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SUMÁRIOAGRADECIMENTOS........................................................................................................
AGRADECIMENTOS       A coluna “As Garotas” esteve presente no imaginário de muitos brasileiros. Assim,escrever sobre uma c...
Agradeço ao meu avô Aluízio Ordones pelo carinho e apoio incondicional. Aosmeus avós Carmelita Gontijo Penna, Josaphat Pen...
suplente na minha qualificação e banca final. À Profa. Dra. Solange Wajnman que aceitouser suplente na minha banca final. ...
RESUMOA moda e o corpo atuam como importantes meios de comunicação da mulher com asociedade. Por meio deles, a mulher esta...
INTRODUÇÃO1- Olá, Garotas, muito prazer           Seria interessante situar o leitor sobre como a coluna “As Garotas do Al...
Gráfico e Direção de Arte e acabei fazendo muitos estágios na área. Completei agraduação, mas já no sexto período (mais da...
2- As Garotas: muitas mulheres em uma representação                                Não sei quantas almas tenho. Cada momen...
Verifiquei que Alceu Penna é explorado em crônicas e textos não acadêmicostambém. Alguns dos autores que trabalham nesse s...
que elas eram muito avançadas para a época, seria uma oportunidade de aprofundar essareflexão.        Os estudos imagético...
3- Estruturação dos capítulos e corpus documental       O primeiro capítulo, “Garotas cariocas e jovens: uma nova perspect...
sociedade. A maneira com que a mulher contemporânea à coluna se relacionava com eles éanalisada, indicando-se, comparativa...
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4- Balizas cronológicas         A coluna “As Garotas” conta ao longo de sua vigência com diversas colaboraçõesde redatores...
Assim, o trabalho terá um recorte cronológico feito pelos textos. O período a serestudado vai do início da coluna em 1938,...
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“Produzia desenhos que atendiam aos variados tipos                                          femininos que compunham seu pú...
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Outros trabalhos se destacam, como os desenhos para o livro de partituras O SapoDourado (1934), de Hekel Tavares, além de ...
Após essa observação, ficou clara a influência de Erté e J. Carlos nos desenhos do                                        ...
Já na década de 1950, devido ao fechamento dos cassinos, Alceu Penna desenvolvefigurinos para o teatro e shows como a peça...
Segundo Thereza Penna, a partir da segunda metade da                               década de 1970, o ilustrador diminui o ...
1. CAPÍTULO.                  “GAROTAS”              CARIOCAS             E       JOVENS:     UMA       NOVAPERSPECTIVA1.1...
disposições pulsionais que articulam a modernidade como experiência existencial eíntima.” 31        Apesar de a revista O ...
de uma tendência geral, o fato se traduz numa ameaça ao capitalismo estrangeiro erepresenta barragem à sua maior expansão....
nacional. 40 O ritmo foi destacado de suas origens, aproximando-se da cultura urbana e doprogresso 41 : “O samba urbano su...
fantasias impecáveis: “Este mês é o                                                                 mês do Momo e as Garot...
desenvolvido através da imprensa,                                                                        do rádio e do cin...
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“As Garotas”, em linhas                                                                      gerais,       absorveram     ...
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  1. 1. CENTRO UNIVERSITÁRIO SENAC Gabriela Ordones Penna Vamos Garotas!Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina. (1938-1957) São Paulo 2007
  2. 2. GABRIELA ORDONES PENNA Vamos Garotas!Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina. (1938-1957) Dissertação de Mestrado apresentada ao Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro, como exigência parcial para obtenção do grau de Mestre em Moda, Cultura e Arte. Orientadora: Profa. Dra. Maria Claudia Bonadio São Paulo 2007 2
  3. 3. P397zPenna, Gabriela OrdonesVamos Garotas!Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina(1938-1957) / Gabriela Ordones Penna – São Paulo, 2007.165. f: il. color.Orientadora: Profa. Dra Maria Claudia BonadioDissertação de Mestrado – Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro –São Paulo, 2007.1. “As Garotas do Alceu” 2. Alceu Penna 3. Imprensa - O Cruzeiro. 4. Mulher –moda e corpo. 5. Rio de Janeiro. I. Bonadio, Maria Claudia. II. Centro UniversitárioSenac - Campus Santo Amaro. Mestrado Moda, Cultura e Arte. III. Título. CDD391 3
  4. 4. Gabriela Ordones Penna Vamos Garotas! Alceu Penna: moda, corpo e emancipação feminina Dissertação de Mestrado apresentada ao Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro, como exigência parcial para obtenção do grau de Mestre em Moda, Cultura e Arte. Orientadora: Profa. Dra. Maria Claudia BonadioA banca examinadora da Dissertação de Mestrado em sessão pública realizada em04/09/07, considerou a candidata: 1) Examinadora: Profa. Dra. Maria Gabriela Marinho 2) Examinadora: Profa. Dra. Denise Bernuzzi Sant´Anna 3) Presidente: Profa. Dra. Maria Claudia Bonadio 4
  5. 5. Dedico esse trabalho à TherezaPenna, que me incentivou e apoiouem todos os momentos, tornandoessa pesquisa um momento dedescobertas e redescobertas. 5
  6. 6. SUMÁRIOAGRADECIMENTOS............................................................................................................................ 07RESUMO.................................................................................................................................................. 10INTRODUÇÃO1. Olá Garotas, muito prazer.................................................................................................................. 112. “Garotas”: muitas mulheres em uma representação....................................................................... 133. Estruturação dos capítulos e corpus documental............................................................................. 164. Balizas cronológicas............................................................................................................................. 195. Ser Alceu Penna é... ser versátil.......................................................................................................... 22CAPÍTULO 1. “GAROTAS” CARIOCAS E JOVENS: UMA NOVA PERSPECTIVA1.1 “Garotas maravilhosas”: Rio de Janeiro 1938 -1957...................................................................... 311.2 O espaço urbano alia-se às cariocas................................................................................................. 461.3 Um broto de “Garota” : a emergência do conceito de juventude................................................. 56CAPÍTULO 2. UMA REVISTA MODERNA: O CRUZEIRO DAS “GAROTAS”2.1 Os Diários Associados: rumo à integração nacional....................................................................... 642.2 O Cruzeiro: a revista dos arranha-céus............................................................................................712.3 Uma história: “As Garotas do Alceu”.............................................................................................. 83CAPÍTULO 3. O CORPO E A MODA DAS “GAROTAS DO ALCEU”: UM ESPELHO DOAMANHÃ3.1 A moda e o corpo das “Garotas”: um reflexo de transformações................................................ 973.2 A ousadia discreta das “Garotas”: objetos de desejo.................................................................... 116CAPÍTULO 4. “GAROTAS”... ALGO A SER INDEFINIDO4.1 Um homem que desenhou mulheres: o olhar diferenciado........................................................... 1254.2 Imagem e texto na coluna “As Garotas”: uma relação humorística............................................ 1294.3 Garotas modernas ou emancipadas? Uma análise imagética e textual da coluna...................... 135CONCLUSÃO......................................................................................................................................... 148FONTES E BIBLIOGRAFIAS.............................................................................................................. 151CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕES......................................................................................................... 162 6
  7. 7. AGRADECIMENTOS A coluna “As Garotas” esteve presente no imaginário de muitos brasileiros. Assim,escrever sobre uma coluna tão significativa e, ao mesmo tempo, pouco explorada pelomeio acadêmico, foi um desafio e, com certeza, não teria conseguido sem a ajuda dealgumas pessoas especiais. Agradeço à Thereza Penna, minha querida tia-avó e irmã de Alceu Penna, quecarinhosamente abriu as portas de seu apartamento no Rio de Janeiro para mim e minhaorientadora a Profa. Dra Maria Claudia Bonadio, nos mostrando o seu acervo sobre oilustrador. Coletamos várias imagens que serviram para a minha dissertação e para oProjeto Figurino: Alceu Penna (2005-2007), bem como para a exposição resultante dele “OBrasil na ponta do lápis: Alceu Penna, modas e figurinos” no Senac-SP (2007). Agradeço a CAPES pelo apoio concedido pela bolsa de estudos, sem a qual nãoteria conseguido concretizar esse percurso acadêmico. Ao DEDOC do Jornal Estado de Minas e a todos os seus funcionários atenciosos.Obrigada em especial à Ivonete, Karla, Irene e Rafael. Sem esse acervo completo, cuidadoe organizado da revista O Cruzeiro e A Cigarra, bem como o de croquis originais dacoluna “Garotas”, eu jamais teria conseguido coletar os dados e imagens que precisava. Obrigada aos meus pais, Aníbal Penna e Patrícia Ordones, que foram o meu porto-seguro e fortaleza nessa caminhada difícil, mas muito compensadora. Seus esforços emprocurar registros sobre a coluna “Garotas” e sobre Alceu Penna, bem como indicarpessoas que eu deveria conversar foram de imensa ajuda. À minha tia, Simone Ordones, que tão generosamente me abrigou em sua casadurante o período do mestrado e tornou possível o meu sonho de escrever essa dissertação. 7
