O Cruzeiro. Texto A. Ladino. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 16 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Para Agradar as Garotas”. 11 de março de1944. Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de MinasFig.17 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e a comedie française”. 27 de maio de1950. Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de MinasFig. 18. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas no Municipal. Texto Alceu Penna. 25 dejulho de 1942. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de MinasFig. 19 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas em ferias”. Texto A. Ladino. 03 de abrilde 1954. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 19 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Um ônibus e Garotas em pé”. 27 de maio de1950. Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 20. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Sol é maluco por Garotas”. 22 de outubro de1955. Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 21. Coluna “As Garotas do Alceu”. 1° amor das Garotas. Texto sem referência. 10 denovembro de 1945. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 22 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: A beleza das Garotas. Texto Alceu Penna. 01agosto de 1942. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 22 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas e os autógrafos. Texto A. Ladino. 11 deoutubro de 1952. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 23. Coluna “As Garotas do Alceu”. Garotas na areia. Texto sem referência. 10 denovembro de 1945. 163
  • 164. CAPITULO 02Fig. 24a. Capa Cigarra. Sem data. Acervo Estado de Minas.Fig 24 b. Suplemento feminino em A Cigarra. Janeiro de 1945. Acervo Estado de Minas.Fig. 25 a. Capa O Cruzeiro, feita por Alceu Penna. 24 de dezembro de 1938. AcervoJornal Estado de Minas.Fig. 25 b. Capa O Cruzeiro inaugural. 05 de dezembro de 1928. Acervo Estado de Minas.Fig. 26 a. Coluna Lar doce Lar: Mais salgadinhos de salsichas. O Cruzeiro. 13 dedezembro de 1958. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 26 b. Reportagem O Cruzeiro: Vivi! 05 de dezembro de 1938. Acervo Jornal Estadode Minas.Fig 27 a. O Pif Paf. O Cruzeiro 17 de outubro de 1959. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 27 b. O Amigo da Onça. O Cruzeiro 11 de janeiro de 1964. Acervo Jornal Estado deMinas.Fig 28 a. Coluna Elegância e beleza. O Cruzeiro. 06 de julho de 1957. Acervo Estado deMinasFig 28 b. Coluna De mulher para Mulher. O Cruzeiro 27 de julho de 1957. Acervo JornalEstado de Minas.Fig. 29 a. Conto Bahia. O Cruzeiro 08 de outubro de 1938. Acervo Jornal Estado deMinas.Fig. 29 b. Portifólio Modas. O Cruzeiro 17 de julho de 1943. Acervo Jornal Estado deMinas.Fig. 30 a. Reportagem sobre os lançamentos da Maison de Christian Dior, de Alceu Penna,para O Cruzeiro. 28 de agosto de 1957. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 30 b. Reportagem sobre a coleção de Lanvin Castillo, inspirada no Japão, de AlceuPenna, para O Cruzeiro. 03 de agosto de 1957. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 31 a. Reportagem sobre o concurso Miss Brasil 1957, em que Teresinha Morango era avencedora. O Cruzeiro. 06 de setembro de 1957. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 31 b. Reportagem sobre as belezas de Copacabana. O Cruzeiro. 29 de maio de 1943.Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 32. Coluna “As Garotas do Alceu” 19 de novembro de 1938. O Cruzeiro. AcervoEstado de Minas.Fig 33 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: Malas e Garotas. Texto sem referência. 23 denovembro de 1940. O Cruzeiro. Acervo Estado de Minas.Fig 33 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Pausa e meditação das Garotas. Texto A. Ladino.28 de julho de 1956. O Cruzeiro. Acervo Estado de Minas.Fig 34 a. Camille Clifford, atriz, conhecida por ser uma Gibson Girl. 1905.http://www.gibson-girls.com/gibson-3.html. Acessado em 25 de outubro de 2006. 164
  • 165. Fig 34 b. Ilustração Gibson Girl. 1909. http://www.gibson-girls.com/gibson-3.html.Acessado em 25 de outubro de 2006.Fig 35 a. Reportagem Garotas do Alceu. O Cruzeiro 30 de outubro de 1948. Acervo JornalEstado de Minas.Fig. 35 b. Foto desfile Providência dos Desamparados com as damas da sociedade vestidasde Alceu Penna 1948. Acervo Thereza Penna.Fig. 36.a Coluna “As Garotas do Alceu”: Cuidado! Garotas. Texto Alceu Penna. 08 denovembro de 1941. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 36 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas dão aula de moda. Texto Maria Luiza.25 de outubro de 1958. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 37 Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas à postos. Texto sem referência. 17 deoutubro de 1942. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 38 a. Reportagem Calendário Garotas. 06 de dezembro de 1952. O Cruzeiro. AcervoJornal Estado de Minas.Fig. 38 b. Calendário Garotas. Sem data. Acervo Gabriela Ordones PennaCAPITULO 03Fig. 39 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Bicicletas e Garotas” em 05 de Agosto de1946. Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 39 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e equitação” em 16 de janeiro de 1943.Texto Millôr Fernandes. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 40. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas patinando” 19 de janeiro de 1946. TextoVão Gôgo. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 41. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas & New York” 19 de janeiro de 1946. 29de Junho de 1940. Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 42. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas em shorts”. 18 de outubro de 1952. TextoA. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig.43. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e os chapéus novos”. 13 de maio de1939. Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig.44 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas dão cada baixo!”. 01 de novembro de1952. Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig.45 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e camuflagem". 21 de novembro de 1942.Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 46 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas a bordo”. 30 de novembro de 1938.Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas. 165
  • 166. Fig. 46 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Que te quero Garota”. 26 de outubro de 1957.Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig.47 “A mulher em nova edição”. 28 de setembro de 1957. O Cruzeiro. Acervo JornalEstado de Minas.Fig.48 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “O banho das Garotas”. 31 de janeiro de 1942.Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig.48 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas em passeios”. 02 de novembro de 1946.Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig.49 Coluna “As Garotas do Alceu”: “O banho das Garotas”. 31 de janeiro de 1942.Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de MinasCAPÍTULO 04Fig.50 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e o lar”. 31 de julho de 1943. Texto AlceuPenna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 51 Coluna “As Garotas do Alceu”: “A ressaca das Garotas”. 09 de março de 1946.Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 52. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas em provas”. 29 de outubro de 1955.Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig.53. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas de Sarongs” em 10 de abril de 1943. OCruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 54. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Na terra onde mandavam as Garotas” em 28 deagosto de 1943. Texto Alceu Penna. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig. 55. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Três Garotas e Páris na sinuca” em 24 de julhode 1943. Texto Vão Gôgo. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 56. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas, Maio e casamentos” em 01 de maio de1954. Texto A. Ladino. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 57. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garota, o peixe morre pela boca!” em 29 desetembro de 1956. O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas.Fig 58. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Uma Garota infernal” em 19 de outubro de 1957.O Cruzeiro. Acervo Jornal Estado de Minas. 166