  8. 8. Agradeço ao meu avô Aluízio Ordones pelo carinho e apoio incondicional. Aosmeus avós Carmelita Gontijo Penna, Josaphat Penna e Zélia de Moura Ordones, aondequer que estejam. Tenho muito a agradecer, também, a paciência dos meus irmãos Marina e AluisioOrdones. Vocês foram demais! Não poderia ter chegado até aqui se não fosse a minha excepcional orientadoraProfa. Dra. Maria Claudia Bonadio (queria que me orientasse o resto da vida!), queacreditou em mim e no meu trabalho desde o primeiro momento. Foi generosa eprofissional, me auxiliando e estando sempre à postos quando precisava de qualquer coisa,mesmo que não fosse relativo à dissertação. Obrigado pelos constantes incentivos embuscar novas perspectivas acadêmicas e profissionais. Tenho certeza que você já faz parte,de coração, da família Penna. À Heloisa Buarque de Hollanda e à editora do Caderno Feminino do Jornal Estadode Minas, Anna Marina pelos maravilhosos depoimentos sobre a importância da coluna“As Garotas”. Ao Ruy Castro pela generosidade e disposição em ajudar com o meu trabalho.Obrigada pelo texto de abertura da exposição “O Brasil na ponta do lápis: Alceu Penna,modas e figurinos”, que acabei empregando, com muito orgulho, na minha dissertação. Ao corpo docente do mestrado Moda, Cultura e Arte pelo profissionalismo noensino e a generosidade em compartilhar tantos conhecimentos. Em especial à Maria LúciaBueno Ramos, Ana Lúcia Castro, Eliane Robert de Morais, Magnólia Costa e Luiz OctávioCamargo. Às funcionárias brilhantes Juliana e Tissyana. Às Profas. Dras. Maria Gabriela Marinho e Denise Bernuzzi Sant´Anna, queaceitaram o convite, primeiramente, para estarem na minha banca de qualificação eposteriormente na minha banca final. À Profa. Dra. Maria Eduarda Guimarães por ter sido 8
  9. 9. suplente na minha qualificação e banca final. À Profa. Dra. Solange Wajnman que aceitouser suplente na minha banca final. Agradeço as contribuições para o crescimento do meutrabalho, abrindo novas perspectivas a ele, muitas vezes, despercebidas por mim. Aos meus colegas de mestrado, em especial Adriana Hegen, Juliana Schmitt,Silvana Holzmeister, Celinha, Cris Gurgel, Oneide de Carvalho, Mauro Fiorani, AlexandraRiquelme e a todos que fizeram dessa jornada algo interessante e divertido. À Profa. Daniela Nunes Figueira que, a partir dos desenhos coletados do ilustradorAlceu Penna, coordenou os trabalhos de modelagem resultantes da exposição sobre oilustrador no Senac-SP. Ao Prof. Lázaro Mourilo responsável pela bela montagem. Àsalunas do Projeto Figurino que se dedicaram firmemente no resgate da memória doprofissional. À Giselda Moreira Garcia e Giselle Safar do Centro Integrado de Moda – CIMO,que me proporcionaram horizontes profissionais e uma oportunidade de expor, pelapalestra “Alceu Penna: a trajetória de um designer versátil” (2007), o conteúdo da minhapesquisa de mestrado até aquele momento. Obrigada a Cyro Del Nero que, no início do mestrado, me recebeu, juntamente commeu pai, em sua casa. Sua atenção pela memória de Alceu Penna será sempre lembrada. Às Profas. Ivone Lourdes e Glória Gomide da PUC-MG, bem como ao Prof. CaioCésar Giannini, que sempre me auxiliaram durante a minha graduação em Publicidade ePropaganda na instituição e continuam, até hoje, sendo muito gentis e solícitos. À querida Profa. Dra. Ana Maria Rabelo Gomes, que me auxiliou na época daelaboração do meu anteprojeto para o mestrado. Obrigada pela sua atenção e carinho. Por fim, ao meu querido companheiro Luis André Nobre que tão carinhosamente epacientemente me “suportou” nos momentos de crise, cansaço e desânimo. Sem você nadaestaria completo. 9
  10. 10. RESUMOA moda e o corpo atuam como importantes meios de comunicação da mulher com asociedade. Por meio deles, a mulher estabelece um diálogo com o mundo, refletindo suasaspirações e frustrações. Sendo assim, este trabalho consiste em demonstrar, pelo estudo deimagens da “As Garotas do Alceu”, como Alceu Penna contribuiu para a formação de umaimagem moderna da mulher, na coluna, transmitindo, pelos corpos e a moda das“Garotas”, imagens da emancipação feminina.ABSTRACTThe fashion and the body acts as important medias of the woman with the society. For wayof them, the woman establishes a dialogue with the world, reflecting its aspirations andfrustrations. Being thus, this work consists of demonstrating, through the images´s study of"As Garotas do Alceu", in which way Alceu Penna contributed for the formation of amodern image of the woman, in the column, transmitting, through the bodies and thefashion of the "Garotas", images of the feminine emancipation. 10
  11. 11. INTRODUÇÃO1- Olá, Garotas, muito prazer Seria interessante situar o leitor sobre como a coluna “As Garotas do Alceu” cruzouo meu caminho. Entre tantos assuntos, por que eu escolhi este para ser o objeto da minhadissertação de mestrado? Não que fosse mera coincidência, mas o ilustrador Alceu dePaula Penna é meu tio-avô, irmão do meu avô paterno, Josaphat. Desde pequena, os seusdesenhos estiveram presentes na minha vida, inspirando a imaginação. Era comum meuavô chegar com cópias de trabalhos do Alceu, especialmente no almoço de domingo (comuma Amandita escondida no casaco), pois sabia que eu adorava passar as tardesdesenhando. Aí, uma vez munida de todas aquelas figuras, eu ia, compenetrada, tentarfazer pelo menos um parecido. Quanta presunção a minha! Por muitos anos eu não sabia,pela questão da idade, avaliar aquele trabalho como algo além de belos desenhos. Meu avô, sua irmã Thereza e meu pai, Aníbal, sempre foram grandes fontes deconhecimento do trabalho do ilustrador, pois me “abasteciam” de novos desenhos,reportagens e conhecimentos sobre ele. Sempre gostei de desenhar e apreciava as artesvisuais: Alceu Penna era um “prato cheio”. Quanto mais eu conhecia o seu trabalho, maiseu o admirava e me interessava por um assunto constante em seus trabalhos: a moda. Além da influência do meu tio-avô, tive uma ajuda da minha mãe, Patrícia Ordones,para tomar gosto por moda, pois ela trabalhou, durante um bom tempo, como jornalistanessa área no Jornal de Casa 1 e no Jornal de Shopping 2 em Belo Horizonte. Curioso que, a despeito do meu interesse pelo assunto, optei, na ocasião dovestibular, por Publicidade e Propaganda na PUC-MG. Planejava trabalhar com Design1 Publicação do Diário do Comércio que circula, até hoje, semanalmente, direcionada ao público feminino.2 Publicação dos Diários Associados já extinta. 11
  12. 12. Gráfico e Direção de Arte e acabei fazendo muitos estágios na área. Completei agraduação, mas já no sexto período (mais da metade do curso) eu sabia que não queriatrabalhar como publicitária. Na ocasião, fiz uma reavaliação de interesses e decidi que erahora de me voltar para a moda, que sempre permeou a minha vida, de uma forma ou deoutra. Meu trabalho de conclusão de curso não podia ter seguido outro direcionamento.Meu grupo apresentou um projeto experimental um estudo de site para a marca mineira deroupas Elvira Matilde, que explorava mecanismos para venda de vestuário pela internet. 3Foi a minha primeira experiência acadêmica com a moda e aquilo me instigou a buscar ummestrado. Há algum tempo, eu me interessava em estudar a obra de Alceu Penna,principalmente, porque minha tia-avó Thereza sempre manifestou o desejo em darcontinuidade à sua memória de alguma maneira. A pesquisa do mestrado foi umaoportunidade de concretizar esses objetivos, algo que acabou por me aproximar ainda maisda moda. Essa dissertação, posso dizer, é uma concretização de um sonho, há muito tempoalmejado, em contribuir para o resgate do traço e importância do meu tio-avô, um homem,a meu ver, à frente de seu tempo.3 http://www.elviramatilde.com.br/ 12
  13. 13. 2- As Garotas: muitas mulheres em uma representação Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê. Quem sente não é quem é. Atento ao que sou e vejo, torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo. É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem, assisto à minha passagem, diverso, móbil e só. Não sei sentir-me onde estou , por isso, alheio, vou lendo, como páginas, meu ser (...). 4 Nos últimos anos, têm-se ampliado os estudos sobre a história da moda brasileira,em especial, sobre um personagem importante nessa narrativa: Alceu Penna. No decorrerda minha pesquisa, percebi esforços variados, principalmente desde a década de 1990, nocampo de trabalhos acadêmicos como os de Ruth Joffily 5 , Maria Claudia Bonadio 6 , CarlaBassanezzi e Leslye Bombonatto Ursini 7 e Marina Bruno Santo Anastácio 8 . Outra iniciativa que resgatou a memória do ilustrador foi o Projeto Figurino: AlceuPenna, desenvolvido no Senac-SP, do qual participei colaborando com a pesquisa histórica,que contribuiu para a sua memória instigando alunos e professores. 9 O projeto visou afamiliarizar os alunos de graduação com a obra do ilustrador e a reprodução de looks dealguns de seus modelos. Nesse sentido, as alunas realizaram estudos sobre modelagem daépoca, percebendo os significados da moda e do corpo para as mulheres que eram jovensno período.4 PESSOA, Fernando. Não sei quantas almas tenho. Disponível em:http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v096.txt. Acessado em 19 de junho de 2007.5 JOFFILY, Ruth. Jornalismo de Moda. Jornalismo feminino e a obra de Alceu Penna. Dissertação demestrado apresentada ao departamento de Comunicação da UFRJ, 2002.6 BONADIO, Maria Claudia. O fio sintético é um show! Moda, política e publicidade Rhodia S/A. 1960-1970. Tese de Doutorado. Campinas, 20057 BASSANEZI, Carla. URSINI, Bombonatto Leslye. O Cruzeiro e As Garotas. In: Cadernos Pagu. Núcleode Estudos de gênero. Unicamp, 19958 ANASTÁCIO, Marina Bruno Santo. Garotas do Alceu: moda feminina brasileira nas páginas de “OCruzeiro” entre 1938 e 1958. Monografia, UFRJ, Rio de Janeiro, 2003.9 O Projeto Figurino teve a coordenação geral da Profa Dra Maria Claudia Bonadio e das atividades demodelagem pela Profa Daniela Nunes Figueira. Esse núcleo de pesquisa resultou a exposição “O Brasil naponta do lápis: Alceu Penna, modas e figurinos” no Centro Universitários Senac-SP em maio de 2007. 13
  14. 14. Verifiquei que Alceu Penna é explorado em crônicas e textos não acadêmicostambém. Alguns dos autores que trabalham nesse sentido são Joaquim Ferreira dosSantos 10 , Alberto Vilas 11 e Gonçalo Junior 12 , que lançam informações sobre arepresentatividade do seu trabalho no cenário brasileiro. Eles enfocam, sobretudo, a coluna“As Garotas”, o trabalho mais conhecido do ilustrador. O conjunto de sua obra traz informações importantes sobre a história brasileira, emespecial das mulheres, assim como a imprensa nacional, moda, arte, entre outros,necessitando, portanto, de uma dedicação maior por parte dos estudiosos. Dessa maneira,essa dissertação integra os esforços em ampliar as reflexões sobre a sua produção, emespecial, “As Garotas do Alceu”. Na coluna, o corpo e a moda ocupam posição de destaque, tanto que a maioria dosautores citados neste trabalho que a abordam, tangenciam esses assuntos, de uma maneiraou de outra. Entretanto, mesmo com as valorosas iniciativas, existe uma necessidade deestudo maior sobre eles na coluna “As Garotas”, objetivo que procurei perseguir nessetrabalho. Na ocasião da elaboração do meu anteprojeto, a obra “Alceu Penna e as Garotas doBrasil: moda e imprensa 1933/1980”, de Gonçalo Junior, foi um começo para mim, poisalém de fazer um mapeamento da carreira do ilustrador ele tratava, brevemente, dacontribuição das “Garotas” para o cenário feminino, colocando-as como um exemplo defutura emancipação. Instigada por ela, pesquisei alguns desenhos dele que tinha em casa e confirmei quea mulher era retratada diferencialmente na coluna, principalmente para os padrões moraisvigentes. Isso me chamou a atenção e me interessou, pois, apesar de ser quase um consenso10 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Feliz 1958: o ano que não devia terminar. Rio de Janeiro: Record, 200311 VILLAS, Alberto. O mundo acabou. São Paulo: Globo, 200612 JUNIOR, Gonçalo. Alceu Penna e as garotas do Brasil: moda e imprensa 1933/1980. São Paulo: Clubedos Quadrinhos, 2004. 14
  15. 15. que elas eram muito avançadas para a época, seria uma oportunidade de aprofundar essareflexão. Os estudos imagéticos, juntamente com o auxílio dos textos da coluna, mepareceram bons mecanismos para estudá-la, pois era pela visualidade da coluna (cores,formas, composição, etc.) e pelos textos maliciosos que a figura feminina ousada sedestacava. O corpo e a moda das “Garotas”, juntamente com todos os recursos visuaisempregados, trabalhavam juntos para comunicar uma mulher em processo de transição. Em linhas gerais, este trabalho consiste em demonstrar, por meio do estudo dacoluna “As Garotas do Alceu”, como Alceu Penna contribuiu para a construção de umaimagem moderna da mulher13 , mostrando nos corpos e na moda das “Garotas” “imagensda emancipação feminina” 14 .13 Mulher moderna: compreendo como uma mulher que, apesar de compartilhar de elementos tradicionaisrelativos ao seu papel como mãe e esposa, por exemplo, consegue ir além deles, permitindo-se ter outrasaspirações, como uma profissão, uma vida ligada mais aos prazeres que aos compromissos de um lar, tervários relacionamentos ao mesmo tempo, enfim, experimentar papéis menos tradicionais, gozando, assim, demaior liberdade. O conceito de mulher moderna será trabalhado com maiores detalhes no capítulo 3.14 Entendo como imagens da emancipação feminina um estágio em que a mulher ainda não se libertoucompletamente das amarras da sociedade patriarcal, mas demonstra que já está caminhando para isso. 15
  16. 16. 3- Estruturação dos capítulos e corpus documental O primeiro capítulo, “Garotas cariocas e jovens: uma nova perspectiva”, trazelementos do contexto mostrado pelas “Garotas”. Na parte inicial, procurou-se apresentar eanalisar imagens e textos presentes na coluna caracterizando as ilustrações pelo seu estilode vida, o grupo social, os costumes e preferências. Esse enfoque é relevante, poisconfirma as imagens propagadas na coluna, auxiliando no entendimento do contexto e dasilustrações como figuras femininas cariocas. Na segunda parte do capítulo, trato das“Garotas” como jovens, uma categoria etária que começava a se definir no cenáriobrasileiro nos anos 1950. Nele procuro identificá-las como pertencentes a esse grupo, quetinha vestuário, linguagem, hábitos e preferências particulares e que, naquele momento,buscava uma identidade própria. O segundo capítulo, “Uma revista em especial: O Cruzeiro das ‘Garotas’”, trata,inicialmente, do império brasileiro das comunicações daquele período, os DiáriosAssociados, discorrendo sobre a sua história, importância no cenário da imprensa doBrasil, bem como, de forma breve, os periódicos e propriedades do grupo, em especial asrevistas O Cruzeiro e A Cigarra. Em um segundo momento, é abordado somente OCruzeiro, trazendo elementos como a sua história, características, público-alvo e conteúdo,evidenciado o seu papel como um marco no formato de revistas. O trabalho de AlceuPenna para a publicação é colocado em evidência, bem como a sua importância. Por fim, acoluna “As Garotas do Alceu” é estudada com maior dedicação, sendo investigadas asprincipais características, os respectivos redatores envolvidos, bem como o período devigência de cada um. O terceiro capítulo, “O corpo e a moda das ‘Garotas do Alceu’: um espelho doamanhã”, aborda inicialmente o corpo e a moda como meios de comunicação da mulher na 16
  17. 17. sociedade. A maneira com que a mulher contemporânea à coluna se relacionava com eles éanalisada, indicando-se, comparativamente, como era essa relação para “As Garotas”,perpassando temas como a cultura física e os comportamentos. Na segunda parte étrabalhado o conceito de mulher moderna veiculado pelos meios de comunicação,especialmente em O Cruzeiro. Nesse sentido é explorado até que ponto o perfil femininodas “Garotas” vai ao encontro desse ideal e de que maneira eles se separam. No quarto capítulo, “’Garotas’... algo a ser indefinido”, é analisada a questão doilustrador, um homem que desenhou mulheres, enfocando a produção e interpretação daimagem como um modo particular de o indivíduo ver o mundo e absorver o contexto emque está inserido. Na segunda parte, a forte ligação entre as imagens, os textos e o humorserá abordada. Por fim, será feita uma análise de imagens da coluna, juntamente com oauxílio dos textos, salientando os dois lados contraditórios das “Garotas”: ousado erecatado *** Atualmente, os acervos mais completos disponíveis sobre O Cruzeiro e a coluna“As Garotas do Alceu” são: o jornal Estado de Minas, em Belo Horizonte, e a BibliotecaMário de Andrade, em São Paulo 15 . Optei pelo acervo do Estado de Minas, pois, além deresguardar a coleção completa da revista em microfilme, o jornal também a disponibilizaem papel, devidamente encadernada e de fácil manuseio. Além disso, o arquivo temoriginais conservados da coluna “Garotas”, os quais trouxeram elementos novos a respeitodo processo de sua elaboração. Outra fonte de pesquisa foi o acervo de Thereza Penna. Nele existem registrossobre a carreira do ilustrador em geral, tais como capas de revistas, cadernos de desenhos,15 O acervo de O Cruzeiro foi para o Estado de Minas, publicação dos Diários Associados, após a falência darevista, em 1980. O jornal foi a única publicação dos Diários Associados com dinheiro e estrutura suficientespara comprar o arquivo. 17
  18. 18. publicidade e uma enormidade de outras referências pouco conhecidas. As conversas comThereza foram igualmente importantes, já que ela conviveu por anos de forma próximacom seu irmão. 18
  19. 19. 4- Balizas cronológicas A coluna “As Garotas” conta ao longo de sua vigência com diversas colaboraçõesde redatores, que auxiliaram “a dar vida” a essas figurinhas tão populares no Brasil emmeados do século XX. As contribuições mais freqüentes e homogêneas, portanto, maisrelevantes foram as de Alceu Penna, Accioly Netto (Lyto), Millôr Fernandes (Vão Gôgo),Edgar Alencar (A. Ladino) e Maria Luiza Castelo Branco. 16 Examinando as características de cada um deles, percebe-se que, excetuando aredatora Maria Luiza, todos os outros formam um conjunto singular. Os temas e textosdesse grupo são mais sensuais, maliciosos e bem-humorados e, portanto, se relacionammelhor com a imagem da mulher moderna propagada pela coluna. Esse perfil pode serpercebido, por exemplo, no texto de A. Ladino: “E ao invés das Garotas submissas,obedientes e quietinhas, como seria do nosso agrado, temos que enfrenta-las de igual paraigual.” 17 . Os temas e textos da redatora Maria Luiza Castello Branco são mais monótonos eassumem um tom de conselho para as leitoras, deixando de lado a ousadia para tratar detemas mais tradicionais como o casamento. A passagem a seguir, fala de um chá depanelas, um evento preparatório para o casamento, em nada semelhante à ousadia e malíciado primeiro grupo de redatores: “Para dar uma sacudidela nas amigas a Garota resolve darum “Chá de panelas”: cada uma das convidadas traz um utensílio para sua futura casa. ” 1816 Os redatores serão estudados com mais profundidade no capítulo 02, especificamente no item sobre acoluna “Garotas”.17 “As Garotas do Alceu”. “Mas as Garotas de hoje são assim!”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 09 deoutubro de 1948. p. 34 e 3518 “As Garotas do Alceu”. “Garotas e o chá de panela”. Texto Maria Luiza. In: O CRUZEIRO. 31 de outubro1959, p. 40-41. 19
  20. 20. Assim, o trabalho terá um recorte cronológico feito pelos textos. O período a serestudado vai do início da coluna em 1938, quando Alceu Penna ilustra e escreve os textosaté 1957, quando Edgar Alencar (A. Ladino) finda sua colaboração. Esse período também se torna oportuno para a análise, pois, além de compartilharde textos singulares ele caracteriza-se por transformações importantes no contextobrasileiro e na própria publicação de O Cruzeiro, os quais seriam importantes destacar. Além de ser o ano de início da coluna, 1938 torna-se um ponto de partidaimportante, pois antecede o conflito da Segunda Guerra Mundial e marca a crescenteinfluência do american way of life na América Latina, principalmente pelo cinema. Essemomento vai evidenciar a transição e o convívio das influências francesas e norte-americanas no país, importante para a compreensão da coluna em geral. Além disso, é também, ocasião do Estado Novo, um período marcado pelaemergência de um determinado ideal nacional. Esse tom é reproduzido na coluna,ilustrando uma figura feminina que, mesmo diante de influências estrangeiras, permaneceessencialmente brasileira, cultivando hábitos característicos de um morador do Rio deJaneiro como ir às praias e aos bailes de carnaval. Sob a perspectivada publicação O Cruzeiro, a exploração da década de 1940 éigualmente preciosa, pois ela sofre uma reformulação, presenciando vendagens grandiosas.Os conteúdos femininos, incluindo a coluna “As Garotas”, ganharam uma atenção especialnessa empreitada. Essas informações levam a crer que o público leitor da revista aumentoue, consequentemente, o da coluna também, que começava a se tornar bastante conhecida. O período de análise desse trabalho se finda em 1957, pois além de ser o ano demudança de redator, os últimos anos da seção coincidem com um período de reestruturaçãoda imprensa e de novos veículos moda/mulher, que compartilharam de um direcionamentodistinto de O Cruzeiro. A revista Manchete (1952), uma importante concorrente da 20
  21. 21. publicação, vai introduzir um formato gráfico mais avançado, impressa em um papel demelhor qualidade e contando com uma diagramação mais cuidadosa e atraente. A revistaClaudia (1961), por exemplo, coloca em pauta de forma mais aberta que na publicação das“Garotas”, temas como sexo e comportamento, sendo direcionada a uma mulher queansiava por uma identidade em meio à explosão consumista. Em termos de contexto político-econômico, o Brasil também entra em uma novafase, marcada pelo governo de JK, que introduzirá metas desenvolvimentistas e de aberturade mercado que alterarão o panorama do país em termos de padrões de consumo, imprensa,tecnologia, transportes entre outros. Esses fatos, juntamente com o estudo do período dos redatores citados, sóacrescentam informações valiosas ao trabalho, onde o recorte pelos textos complementa asinformações fornecidas pelo contexto nacional contemporâneo à coluna, auxiliando nadelimitação da linha cronológica a ser seguida. 21
  22. 22. 5 - Ser Alceu Penna é... ser versátil “Impossível esquecer o impacto causado por seus desenhos: as cores, o movimento, a vivacidade e a criatividade. O balanço das saias e dos corpos de suas Garotas ou o brilho e a sensualidade esfuziante de suas fantasias para shows e bailes de carnaval. Alceu misturava, como poucos, texturas, brilhos, babados, sonhos”. (Ruy Castro. Exposição “O Brasil na ponta do lápis”: Alceu Penna, modas e figurinos) 19 Alceu de Paula Penna nasceu em 1915 na cidade de Curvelo, norte de MinasGerais. Em 1932 ele muda para o Rio de Janeiro e matricula-se na Escola Nacional deBelas Artes. O primeiro emprego que conseguiu quando chegou à capital foi nosuplemento infantil de O Jornal, publicação do empresário Assis Chateaubriand. Esseemprego o levaria a conhecer Accioly Netto, inicialmente secretário de redação da revistaO Cruzeiro e, mais tarde, responsável por sua reformulação, a partir da década 1940. Em 1933, após esse contato, Alceu Penna dá início a um longo período de colaborações para a revista, incluindo editoriais de moda, capas e ilustrações de contos. Em 1936, fruto de uma indicação de Accioly Netto, que viria a se tornar um grande amigo, Alceu Penna inicia trabalhos para os mais Fig 01. Alceu Penna desenhando. O diversos cassinos da época, contribuindo com os ilustrador não costumava trabalhar fora de casa. Apreciava a companhia de sua figurinos, cenários e cardápios: irmã Thereza e o conforto da sua sala de estar. Sem data.19 CASTRO, Ruy. Texto de abertura da exposição “O Brasil na ponta do lápis: Alceu Penna, modas efigurinos”. Centro Universitário Senac-SP. Maio 2007 22
  23. 23. “Até o fechamento das luxuosas casas de jogo pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1946, ele trabalha em todos os cassinos mais famosos do Rio. Além da Urca, atua regularmente no Copacabana, no Icaraí e no Atlântico.” 20 O carnaval estava, desde o início, presente na sua trajetória e era um tema popular nas páginas da revista O Cruzeiro. Ele venceu concursos da Prefeitura do Rio de Janeiro em 1935, referentes às categorias de corso, baile e rua. Em 1936 foi a vez de Alceu Penna concorrer no Palace Hotel, quando se consagrou o grande destaque dos dois concursos: “Como no concurso de 1935, coube a maioria dos prêmios, ao jovem desenhista mineiro Alceu de Paula Penna, que levantou cinco das nove colocações (...).” 21 Mais tarde, em 1974, vai assinar as fantasias do bloco Canários das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Alceu Penna assinou inúmeras ilustrações de sugestões para fantasias em O Cruzeiro, Globo JuvenilAlceu Penna desenhou diversos croquis (periódico de quadrinhos) e na Cigarra (publicaçãopara cassinos e shows, que encantavampela mistura inusitada de cores e formas. feminina), que eram ansiosamente aguardadas:Fig.02 a. Figurino inspirado na óperaCarmem. Sem data.Fig 02 b. Figurino Bolero. Sem data.20 JUNIOR, Gonçalo. Alceu Penna e as garotas do Brasil: moda e imprensa 1933/1980. São Paulo: Clubedos Quadrinhos, 2004, p. 40.21 “O Concurso da A.A.B”. In: Revista O Cruzeiro. 15 de fevereiro, 1936, p.37. 23
  24. 24. “Produzia desenhos que atendiam aos variados tipos femininos que compunham seu público: desde as mais modestas, com fantasias menos luxuosas ou modelos improvisados para o carnaval de rua, até as mais abastadas, com sugestões sofisticadas para os bailes de gala.” 22 Alceu Penna se aproximou também das histórias em quadrinhos, sendo um dos pioneiros no Brasil, já que não havia muitos quadrinistas nacionais. Entre 1937 e 1938 ilustrou para O Globo Juvenil, propriedade do empresário Roberto Marinho, adaptações de obras como O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, juntamente com Nelson Rodrigues, além de Rei Arthur, Alice no País das Maravilhas, entre outros. Em 1938 começa a desenvolver a coluna “As Garotas do Alceu” em O Cruzeiro, a qual duraria até 1964. Ela foi inspirada nas “Gibson Girls”, de CharlesAs fantasias de carnaval criadas para OCruzeiro eram muito aguardadas pelas Dana Gibson, autor de desenhos de lindas e glamourosasleitoras, que corriam com eles para acostureira. A variedade de modelos eraimpressionante. mulheres. A coluna apresentava, semanalmente, umaFig. 03 a e 03 b. “Cada terra tem seuuso”. Sugestão de fantasias de Alceu diversidade de ousadas jovens, acompanhada de textosPenna, para O Cruzeiro. 04 de fevereirode 1939. bem-humorados. Tomando como inspiração a mulher, bem como os modismos cariocas, Alceu Penna criou um22 ANASTÁCIO, Marina Bruno Santo. Garotas do Alceu: moda feminina brasileira nas páginas de “OCruzeiro” entre 1938 e 1958. Monografia, UFRJ, Rio de Janeiro, 2003, p.5. 24
  25. 25. universo de inspiradoras beldades. “Pelas páginas de O Cruzeiro, o país botou na cabeçaque, além de metrópole e centro gerador de cultura, hábitos e modismos, o Rio tem também as mulheres mais bonitas.” 23 A coluna ilustrada levou milhares de leitores a copiarem a moda, os gestos, penteados e até mesmo a maquiagem das “Garotas”: “(...) elas parecem ter adquirido vida própria. Seus vestidos e penteados foram copiados, suas poses e atitudes chegaram a serem imitadas. Saíram das páginas da revista e foram parar nos “cadernos de recordação”, corte e costura e economia doméstica de algumas meninas ou nos sonhos e expectativas afetivas de certos rapazes. Assim, pode-se dizer que os desenhos de Alceu Penna propagaram modos e modas”. 24 Em 1939 ele viaja para Nova Iorque como correspondente para O Cruzeiro na Feira Mundial 25 . Sua intenção, além de conhecer o país, é investigar o mercado editorial norte-americano. Ele tenta publicar nos O ilustrador nas suas temporadas no exterior trazia as novidades em EUA e, apesar de falar muito bem a língua inglesa, moda, de forma adaptada para as leitoras de O Cruzeiro. verifica que a barreira do idioma lhe coloca em Fig.04 a. Croqui de modelo do costureiro Balenciaga, Sem data. desvantagem. Fig.04 b. Croqui de um modelo do costureiro Fath. Sem data. Durante a sua temporada no exterior ele secompromete a enviar regularmente material para a coluna “Garotas” e, também, sobreCarmen Miranda que, na ocasião, excursionava pelas terras norte-americanas. Segundo23 JUNIOR, Gonçalo. Op cit, p. 14.24 BASSANEZI, Carla. URSINI, Bombonatto Leslye. O Cruzeiro e As Garotas. In: Cadernos Pagu. Núcleode Estudos de gênero. Unicamp, 1995, p. 247.25 Uma das atrações da Feira de Nova Iorque era o pavilhão brasileiro chamado “Café do Brasil”. Algunsarquitetos como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, contemporâneos de Alceu Penna na Escola de Arquitetura,estavam participando do projeto na ocasião. Esse pavilhão evidenciava o poder de atuação da “política de boavizinhança” dos EUA para com a América Latina, buscando estreitar as relações entre os países. 25
  26. 26. Thereza Penna o ilustrador trabalhou como consultor informal das fantasias da atriz e cantora, sua conhecida desde os tempos dos cassinos (informação oral julho 2007). Uma nova etapa surge em sua carreira quando Walt Disney (1901-1966) visita o Brasil em 1941. Nesse período há um esforço de aproximação dos EUA com os países sul-americanos, fruto da política de “boa O ilustrador demonstrou a sua versatilidade ao criar diversos vizinhança”. Um dos objetivos do empresário é anúncios como esse, para o famoso sabão Sulfuroso. A bela figura feminina ousada é explorada pelo divulgar o filme de animação Fantasia. Inspirado pela proficional até nos anúncios. Fig. 05. Cartaz de Alceu Penna para o viagem, Disney decide criar o personagem Zé Carioca. sabão Sulfuroso. Sem data. Segundo Gonçalo Junior, Alceu Penna é chamado peloItamaraty, provavelmente em virtude da sua experiência internacional, para acompanhá-lona sua visita. Disney se impressiona com o talento de Alceu Penna e o contato rende aoilustrador um convite para trabalhar nos estúdios do norte-americano. Para a surpresa detodos, Alceu Penna prefere ficar no Brasil, onde já era reconhecido, pois no exteriorconcluiu que seria “mais um na multidão”. Alceu Penna também emprestou seu talento para a publicidade: cigarros Odalisca(1938), Casa Levy (1938), Melhoral (1947), Glostora (1947) (uma brilhantina para oscabelos), o sabão Sulfuroso, embalagens para o Café Globo, fraldas infantis. Além disso,ele desenvolveu um estudo de uniformes para a Shell e algumas lanchonetes. 26
  27. 27. Outros trabalhos se destacam, como os desenhos para o livro de partituras O SapoDourado (1934), de Hekel Tavares, além de O Palhacinho Quebrado, de Murilo Araújo(1945). Na coleção Disquinho, da gravadora Continental, ele ilustrou ChapeuzinhoVermelho (1959) e A Cigarra e a Formiga (1959). As seções de moda da revista Cigarra – Suplemento Feminino e de O Cruzeiro – Portifólio Modas foram marcos na carreira do ilustrador, trazendo as principais novidades em moda internacionais, devidamente adaptadas ao país, além de propor inúmeros figurinos para as populares festas de carnaval e junina. Em pesquisa ao acervo de Thereza Penna, irmã do ilustrador, em junho de 2006, pude constatar na sua biblioteca livros que eramAlceu Penna e Erté possuíam um estilo dinâmico de ilustração. O constantemente utilizados por ele.movimento era um fator central, assim como a composição de cores.Nos primeiros anos de carreira o ilustrador parecia se inspirar nosdesenhos de J Carlos, sendo um grande admirador de seu trabalho. Dessa forma, algumas referênciasColuna direita: Fig. 06 a. 06 b. Croquis de Alceu Penna para shows em desenho ficaram mais claras,ou cassinos. Sem dataColuna esquerda: Fig. 07 a. Capa livro “J Carlos: Época, vida e obra” como Erté (1892-1990) e J. Carlosde Álvaro Cotrim (Alvarus). Fig. 07 b. Ilustração de Erté “AlphabetCloak”. Sem data. (1884-1950), alguns dos nomespresentes na sua estante. 27
  28. 28. Após essa observação, ficou clara a influência de Erté e J. Carlos nos desenhos do ilustrador, mais precisamente, no início de sua carreira, na década de 1930, e, também, nos croquis para shows e cassinos. A forma do rosto arredondada, as sobrancelhas finas, os olhos ligeiramente puxados e a boca pequena são características comuns em ambos os ilustradores e detectadas nos desenhos de Alceu Penna. Os seus croquis de shows e cassinos, assim como as ilustrações de Erté, mostram roupas pomposas, em cores fortes e contrastantes, que enfatizam o movimento. Naturalmente, o traço do profissional se modificaria ao longo de sua carreira, recebendo outras influências, tais como a norte-americana. A partir de 1945, ele inicia as ilustrações para os As capas da Tricô e Crochê Calendários Santista, criados para divulgar os produtos contavam com a ajuda de Mercedes Penna, mãe do da empresa Moinhos Santista S/A 26 . As ilustrações dos ilustrador que tecia tramas diferentes para dar vida à capa. calendários eram mais sensuais e provocativas que as Os calendários Santistas de tão sensuais eram frequentemente censurados. “Garotas” e, portanto, sofreram algumas censuras. Ele irá Fig.09 a. Capa revista Tricô e colaborar, também, com a revista Tricô e Crochê (1946- Crochê. Exemplar pertencente à Mercedes Penna, mãe de Alceu. Sem data. 52), publicação de trabalhos manuais femininos Fig. 09 b. Ilustração Calendário Santista. 1945-46 pertencente à mesma empresa. Segundo Thereza Penna,a sua mãe, Mercedes, auxiliava na produção das capas ao fazer tricôs para as ilustrações,de forma a deixá-las com texturas mais reais (informação oral extraída em junho, 2006).26 Inicialmente, em 1905, é uma empresa de moagem de trigo e fabricação de derivados na cidade de Santos,SP. Posteriormente ela ampliou suas atividades para o setor de alimentos, passando também para a área têxtil,minero-químico, seguro, imobiliário, comércio exterior e transporte. 28
  29. 29. Já na década de 1950, devido ao fechamento dos cassinos, Alceu Penna desenvolvefigurinos para o teatro e shows como a peça Escândalos (1950), com Bibi Ferreira, e Quemroubou meu samba (1953), de Silveira Sampaio, no Hotel Glória. Alceu Penna, segundo sua irmã Thereza, não gostava de ser denominado estilista(informação oral extraída em fevereiro de 2006). Esse lado, entretanto, ficou muitoevidente quando iniciou a participação nos shows-desfiles da multinacional francesaRhodia S/A, assinando figurinos, juntamente com outros talentos, como o costureiro DenerPamplona e Guilherme Guimarães. 27 Foi nesse momento que sua ligação com São Paulo se estreita, levando-o a viagensconstantes à cidade. Cyro Del Nero lembra as particularidades de suas visitas a trabalho: “Meu amigo querido Alceu Penna era um homem de hábitos. Quando vinha à São Paulo ficava sempre no mesmo hotel e no mesmo apartamento, por causa da cama que tinha um colchão aprovado por ele. O hotel era na Praça da Bandeira e para ir para a Standard Propaganda nos encontrar – na Praça Roosevelt – ele subia a Ladeira da Memória e seguia pela Consolação.” 28 Em 1972 Alceu Penna desenha figurinos para o show Brazil Export, dirigido porAbelardo Figueiredo no Canecão, uma casa de shows famosa no Rio de Janeiro. Em 1973assina a coleção de verão da Fios Pessina e, em 1974, a coleção da Ducal Jeans/Madras,intitulada Golden Years. Nesse mesmo ano, inicia a sua colaboração com a revistaManequim, da Editora Abril, em que assina artigos sobre noivas e carnaval.27 A Rhodia estava presente no país desde 1919, porém, foi só a partir de 1955 que dá início à fabricação dofio sintético: “Em 1960, a empresa francesa implementa no país uma política de publicidade calcada naprodução de editoriais de moda para revistas e de desfiles, os quais conjugavam elementos da culturanacional (música, arte e pintura), a fim de associar o produto da multinacional à criação de uma ‘modabrasileira’”. In: BONADIO, Maria Claudia. O fio sintético é um show! Moda, política e publicidade RhodiaS/A. 1960-1970. Tese de Doutorado. Campinas, 2005, p. 10.28 TOLEDO. Marina Sartori de. A teatralização da moda brasileira: Os desfiles da Rhodia nos anos 60.Dissertação de mestrado em Artes Cênicas, ECA/USP, São Paulo, 2004, p. 24 29
  30. 30. Segundo Thereza Penna, a partir da segunda metade da década de 1970, o ilustrador diminui o ritmo das atividades profissionais, em razão de problemas de pressão. Seu traço já não tem a mesma firmeza, em virtude dos fortes medicamentos que é obrigado a tomar (informação oral, extraída em junho 2006). Ela acompanhou, firme e cuidadosa, os últimos dias de seu irmão. Em 13 de janeiro de 1980, Alceu Penna morre vítima de problemas circulatórios no Rio de Janeiro. O ilustrador foi um dos pioneiros do desenho de moda no Brasil e, também, da orientação de moda nos tempos dos editoriais de O Cruzeiro, Cigarra e outras. Seu traço, atual atéFig 08 a. Figurino de Alceu hoje, ensina muito sobre os percursos da história da moda e daPenna para Elza Soares. ShowBrazil Export, no Canecão.1972. imprensa nacionais.Fig. 08 b. Croqui para ofigurino da “Viúva doPalhaço” do show da RhodiaStravaganza. 1969. 30
  31. 31. 1. CAPÍTULO. “GAROTAS” CARIOCAS E JOVENS: UMA NOVAPERSPECTIVA1.1 “Garotas maravilhosas”: Rio de janeiro 1938 -1957 Este capítulo descreve e analisa o contexto em que se insere a coluna “As Garotasdo Alceu” – o Rio de Janeiro – procurando conectar as ilustrações a esse cenário noperíodo de sua vigência. Serão observados nas ilustrações elementos, tais como o estilo de vida, o grupo social a que indicam pertencer, os seus gostos e costumes. 29 A cidade havia se tornado o centro e modelo cultural para todo o Brasil, desde a chegada da Corte As Garotas podem ser consideradas uma das primeiras musas da Cidade Maravilhosa. Refletindo os hábitos cariocas, como ir à praia, elas davam o Real Portuguesa, em 1808, que falar. Fig 11. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas em Copacabana. 04 de emergindo como cidade janeiro de 1941. Texto Lyto. moderna moldada pelospadrões europeus de civilidade, que se prolongam ao longo da primeira metade do séculoXX 30 : “O Rio passa a editar não só as novas modas e comportamentos, mas acima de tudoos sistemas de valores, o modo de vida, a sensibilidade, o estado de espírito e as29 Entende-se por estilo de vida “(...) um conjunto unitário de preferências distintas que exprimem, na lógicaespecífica de cada subespaço simbólico (mobília, vestimenta, linguagem ou héxis corporal) a mesmaintenção expressiva (...)”. Assim, é pelas preferências de cada conjunto, não coincidentes com as de outros,que se define a imagem ou identificação de um estilo de vida. “As Garotas” tinham algumas preferênciasdistintas de outras meninas, reveladas pelas roupas, linguagem, corpo, demarcando um estilo de vida à parte.BOURDIEU, Pierre. In: ORTIZ, Renato. A sociedade de Pierre Bourdieu. São Paulo, 2003, p.74.30 Sobre o assunto ver: RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. A cidade e a moda: novas pretensões, novasdistinções: Rio de Janeiro, século XIX. Brasília: Ed. UnB, 2002 e NEEDELL, Jeffrey D. Belle Époquetropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. São Paulo: Companhia dasLetras, 1993. 31
  32. 32. disposições pulsionais que articulam a modernidade como experiência existencial eíntima.” 31 Apesar de a revista O Cruzeiro circular nacionalmente, Alceu Penna desenhou suas“Garotas” como cariocas, inspirando-se na cidade e no estilo de vida dos seus habitantes.Analisando a coluna, percebe-se que, entre os muitos programas sociais, elas gostavam deir à praia, tomar um lanche na Confeitaria Colombo e curtir as noites no Teatro Municipal,ou seja, típicos programas cariocas. Esse era o modelo difundido pelas ilustrações e textos: “O Cruzeiro, em seus primeiros anos, ao fazer circular imagens do Brasil em suas páginas e pretendendo ser um veículo integrador do território nacional, acabou por levar consigo os costumes da gente do Rio de Janeiro que era, na época, o portão de entrada para o Brasil e onde as novidades chegavam primeiro. O Rio é então apresentado por O Cruzeiro como modelo e índice de desenvolvimento para um país inteiro.” 32 A coluna “As Garotas” surgiu em pleno Estado Novo (1937-1945). As bases dogoverno totalitário foram geradas antes, na Revolução de 1930. O projeto modernizador foimarcado pelo fortalecimento do Estado e conseqüente centralização do poder, conquistadaatravés de uma linha intervencionista: “A intervenção do Estado tendia a ser mais intensano setor da indústria básica. O Estado era, na verdade, um agente de industrialização.” 33 Assim, o presidente implantou uma política nacionalista que, segundo EdgarCarone, estava focada na valorização do produto brasileiro, rejeitando a influênciaestrangeira que ameaçava a soberania do país: “Nacionalismo significa restrição àiniciativa estrangeira tanto política quanto econômica (...). No entanto, sendo representante31 SEVCENKO, Nicolau. A Capital irradiante: técnica, ritmos e ritos do Rio. In: SEVCENKO, Nicolau.História da vida privada volume 03. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 522.32 URSINI, Leslye Bombonatto. A revista O Cruzeiro na virada da década de 1930. Dissertação mestrado.Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2000, p. 52.33 TOTA, Antônio Pedro. Estado Novo. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 26. 32
  33. 33. de uma tendência geral, o fato se traduz numa ameaça ao capitalismo estrangeiro erepresenta barragem à sua maior expansão.” 34 O nacionalismo econômico-político se expandiu para o setor cultural 35 : “A questãoda cultura passa a ser concebida em termos de organização política, ou seja, o Estado criaaparatos culturais próprios, destinados a produzir e a difundir sua concepção de mundopara o conjunto da sociedade.” 36 Nesse sentido será buscada a construção de um ideal nacional programado atravésdas elites intelectuais 37 : “Na verdade não existe uma única identidade, mas uma história da‘ideologia da cultura brasileira’ que varia ao longo dos anos e segundo interesses políticosdos grupos que a elaboraram.” 38 O samba viverá, a partir dos anos 1930, uma fase de difusão em escala nunca antesvista, ao lado do carnaval, contando com o rádio para a sua ampla divulgação. 39 Ele passaa ser um dos símbolos mais marcantes da cultura brasileira, ou seja, do que se pretendia ser34 CARONE, Edgar. O Estado Novo (1937-1945). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988, p. 72.35 O governo, na tentativa de promover uma cultura brasileira apropriada, lançou mão de recursos como asdatas comemorativas, buscando a legitimidade e envolvimento da população nesse projeto. Getúlio Vargascriou, por exemplo, o “Dia da Música Popular” em 4 de janeiro de 1939, tornando-se admirado no meioartístico, apesar da ditadura: “Era de novo a ditadura escarrada, agora sob o nome de Estado Novo, e serianatural que muitos artistas se pusessem contra ele. Mas, pelas leis que passara beneficiando a música popular,o teatro, o cinema, o rádio, os cassinos, Getúlio parecia ter crédito ilimitado junto à categoria.” In: CASTRO,Ruy. Carmen: uma biografia. São Paulo: Cia das Letras, 2005, p.175.36 VELLOSO, Mônica Pimenta. In: OLIVEIRA, Lucia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, ÂngelaMaria de Castro. Estado novo: ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p.72.37 As elites foram encarregadas da manipulação de todo o conteúdo que se pretendia nacional: “(...) O EstadoNovo assumiu posturas marcadamente elitistas, empenhando-se na elevação da nação brasileira a ‘umpatamar de civilização’ que a colocasse ‘em pé de igualdade com as nações mais desenvolvidas do mundo”.In: VICENTE, Eduardo. A música popular sob o Estado Novo (1937-1945). Projeto de iniciação científicaPIBIC/CNPq. UNICAMP, 1994, p. 6. Disponível em:http://www.multirio.rj.gov.br/seculo21/pdf/samba/estado_novo_ok.pdf. Acessado em 03 de julho de 2007.38 ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo:Brasiliense, 1994, p. 183.39 A radiodifusão no Brasil desenvolveu-se rapidamente depois da Revolução de 1930, vindo a superar delonge o cinema como instrumento de cultura de massa. Cobrindo todo o território nacional, sendo uminstrumento especial na universalização dos gostos e costumes, dando à música popular dimensãoextraordinária, em um momento que a televisão não era a realidade. In: SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese deHistória da Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1996, p.92. O rádio foi um dos pilaresna difusão da ideologia do Estado Novo e sofreu ao lado de outros meios de comunicação um forte controledo DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda: “(...) Capanema idealiza um departamento depropaganda com o objetivo de ‘atingir todas as camadas populares’, instrumento que deveria ser um aparelhovivaz de alcance, dotado de forte poder de irradiação e infiltração, tendo por função o esclarecimento,preparo, orientação edificadas numa palavra, a cultura de massa.”. In: ORTIZ, Renato. Op cit, p.51. 33
  34. 34. nacional. 40 O ritmo foi destacado de suas origens, aproximando-se da cultura urbana e doprogresso 41 : “O samba urbano surgiu entre os compositores do Estácio, bairro proletário docentro com a zona norte, que buscavam uma batida nova, favorável ao ritmo do desfile daescola de samba. Como a marchinha, o samba alcançava os demais segmentos dasociedade pelo rádio e carnaval.” 42 Será, particularmente, o samba urbano que terá presença na coluna. A seção“Garotas carnaval” em 14 de fevereiro de 1942 deixava claro o humor e duplo-sentidodesse tipo de música: “A Margarida disse que só andará de automóvel e ônibus nocarnaval. Mas porque? Tem medo que cantem “... tem galinha no bonde!” O samba na coluna vinha, normalmente, vinculado à festa carnavalesca. 43 “AsGarotas” compartilhavam dessa experiência em ambientes da classe média e elite. “Garotasde Fevereiro”, em 7 de fevereiro de 1942 apresenta as figuras em plena folia vestindo40 No Brasil não havia, até então, uma fixação de gêneros musicais. A indústria fonográfica se ampliou noperíodo, aparecendo novos intérpretes, inclusive brancos da classe média como Noel Rosa, que impulsioname deram visibilidade ao estilo. O samba começa uma aproximação das classes mais abastadas e, naturalmente,é apropriado e modificado para adequar-se às novas demandas. In: VIANNA, Hermano. O mistério dosamba. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2002. Oportunamente, de alvo de preconceito ele foi alçado a símbolonacional. Foram criados os sambas exaltação, verdadeiros aparelhos ideológicos do Estado Novo, comoAquarela do Brasil. Ary Barroso, o compositor da música, disse que, ao criá-la, “foi sentindo toda a grandezae opulência da nossa terra”, comprovando a capacidade de idealização do país nos versos da canção, que veioa se tornar mais popular que o próprio Hino Nacional. In: ZAN, José Roberto. Música popular brasileira,indústria cultural e identidade. In: EccoS Ver. Cient., Uninove, São Paulo (n.): 1 e v. 3: 105-122, p. 110.Certamente, nesse sentido, o Estado soube explorar a capacidade de integração e difusão de ideais contidosna música em benefício próprio.41 O samba brasileiro pode ser dividido em duas primeiras fases: o antes da década de 1930 e depois desseperíodo. O samba no início do século era praticado principalmente por comunidades negras e mestiças, quelevaram consigo essa manifestação da Bahia, sua terra natal, para o Rio de Janeiro, na ocasião do fim dotráfico negreiro em 1850. Como eram festeiros, as confraternizações eram chamadas de sambas, assim comoa música presente. In: SANDRONI, Carlos. Transformações no samba carioca no século XX. Disponível em:http://www.dc.mre.gov.br/brasil/textos/78a83%20Po.pdf. Acessado em 28 de setembro de 2006. Assim, osamba carioca pode ser interpretado como uma adaptação da herança escrava negra, que da Bahia migroupara o cenário carioca, sendo modificado pelo ritmo das escolas de samba. In: SODRÉ, Muniz. Samba, odono do corpo: ensaios. Rio de Janeiro: Codecri, 1979.42 COSTA, Tânia Garcia da. O “it verde amarelo” de Carmen Miranda (1930-1946).. São Paulo: Annablume;Fapesp, 2004, p. 34.43 A festa carnavalesca vai estar intimamente atrelada ao samba urbano nascido no Rio de Janeiro,contribuindo para a sua difusão como símbolo nacional. In: VIANNA, Hermano. Op cit, p. 122. Antes, afesta era reprimida pela polícia com o pretexto da violência entre os blocos. Em 1932 foi totalmenteregularizada, cabendo à prefeitura a sua promoção. Com o Estado Novo, o carnaval sofreu maismodificações, pelo estabelecimento de concursos entre as escolas de samba, que deveriam criar sambas-enredos com temas folclóricos, literários ou biográficos. Essa era uma forma de inibir a criação de conteúdosnão pertinentes e perpetuar a ideologia estado-novista. In: COSTA, Tânia Garcia da. Op cit, p.59. 34
  35. 35. fantasias impecáveis: “Este mês é o mês do Momo e as Garotas ‘fans’ da orgia meditam (sabe Deus como) na escolha da fantasia.” Em “Batucada das Garotas”, em 12 de fevereiro de 1944, uma “Garota” relata um episódio ocorrido com sua amiga em que o marido desta expressou grande indignação frente à hora que ela tinha chegado da folia, entoando uma canção de carnaval: O samba e a festa carnavalesca estavam não apenas entre os símbolos nacionais promovidos pelo discurso do Estado Novo, mas também das “Garotas”, que continuarão a perpetuar a “Vai, vai, vai... Não pense que eu dimensão urbana adquirida por eles no período, pelos anos seguintes com entusiasmo. vou chorar... Mulher igual a você Fig 12 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas de fevereiro”. 07 de fevereiro de 1942. Texto Lyto. eu encontro em qualquer lugar.” Fig 12 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Municipal com as Garotas”. 18 de fevereiro de 1956. Texto A. Ladino “No Municipal com asGarotas”, em 18 de fevereiro de 1956, apesar de fugir ao período em questão, reforça adimensão urbana da festa carnavalesca carioca que será perpetuada: “As Garotas atraentessão jóias resplandecentes do baile monumental. Prêmios, prêmios não ganharam, mas todasse conformaram, pois podem dizer contentes às coleguinhas ausentes: eu fui aoMunicipal.” Dentro desse contexto, as manifestações cívicas entraram como mais um suporteideológico do governo, buscando ao mesmo tempo aproximar-se das massas e estabelecercerta distância, ao se apresentar de forma idealizada: “O Estado Novo é o primeiromomento em que se procura dar sentido mítico ao Estado (...) esse processo será 35
  36. 36. desenvolvido através da imprensa, do rádio e do cinema, bem como da promoção de festas populares e cerimônias cívicas em exaltação às principais datas nacionais e feitos do governo.” 44 “Garotas de setembro”, em 5 de setembro de 1942, fazia referência à data comemorativa da independência do país, o 7 de Setembro: “Vivas, vibrantes, libertas, da pátria um luzido membro, formam aqui filas As “Garotas” demonstravam o seu patriotismo na data comemorativa da independência do Brasil, em um momento que o Estado Novo procurou forjar uma unidade nacional. concretas as ‘Garotas’ de setembro Fig 13 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas de setembro”. 05 de setembro de 1942. Texto Millôr Fernandes (...) Salve ufana brasileira, não As ilustrações estavam mais para o descanso que para o trabalho. Aproveitavam o máximo a vida com passeios e tens lança, tens espada, mas se te viagens. Ainda bem, que Getulio Vargas não precisou delas para dar continuidade ao seu projeto modernizador. beijam faceira, quero crer que... Fig 13 b. Coluna “As Garotas do Alceu”. “Garotas em férias”. 17 de novembro de 1945. Texto Vão Gôgo. fazes nada.” Tendo em vista o projeto de construção de um país moderno, o Estado gerou umaideologia de valorização do trabalho, sendo encarado como uma ferramenta pela qual apopulação participaria desse esforço. Além disso, era necessário apagar tudo que ia contraesse ideal: “Era preciso combater tanto o subversivo, identificado ao inimigo externo, ao44 VICENTE. Eduardo. Cit, p. 05 36
  37. 37. estrangeiro de pátria e de ideais, quanto o malandro, o inimigo interno que se definia como avesso ao trabalho e às leis e regras da ordem constituída.” 45 Dessa maneira, reuniram-se esforços para tentar apagar a noção arraigada de que o brasileiro era preguiçoso e malandro 46 : “(...) nos anos 30 procura-se transformar radicalmente o conceito de homem brasileiro. Qualidades como preguiça, indolência, consideradas inerentes à raça mestiça são substituídas por uma ideologiaAs influências do cinema norte-americano são sentidas desde o do trabalho.” 47início da coluna, reproduzindo a beleza e atitudeshollywoodinas, com o devido tempero brasileiro. Observando esse incentivo, asFig 14 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garota Cinema”. 26de novembro de 1938. Texto Alceu Penna ilustrações não pareciam seguir, de maneiraNa temporada de Alceu Penna em NY, o estilo de vida norte-americano foi trazido para as leitoras e leitores de O Cruzeiro, geral, à risca o propósito do Estado Novo.comprovada pela tradicional luta de boxe no Madison SquareGarden. “As Garotas”, de maneira geral, até pelaFig. 14 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas e a luta deBox. 27 de julho de 1940 condição de jovens, não apareciam encarando responsabilidades, como um emprego. Eram ilustradas curtindo a vida e o relax: “Na serra, no campo, no lago ou na praia, lá se vão novamente de férias as nossas garotas. Vão e voltam como as andorinhas e como as andorinhas são inconstantes e aéreas.” 48 45 GOMES, Ângela Maria de Castro. In: OLIVEIRA, Lucia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, Ângela Maria de Castro. Estado novo: ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 164 46 A figura do malandro que sempre permeou a vida popular, especialmente manifestado no samba - malandro, modifica-se para enquadrar-se aos novos anseios. Ele torna-se civilizado, se parecendo um galã de Hollywood, não anda mais armado e despiu-se do lenço no pescoço e chapéu de palha, à exemplo do samba de Ary Barroso “Mulatinho bamba” gravado por Carmen Miranda em 1935. In: COSTA. Tânia Garcia da. Op cit, p. 56 47 ORTIZ. Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 42 37
  38. 38. “As Garotas”, em linhas gerais, absorveram diretrizes nacionalistas do período pela valorização dos cenários brasileiros, da música, festas, bem como da mulher e do seu vestuário, ainda que fossem espelhados na cultura Nesse período, até mesmo em eventos nacionais populares como o carnaval, a influência norte-americana se fazia presente na carioca. As ilustrações, mesmo coluna. Uma ilustração está vestida com um conjunto de short e blusa estampados com motivos da bandeira dos EUA. Apesar disso, havia influências da artista Carmen Miranda, também, assim, não se fecharam às notada pelas fantasias inspiradas na sua famosa baiana. influências estrangeiras, Fig. 15. Coluna “As Garotas do Alceu”: Garotas & Carnaval em 14 de fevereiro de 1942. Texto Alceu Penna especialmente a norte-americana: “O traço comum às mudanças que entãoocorriam no Brasil na maneira de ver, sentir, explicar e expressar o mundo era a marcanteinfluência que aquelas mudanças recebiam do american way of life.” 49 Devido à Segunda Guerra Mundial, o relacionamento entre Brasil e EUA foifortalecido, estreitando-se essa ligação pela política de “Boa vizinhança” (1933-1945),buscando apagar a lembrança imperialista, nada simpatizante, do Big Stick: “Os métodosmudaram, mas os objetivos permanecem os mesmos: minimizar a influência européia naAmérica Latina, manter a liderança norte-americana e encorajar a estabilidade política nocontinente.” 50 No campo cultural os norte-americanos valeram-se de táticas como a MissãoRockefeller, para aproximar a nação do Brasil, trazendo os artistas, incluindo Walt Disneyque na ocasião lançava sua última produção - Fantasia: “(...) além de Disney vieram com a48 “As Garotas do Alceu”. “Garotas em férias”. Texto Vão Gôgo. In: O CRUZEIRO. 17 de novembro de1945, p. 22 e 2349 MOURA. Gerson. O Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana. São Paulo: Brasiliense,1984, p.0850 MOURA. Gerson. Op cit, p. 18 38
  39. 39. missão cultural famosos artistas do cinema americano: Tyrone Power, Henry Fonda, Douglas Fairbanks. O Rio de Janeiro exultava com os astros e o governo brasileiro aproximava ainda mais dos americanos.” 51 Observando o impacto dessa política na coluna, é perceptível que os costumes e estilo de vida dos EUA serão trazidos de maneira próxima para “As Garotas”, quando Alceu Penna viaja para a Feira de Mundial em Nova York. 52 Em 27 de julho de “As Garotas” tentavam copiar as americanas do norte na destreza da cozinha, embora o esforço fosse em vão. Os 1940, em “Garotas e a luta de Box”, o hábitos alimentares, também, sofrerão influências, fazendo as figurinhas trocarem caviar por um suculento beef. cenário era um torneio de box amador Fig 16 a. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e a arte da culinária”. 26 de novembro de 1938. Texto A. Ladino no Madison Square Garden, um Fig 16 b. Coluna “As Garotas do Alceu”: “Para Agradar as Garotas”. 11 de março de 1944. Texto Alceu Penna programa tipicamente norte- americano: “Não podendo assistir aoencontro Godoy x Loe Louis, as “Garotas” me carregaram para o Madson. Para encurtarrazões – tive que me retirar antes do fim, para evitar um conflito, dada a torcida ‘violenta’das meninas, em favor dos boxeus... bonitinhos...” Na realidade a influência norte-americana será presente durante todo o EstadoNovo. Entretanto, as aproximações com a cultura estrangeira deveriam respeitar um limite,algo ignorado por Carmen Miranda, que não escapou de uma recepção fria ao voltar de sua51 TOTA, Antônio Pedro. Op cit, p. 54.52 Alceu Penna foi para os EUA em 20 de setembro 1939 e permaneceu lá até junho de 1941. 39
  40. 40. turnê pelos EUA, fugindo do ideal musical brasileiro aprovado pelo Estado Novo 53 : “Adenúncia da ‘americanização de Carmen Miranda mostrava que existia no Brasil de 1940um movimento difuso que defendia a correta utilização desses novos símbolos nacionais.A mistura do samba com a música norte-americana, por exemplo, não podia ultrapassardeterminados limites.” 54 A figura de Carmen Miranda ecoou não apenas nos EUA, mas aqui no país. Énotável perceber na coluna a quantidade de fantasias de carnaval inspiradas no figurino daartista. Muitos turbantes com penduricalhos, colares, frutas amarradas, tecidos coloridos econtrastantes. O cinema será outra evidência da influência dos EUA na coluna, presente desde osprimórdios dela. 55 Em 10 de dezembro de 1938, em “Garotas de festas”, certo ator famosode Hollywood aparenta causar comoção nas ilustrações: “A Elvira se apaixonou de talmaneira pelo Tyrone Power que quase morreu. E curou-se? Com um sósia...” Essa influência cinematográfica tende a crescer após a Segunda Guerra Mundial,sendo um importante porta-voz na difusão de gostos e estilos do american way of life, emmeio à Guerra Fria: “(...) após a Segunda Guerra, o cinema se tornou a vitrine porexcelência da exibição de glamourização dos novos materiais, objetos utilitários eequipamentos de conforto e decoração doméstica.” 5653 Carmen Miranda, ao se apresentar no cassino da Urca em julho de 1940, não entendeu de imediato o seuinsucesso. O que os presentes em seu show viram foi uma Carmen demasiadamente estilizada, cantando algoque não era supostamente a música brasileira pura, gesticulando em excesso (hábito adquirido nos EUA parasuprir a falta de comunicação) e, pior, saudando a platéia com um good night, people! A artista foi aclamadapelo povo em sua chegada, mas ali ela cantava para o alto escalão do Estado Novo. A frieza, olhada por esseângulo, fez completo sentido: “Carmen abriu com ‘South American Way’. Pelo menos três minutosseguintes, gelo na platéia. O samba-rumba, muito fraco para os padrões brasileiros, teve de arrastar-sesozinho até a última nota.” In: CASTRO, Ruy. Op cit, 249-250.54 VIANNA, Hermano. Op cit, p. 131.55 A influência do cinema norte-americano data desde a década de 1920 no Brasil. Segundo Susan Besse, assalas de projeção proliferaram a partir de 1910 e, na década de 1920, ir ao cinema estava entre ospassatempos mais populares para jovens e velhos, homens e mulheres, pobres e ricos. In: BESSE, Susan.Modernizando a desigualdade: reestruturação da ideologia de gênero no Brasil 1914-40. São Paulo:Universitária SP, 1999, p.26.56 SEVCENKO, Nicolau. Op cit, p.602. 40
  41. 41. Em “Garotas e a arte da culinária”, de 22 de abril de 1950, as ilustrações buscam inspiração nos hábitos das mulheres norte- americanas ao encarnarem a “rainha do lar”: “As Garotas viram no cinema o desembaraço com que O bom gosto francês aparecia tanto na moda de gala quanto nos programas inspirados no país. Apesar da influência norte- americana maciça, ambas vertentes serão presenciadas na coluna. as americanas do norte vão para a Fig.17 Coluna “As Garotas do Alceu”: “Garotas e a comedie française”. 27 de maio de 1950. Texto A. Ladino cozinha.” Os EUA promoviam oconsumo de objetos ligados ao seu estilo de vida, levando, discretamente, seu imperialismocultural: “Ao importar o cadillac, os chicletes, a coca-cola e o cinema, não importamosapenas objetos e mercadorias, mas também todo um complexo de valores e condutas quese acham implicados nesses produtos.” 57 Em “Para agradar as Garotas”, de 11 de março de 1944, a cultura norte-americanaparecia afetar até o paladar das “Garotas”, que buscavam alternativas ao gosto francês:“Para agradar ao paladar das Garotas alguns aconselham champanhe, caviar e marrom-glacê. Hoje estamos certos de que um quilo de beef será mais recomendável.” Além de todos os produtos que traziam o estilo de vida do país internalizado, essainfluência ficava clara até no vocabulário. “Conselhos das Garotas”, em 7 de agosto de1943, evidencia o emprego de algumas palavras em inglês no cotidiano pelas “Garotas”,comprovando o quão fundo foi esse imperialismo: “Quando não souberes o destino de umaestrada, nunca andes nela com um boy. O destino em geral é o espeto.”57 CORBISIER, Roland. Formação e probabilidade da cultura Brasileira. Rio de Janeiro: ISEB, 1958, p. 69.In: ORTIZ. Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo:Brasiliense, 1994, p. 69. 41
  42. 42. Apesar da emergência do modelo norte-americano, o francês continuava sendo umareferência em bom gosto e tradição. “As Garotas” o apreciavam, sendo isso evidenciadopelos costureiros franceses, pelo vocabulário usado na coluna e mesmo pelos programasinfluenciados pela cultura do país, que garantiam certa aparência de sofisticação: “JeanLouis Barrault! Madeleine Renaud! As Garotas tinham que assistir às noitadasmaravilhosas da ‘Comedie Française’ no Municipal.” 58 Os dois modelos passam a conviver, lado a lado, disputando constantemente o lugarde prestígio: “É interessante notar, que apesar da preponderância francesa, as diversasinfluências passam a coexistir no mundo da moda com maior flexibilidade de aceitação,conforme representado na coluna Garotas (...).” 59 Em “Garotas qual é seu tipo?”, de 29 de agosto de 1942, são apresentados variadostipos de “Garotas”, das quais destaco a Granfina que curiosamente mistura elementosnorte-americanos e franceses, em um tom de valorização dos dois países: “A autêntica, quejá esteve na Europa ou Estados Unidos, foi educada no Sion ou no Sacré Coeur. Produtonacional, ‘não se dá bem aqui’. Fala francês e inglês. Finge detestar tudo, mas intimamentepossui gostos burgueses.” Influências estrangeiras continuaram a crescer, principalmente durante o governodo presidente JK, a partir de 1956, configurando-se como o auge do americanismo noBrasil. Ainda na trilha do desenvolvimento, o país passa a vivenciar uma urbanização eindustrialização em proporções desconhecidas. Com uma política desenvolvimentista e deabertura do mercado, o Brasil assistiu a uma invasão de indústrias estrangeiras, como aautomobilística. O presidente propunha realizar 50 anos em 5, mesmo à custa de uma58 “As Garotas do Alceu”. “Garotas e a Comedie Française”. Texto A. Ladino. In: O CRUZEIRO. 27 de maiode 1950, p.38 e 39.59 ANASTÁCIO, Marina Bruno Santo. Garotas do Alceu: moda feminina brasileira nas páginas de “OCruzeiro” entre 1938 e 1958. Monografia, UFRJ, Rio de Janeiro, 2003, p. 38. 42
  43. 43. inflação galopante: “A industrialização era apresentada, tal e qual nos anos 30, como chaveda emancipação de todos e a conquista do bem-estar geral.”60 Os bens de consumo diversificaram-se e invadiram os lares brasileiros, tornandocada vez mais prática a vida doméstica: “Dispúnhamos, também, de todas as maravilhas eletrodomésticas: o ferro elétrico, que substituiu o ferro a carvão (...) o chuveiro elétrico; o liquidificador e a batedeira de bolo; a geladeira; o secador de cabelos (....) o aspirador de pó, substituindo as vassouras e o espanador; a enceradeira, no lugar do escovão(...).” 61 Uma febre do “novo” e “moderno” se instalava no gosto nacional: “Da simpleslâmina de barbear ao mais requintado automóvel, não havia nos anos 50 e 60 bem deconsumo que não pretendesse “moderno”, “novo”, “inédito.” 62 A modernização tornou-seum ideal a ser alcançado a fim de nos livramos do atraso em que nos encontrávamos frentea nações mais desenvolvidas. Os eletrodomésticos eram anunciados como supostos libertadores da mulher,dotados de certa aura fantástica: “Do mesmo modo, as ilustrações das propagandas de fogões, com fornos que transbordam assados, suflês e outros pratos, enquanto mulheres elegantemente vestidas apreciavam o espetáculo, sugeriam que se tratava de máquinas de cozinhar mágicas, com capacidade de preparar refeições por algum processo de imaculada concepção.” 6360 FIGUEREDO, Anna Cristina Camargo Moraes. Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada.Publicidade, cultura de consumo e comportamento político no Brasil (1954-1964), São Paulo: Hucitec 1998,p.6261 MELLO, João Manuel Cardoso de; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo Tardio e sociabilidade moderna.In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da Vida Privada v.4. São Paulo: Companhia das letras, 1998,p. 564.62 FIGUEREDO, Anna Cristina Camargo Moraes. Op cit, p.31.63 FORTY, Adrian. Objeto de desejo: design e sociedade desde 1750. São Paulo: Cosac & Naif, 2007, p.283. 43

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